{"id":2344,"date":"2021-03-12T22:32:31","date_gmt":"2021-03-13T01:32:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/covid-19\/?p=2344"},"modified":"2021-03-12T22:32:31","modified_gmt":"2021-03-13T01:32:31","slug":"dados-da-covid-como-pesquisadores-e-imprensa-toureiam-o-quinto-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clorofreela.com.br\/revistablogs\/2021\/03\/12\/dados-da-covid-como-pesquisadores-e-imprensa-toureiam-o-quinto-risco\/","title":{"rendered":"Dados da Covid: como pesquisadores e imprensa toureiam o Quinto Risco"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\"><em>Texto produzido por Marcelo Soares<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um ano, comecei a observar com lupa as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis sobre o espalhamento da doen\u00e7a. Isto \u00e0s v\u00e9speras daquele breve momento em que S\u00e3o Paulo parou quase completamente para evitar o espalhamento do ent\u00e3o novo coronav\u00edrus. Queria ter uma ideia do que se sabia sobre o v\u00edrus. A resposta era simples: muito pouco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tinha um painel atualizado diariamente, mas apenas com o estado conhecido do v\u00edrus naquele dia. Os dados eram granulares apenas por Estado, o que n\u00e3o permitia muita sofistica\u00e7\u00e3o de an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das principais peculiaridades de um pa\u00eds do porte do Brasil \u00e9 ter cidades mais populosas que pa\u00edses inteiros. Antes do distanciamento social, consegui ir duas vezes de uma cidade t\u00e3o populosa quanto a Bol\u00edvia (S\u00e3o Paulo) para outra t\u00e3o populosa quanto o Chipre (Campinas). A raz\u00e3o das viagens eram minhas primeiras aulas no mestrado do Labjor. Ao sair de casa \u00e0s seis da manh\u00e3, usava um moletom. Todavia, ao chegar \u00e0 Unicamp, estava suando em bicas mesmo com o moletom na mochila. A \u00e1rea de S\u00e3o Paulo \u00e9 semelhante \u00e0 do Reino Unido inteiro. E o v\u00edrus se espalha de maneiras diferentes conforme as diferentes popula\u00e7\u00f5es mudam de comportamento. Nesse contexto, dados agregados por Estado n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o \u00fateis para entender a din\u00e2mica da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os dados de Coronav\u00edrus no Brasil<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Inicialmente, o painel federal trazia tr\u00eas categorias de n\u00fameros. Primeiramente, o n\u00famero de casos suspeitos (ou seja, pessoas que buscaram atendimento e foram testadas). Tamb\u00e9m tinha os casos descartados (ou seja, testes negativos) e, por fim, confirmados &#8211; at\u00e9 ali, ainda n\u00e3o havia mortes. Em seguida, passaram a ser publicados apenas os casos confirmados. Em 9 de mar\u00e7o, tornei meus gr\u00e1ficos p\u00fablicos pela primeira vez, <a href=\"http:\/\/www.lagomdata.com.br\/coronavirus\">no site da minha empresa, Lagom Data<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/3hVTshlWnVf8JVYQrcuWyONR3oTQsGtXhGhFWL7NRj-19WM25-D9T55PGAeLhIz2q0P-E2tPUxFdW-dT6wnSWy99s1nDn5l8_rA_4Z6oxqg9jzfSfCMjaEJwwo80xw5i8muOuDXg\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A fonte era o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que por qualquer l\u00f3gica seria a \u00fanica fonte leg\u00edtima de informa\u00e7\u00f5es sobre sa\u00fade no pa\u00eds. Entra governo, sai governo, o corpo t\u00e9cnico do Sistema \u00danico de Sa\u00fade \u00e9 altamente qualificado e estaria preparado para qualquer parada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O Quinto Risco<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Estaria preparado, exceto uma situa\u00e7\u00e3o&#8230; Se estiver mais vulner\u00e1vel do que de costume ao que Michael Lewis chamou de \u201c<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3vdbap7\">O Quinto Risco<\/a>\u201d. Ou seja, \u201co risco que a sociedade corre quando adota o h\u00e1bito de sanar riscos de longo prazo com solu\u00e7\u00f5es de curto prazo\u201d. O livro trata do governo Trump, mas aplica-se bem aos governos que tentam imit\u00e1-lo. Por l\u00e1, como mostra o livro, o que por diversas vezes salvou a sociedade dos \u00edmpetos de um pol\u00edtico populista, foi o esp\u00edrito p\u00fablico do funcionalismo est\u00e1vel e qualificado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas semanas seguintes, ver\u00edamos dois ministros serem \u201cfritados\u201d e, mesmo n\u00e3o sendo ministros dos sonhos, serem substitu\u00eddos por um pesadello. Dessa forma, toureando com uma das m\u00e3os uma emerg\u00eancia global de sa\u00fade e com a outra o Quinto Risco, fornecer dados da melhor maneira poss\u00edvel acabou se encaixando nas prioridades do minist\u00e9rio primeiro como uma filigrana e depois como um campo de batalha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando esse gr\u00e1fico acima foi publicado, eu j\u00e1 tinha percebido um padr\u00e3o curioso. Por exemplo, a Bahia permaneceu por uns tr\u00eas dias com apenas tr\u00eas casos confirmados da doen\u00e7a. Por curiosidade &#8211; principal ferramenta de trabalho de um jornalista -, chequei o site da Secretaria da Sa\u00fade da Bahia. Estavam l\u00e1 nove casos. A forma de coleta de dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade consistia em aguardar o telefonema das secretarias estaduais para atualizar os dados. Isto segundo explicou uma reportagem do \u201cEl Pa\u00eds\u201d. Isso mesmo que voc\u00eas leram. Temos um Sistema \u00danico de Sa\u00fade, presente em todos os munic\u00edpios brasileiros e, bem ou mal, equipado para centralizar alertas sobre doen\u00e7as de notifica\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria. Mas o Minist\u00e9rio aguardava telefonemas com dados.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Garimpando dados \u201cna unha\u201d<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, comecei a visitar diariamente os sites das <strong>27 secretarias estaduais de sa\u00fade do Brasil <\/strong>para coletar os novos dados. Para quem cobriu elei\u00e7\u00f5es nos anos 90, nos prim\u00f3rdios da internet e do voto eletr\u00f4nico, quando a apura\u00e7\u00e3o durava dias e dias, n\u00e3o era nada de outro mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica era simples: assim como o governo federal detalhava por Estados, os estaduais detalhariam por munic\u00edpio. E foi o que fizeram. S\u00f3 que, sem orienta\u00e7\u00e3o central sobre como faz\u00ea-lo, cada secretaria fez isso do jeito que achou melhor. Umas publicavam releases: \u201cOntem, foram identificados X casos na cidade Y\u201d. Outras publicavam cards em redes sociais. Algumas outras, em PDF &#8211; um formato que permite fazer de conta que se abre dados mesmo dificultando a vida de quem quer analis\u00e1-los. Outras ainda, em tabelas no site. Entretanto, uma minoria publicava em planilhas. Assim, em poucos dias, um levantamento que me tomava <strong>15 minutos<\/strong> j\u00e1 estava tomando<strong> uma hora<\/strong>. E depois aumentou.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa bagun\u00e7a de formatos s\u00f3 mudou quando a ONG Open Knowledge Brasil criou um <a href=\"https:\/\/transparenciacovid19.ok.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ranking de transpar\u00eancia dos Estados<\/a> com os dados da Covid-19. Para subir no ranking, cada Estado p\u00f4s press\u00e3o em suas equipes para melhorar o formato de divulga\u00e7\u00e3o dos dados. Em dois meses, os maiores fiascos de mar\u00e7o eram modelos de transpar\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas em maio, \u00e0s v\u00e9speras da sa\u00edda do segundo ministro da Sa\u00fade da pandemia, o minist\u00e9rio passou a publicar os dados por munic\u00edpio. At\u00e9 aquele ponto, as \u00fanicas fontes de dados que compilavam informa\u00e7\u00f5es de todos os munic\u00edpios do Brasil, eram o monitoramento da Lagom Data e uns dois ou tr\u00eas outros que surgiram depois com a mesma l\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por algumas vezes, jornalistas e pesquisadores diziam que esses monitoramentos eram a fonte mais confi\u00e1vel de informa\u00e7\u00f5es sobre a doen\u00e7a. Sempre achei isso perigoso.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Seguro ou completo? Para que serve um monitoramento de dados?<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Mais completos, com certeza os bancos de dados independentes eram \u2013 a finalidade de um monitoramento assim \u00e9 justamente mostrar ao poder p\u00fablico, que gera as informa\u00e7\u00f5es, que esses dados s\u00e3o cruciais para monitorar a emerg\u00eancia e que eles podem ser organizados de maneira mais \u00fatil. A confiabilidade, por\u00e9m, sempre esteve longe das nossas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um erro achar que dados obtidos de segunda m\u00e3o possam ser mais confi\u00e1veis do que dados de primeira m\u00e3o. Por melhor organizados que estejam, eles dependem dos dados de primeira m\u00e3o para existir. E a primeira m\u00e3o \u00e9 necessariamente a de quem define e executa as pol\u00edticas de enfrentamento da doen\u00e7a nos munic\u00edpios, Estados e governo federal. \u00c9 a m\u00e3o de quem pode frear o Quinto Risco. L\u00e1 na ponta, costumo dizer, os dados s\u00e3o profundamente humanos. No caso dos dados da Covid, eles s\u00e3o anotados em fichas de papel pelos mesmos profissionais da sa\u00fade exaustos que atendem a pacientes em casos emergenciais com escassez de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual e outros recursos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Para haver um n\u00famero de casos confirmados, precisar\u00edamos de mais testes aplicados.<\/h6>\n\n\n\n<p>O Brasil sempre testou muito menos do que outros pa\u00edses, em parte pelo gigantesco tamanho da sua popula\u00e7\u00e3o. Mais ainda: o Brasil no agregado \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o; as extremas desigualdades do pa\u00eds apareceram com for\u00e7a no combate \u00e0 Covid. Nos testes, cada Estado aplicou do jeito que p\u00f4de ou achou mais conveniente. Em Minas Gerais, por exemplo, o secret\u00e1rio da Sa\u00fade dizia em mar\u00e7o que at\u00e9 tinha testes para aplicar, mas testava pouco porque <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mg\/minas-gerais\/noticia\/2020\/05\/18\/me-parece-precoce-e-imprudente-sairmos-testando-muita-gente-diz-secretario-de-saude-de-mg.ghtml\">estava guardando esses preciosos recursos<\/a> para quando se fizessem realmente necess\u00e1rios. <strong>Sabe-se l\u00e1 quando seria esse dia, n\u00e3o sei se ele j\u00e1 chegou<\/strong>. Mas, com crit\u00e9rios diferentes de testagem em toda parte, era temer\u00e1rio comparar os dados r\u00f3seos de Minas Gerais com os dados assombrosos que vinham de Pernambuco, um dos primeiros Estados cujo sistema de sa\u00fade entrou em colapso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Para haver um n\u00famero de mortes confirmadas, era preciso que o paciente estivesse ao menos com suspeita de Covid.<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Os primeiros pacientes a morrer de Covid no Brasil sequer eram considerados casos suspeitos da doen\u00e7a. Pela orienta\u00e7\u00e3o original do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, deviam ser testados apenas os pacientes que <a href=\"http:\/\/maismedicos.gov.br\/images\/PDF\/2020_03_13_Boletim-Epidemiologico-05.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">tivessem viajado ao exterior ou soubessem ter tido contato com algu\u00e9m que viajou<\/a>. Enquanto o primeiro a ter a doen\u00e7a confirmada, em S\u00e3o Paulo, era um empres\u00e1rio que voltou de viagem \u00e0 Lombardia, a primeira senhora que morreu, no Rio, era a diarista cuja patroa havia voltado de viagem. O primeiro morto em S\u00e3o Paulo era um porteiro. Nenhum dos dois estava sendo tratado como um caso de Covid antes da morte.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/I2_Q6elk7cA24QEt47zPAsAymvyaffK-GsZRdx89birxVO2DQarvzTCXNXNz7JaOI4VdaeDDWP3qtFY4FIS-ptxAO7otc8w7YAnx6J9dZQEv6wYxn662JshuJJlZzjvB3VQzrjvQ\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, os hospitais iam lotando numa medida que n\u00e3o refletia exatamente os dados oficiais da Covid. Ao final de mar\u00e7o, os pesquisadores do Infogripe, da Fiocruz, alertaram para uma alta nos casos de S\u00edndrome Respirat\u00f3ria Aguda Grave de causa n\u00e3o identificada, uma classifica\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica criada quando n\u00e3o se tem como confirmar o que causou a interna\u00e7\u00e3o. Em Belo Horizonte, capital daquele Estado que guardou os testes para quando fossem necess\u00e1rios, em junho havia 9 mortes de SRAG para cada uma confirmada como sendo de Covid. J\u00e1 em 2021, a Fiocruz cravou que 70% dos casos de SRAG n\u00e3o identificada no Brasil eram Covid mesmo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que a press\u00e3o da sociedade civil, especialmente da imprensa e de pesquisadores independentes, fez com que se tivesse muito mais dados dispon\u00edveis no pa\u00eds. Desde maio, \u00e9 poss\u00edvel baixar os microdados de SRAG, com informa\u00e7\u00f5es sobre cada paciente. <s>O governo que n\u00e3o me ou\u00e7a, mas<\/s> os dados do painel do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade melhoraram muito em disponibilidade e qualidade depois da press\u00e3o exercida de fora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma pausa? [<\/strong><strong><s>l\u00f3gico que n\u00e3o<\/s><\/strong><strong>]<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de junho, parecia que o monitoramento da Lagom Data n\u00e3o tinha mais raz\u00e3o para existir. Ao menos em termos de informa\u00e7\u00e3o fornecida oficialmente, estava tudo mais tranquilo. N\u00e3o precis\u00e1vamos mais ser ca\u00e7adores e coletores, poder\u00edamos trabalhar mais no processamento dos dados, na an\u00e1lise de suas lacunas. L\u00f3gico que eu estava errado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dia ap\u00f3s dia, naquela fase em que o servidor batia seu cart\u00e3o pela manh\u00e3 sem saber quem seria seu chefe \u00e0 tarde, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade foi jogando para mais tarde a divulga\u00e7\u00e3o dos dados federais. Em 5 de junho, eles divulgaram o dado depois das 21h30, e nas palavras do pr\u00f3prio inquilino do Alvorada isso ocorreu para que o n\u00famero de 1.005 mortes confirmadas em um s\u00f3 dia n\u00e3o fosse not\u00edcia no Jornal Nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">O Quinto Risco \u201cestava on\u201d com todas as barrinhas acesas.<\/h5>\n\n\n\n<p>Inclusive nos dias seguintes, o governo ativamente buscou sabotar o fornecimento de dados, inclusive tirando seu painel do ar por alguns dias. (Mesmo nesse per\u00edodo, os dados continuavam sendo atualizados diariamente no site no formato que o inquilino do Alvorada queria extirpar. O funcionalismo est\u00e1vel com esp\u00edrito p\u00fablico continuou cumprindo sua miss\u00e3o, apesar da bate\u00e7\u00e3o de cabe\u00e7a no topo.)<\/p>\n\n\n\n<p>Esse breve apag\u00e3o n\u00e3o teve impacto no trabalho que a Lagom Data fazia, nem mesmo afetou o que as outras iniciativas coletavam. Pois, desde o come\u00e7o, elas se organizaram a fim de suprir a falta de informa\u00e7\u00f5es centralizadas no governo federal. Pelo contr\u00e1rio, isso emprestou ainda mais relev\u00e2ncia ao nosso trabalho de ca\u00e7adores e coletores. Tanto que rapidamente surgiu um novo ca\u00e7ador e coletor na \u00e1rea: um cons\u00f3rcio que reunia os principais meios de comunica\u00e7\u00e3o brasileiros. Montou-se uma parceria historicamente in\u00e9dita. Ou seja: fazer exatamente a mesma coisa que meia d\u00fazia de iniciativas independentes e mal financiadas j\u00e1 vinham fazendo havia tr\u00eas meses. Dessa forma, vendo que n\u00e3o adiantava esconder o dado, e pressionado por decis\u00f5es judiciais, o governo voltou imediatamente a publicar o que tentou esconder. E nunca mais voltou atr\u00e1s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Nos meses seguintes, o campo de batalha mudou por diversas vezes.<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o do n\u00famero di\u00e1rio de casos e mortes conhecidas foi pacificada a partir dali. Isto \u00e9, h\u00e1 pouco questionamento no debate p\u00fablico&nbsp;sobre o tamanho da subnotifica\u00e7\u00e3o (que continua existindo). A transpar\u00eancia de outros dados passou a se tornar importante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos motivos pelos quais milh\u00f5es de testes apodreceram num dep\u00f3sito foi justamente a baixa transpar\u00eancia sobre a disponibilidade e aplica\u00e7\u00e3o destes. Assim, agora em mar\u00e7o de 2021, meses depois da descoberta dos testes vencendo, o governo tentou generosamente do\u00e1-los ao Haiti, que os recusou por estarem vencidos. Dias depois do come\u00e7o da vacina\u00e7\u00e3o, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade come\u00e7ou a publicar diariamente microdados detalhados sobre as vacinas aplicadas no pa\u00eds. Todavia, isso aconteceu ap\u00f3s o questionamento de casos de \u201cvacinas de vento\u201d. Esses microdados tinham muitas inconsist\u00eancias, mas quando<a href=\"https:\/\/www.ok.org.br\/noticia\/okbr-e-mais-seis-organizacoes-denunciam-falta-de-transparencia-publica-sobre-a-vacinacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> a mesma ONG Open Knowledge<\/a> os tornou p\u00fablicos, eles come\u00e7aram a sanad\u00e1-las em poucos dias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se os dados b\u00e1sicos de certa maneira j\u00e1 est\u00e3o resolvidos, hoje n\u00e3o podemos falar em apag\u00e3o na disponibilidade dos dados.<strong> A grande quest\u00e3o agora centralizava-se na qualidade dos dados e das decis\u00f5es de pol\u00edtica p\u00fablica que os governos tomam a partir deles.<\/strong> As idas e vindas das medidas de supress\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus em S\u00e3o Paulo, por exemplo, seguem mais pesquisas de popularidade do que pesquisas epidemiol\u00f3gicas. Dessa forma, h\u00e1 meses existem dados suficientes para ajudar a dar foco a um plano de conten\u00e7\u00e3o. Todavia, mesmo assim as medidas e exce\u00e7\u00f5es parecem decidir-se na base de quem grita mais alto. Poucos t\u00eam os pulm\u00f5es dos cartolas das igrejas e dos times de futebol, por exemplo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ou seja, o Quinto Risco n\u00e3o \u00e9 apenas federal. E ele n\u00e3o deve acabar t\u00e3o cedo.<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Pesquisadores e jornalistas est\u00e3o exaustos ap\u00f3s doze meses aparentemente gritando ao vento. Mas sempre que pusemos nossos neur\u00f4nios e an\u00e1lises nessa tarefa, fazendo uma divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica competente, conseguimos fazer as pol\u00edticas p\u00fablicas avan\u00e7arem alguns passos. Isso mesmo que pequenos. Por mais que um governo possa despriorizar a voz da ci\u00eancia, o que o \u00faltimo ano mostrou \u00e9 que o corpo t\u00e9cnico est\u00e1vel ouve essa voz. E eles s\u00e3o quem mais consegue defender a sociedade do Quinto Risco.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Para Saber Mais:<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>LEWIS, Michael (2019) \u201cO Quinto Risco\u201d Intr\u00ednseca, 2019<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.lagomdata.com.br\/coronavirus\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.lagomdata.com.br\/coronavirus<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O autor<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo Soares <\/strong>\u00e9 jornalista, diretor do est\u00fadio de intelig\u00eancia de dados Lagom Data, membro do Cons\u00f3rcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) e mestrando no Labjor\/Unicamp.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Este texto \u00e9 original e exclusivo do <a href=\"http:\/\/www.blogs.unicamp.br\/covid-19\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Especial Covid-19<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/covid-19\/wp-content\/uploads\/sites\/251\/elementor\/thumbs\/logo_-onj4s5m6vf0hml07f9yn7c6a77kn5fk3fpbt3dhc00.png\" alt=\"logo_\" title=\"logo_\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Os argumentos expressos nos posts deste especial s\u00e3o dos pesquisadores. Dessa forma, os textos foram produzidos a partir de campos de pesquisa cient\u00edfica e atua\u00e7\u00e3o profissional dos pesquisadores e foi revisado por pares da mesma \u00e1rea t\u00e9cnica-cient\u00edfica da Unicamp. Assim, n\u00e3o, necessariamente, representam a vis\u00e3o da Unicamp e essas opini\u00f5es n\u00e3o substituem conselhos m\u00e9dicos.<\/h4>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/covid-19\/editorial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><br>editorial<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto produzido por Marcelo Soares H\u00e1 um ano, comecei a observar com lupa as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis sobre o espalhamento da doen\u00e7a. Isto \u00e0s v\u00e9speras daquele breve momento em que S\u00e3o Paulo parou quase completamente para evitar o espalhamento do ent\u00e3o novo coronav\u00edrus. Queria ter uma ideia do que se sabia sobre o v\u00edrus. 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