{"id":606,"date":"2022-05-02T17:47:55","date_gmt":"2022-05-02T20:47:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaepolitica\/2022\/05\/02\/o-brasil-tem-a-maior-carga-tributaria-do-mundo\/"},"modified":"2022-05-02T17:47:55","modified_gmt":"2022-05-02T20:47:55","slug":"o-brasil-tem-a-maior-carga-tributaria-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clorofreela.com.br\/revistablogs\/2022\/05\/02\/o-brasil-tem-a-maior-carga-tributaria-do-mundo\/","title":{"rendered":"O Brasil tem a maior carga tribut\u00e1ria do mundo?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right eplus-wrapper\"><em><mark class=\"has-inline-color has-pale-cyan-blue-color\">Por Victor Augusto Ferraz Young<\/mark><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">No Brasil, nos mais variados meios de comunica\u00e7\u00e3o, assim como em conversas informais, quando o assunto \u00e9 economia, algumas frases sempre se repetem: \u201c<strong>No Brasil, paga-se muito imposto!<\/strong>\u201d; \u201c<strong>O Brasil tem a maior carga tribut\u00e1ria do mundo!<\/strong>\u201d; ou \u201c<strong>Se n\u00e3o fosse o tamanho da carga tribut\u00e1ria, o Brasil j\u00e1 teria se tornado um pa\u00eds desenvolvido!<\/strong>\u201d. <strong>Estariam estes diagn\u00f3sticos corretos?<\/strong> Baseiam-se em dados econ\u00f4micos concretos? Neste texto, pretendemos verificar estas afirma\u00e7\u00f5es, discutir de um modo geral a quest\u00e3o do peso dos tributos sobre a nossa sociedade e responder com algumas informa\u00e7\u00f5es a estas perguntas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A princ\u00edpio, temos que ter claro que a maioria dos tributos (tamb\u00e9m chamados de impostos) correspondem a um valor que se subtrai da renda gerada no pa\u00eds a partir do processo produtivo, ou seja, uma parte da renda gerada com a produ\u00e7\u00e3o de todos os bens e servi\u00e7os produzidos em nosso territ\u00f3rio ser\u00e1 sempre retida pelo governo no sentido de custear a infraestrutura estatal e a oferta de bens e servi\u00e7os p\u00fablicos. Para esta discuss\u00e3o, utilizaremos com frequ\u00eancia o conceito de carga tribut\u00e1ria, isto \u00e9, o percentual correspondente ao valor dos impostos cobrados em rela\u00e7\u00e3o ao valor do PIB a pre\u00e7os de mercado (% de carga tribut\u00e1ria sobre o PIB) <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Tamb\u00e9m usaremos o conceito de base de incid\u00eancia de impostos que \u00e9, grosso modo, um certo percentual que se cobra sobre determinada renda ou valor de atividade econ\u00f4mica. Para fundamentarmos nossa an\u00e1lise, nos utilizaremos de tabelas e gr\u00e1ficos produzidos pelo Centro de Estudos Brasil S\u00e9culo XXI que se baseiam em dados e informa\u00e7\u00f5es de institui\u00e7\u00f5es oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><span style=\"font-size: 14pt\"><em><strong>A carga tribut\u00e1ria brasileira \u00e9 a mais alta do mundo?<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Para responder a esta primeira pergunta, podemos dizer que a carga tribut\u00e1ria bruta, no Brasil, entre 2002 e 2019, esteve em m\u00e9dia em 32,7% do PIB (os valores para cada ano est\u00e3o na tabela abaixo, na coluna CTB. Se descontarmos os valores referentes aos repasses desses impostos por parte do governo para a Previd\u00eancia, Assist\u00eancia Social, Subs\u00eddios e Juros da D\u00edvida P\u00fablica, ter\u00edamos um valor ainda menor conforme as linhas azul e vermelha do gr\u00e1fico que se segue).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2022\/05\/Graf1_Tributos-300x225.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-923\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Sabendo, portanto, que o valor da carga tribut\u00e1ria no Brasil gira em torno de 33% do PIB, podemos considerar isso um valor alto ou baixo?<\/strong> Uma forma plaus\u00edvel de se fazer essa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 comparando o Brasil com outros pa\u00edses que tenham uma economia de tamanho parecido<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Vejamos ent\u00e3o, no gr\u00e1fico seguinte, a carga tribut\u00e1ria de outros 27 pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento que fazem parte da OCDE mais a m\u00e9dia de todos os pa\u00edses dessa mesma organiza\u00e7\u00e3o (OCDE &#8211; Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento. Organismo constitu\u00eddo predominantemente por pa\u00edses ricos).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2022\/05\/Graf2_Tributos-300x225.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-929\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Podemos verificar que, no ano de 2018, entre os 28 pa\u00edses mais a m\u00e9dia da OCDE, o Brasil est\u00e1 na 18\u00aa posi\u00e7\u00e3o em termos de carga tribut\u00e1ria, estando, por exemplo, mais de 10% abaixo da carga mais alta, registrada na Fran\u00e7a no patamar de 46,1% sobre o PIB. Se dividirmos este apanhado de na\u00e7\u00f5es em duas partes, o Brasil se encontra entre os pa\u00edses com a menor carga tribut\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o a outra metade que tem a carga maior ou igual a 35%. Os Estados Unidos, que \u00e9 sempre mencionado por comentarista econ\u00f4micos, registraram uma carga menor, de 24,3% sobre o PIB. Todavia, a economia norte-americana \u00e9 15 vezes maior do que a economia brasileira, fornecendo, portanto, uma base maior para a arrecada\u00e7\u00e3o de impostos<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. A Alemanha e a It\u00e1lia, que tamb\u00e9m t\u00eam economias maiores do que a do Brasil, registram cargas tribut\u00e1rias de 38,2% e 42,1% respectivamente. Neste conjunto, apenas 9 pa\u00edses tem uma carga tribut\u00e1ria menor do que 33%. Os pa\u00edses ricos e em desenvolvimento que fazem parte da OCDE registram em m\u00e9dia 34% de carga tribut\u00e1ria sobre o PIB. <strong>Nossa primeira conclus\u00e3o, portanto, \u00e9 a de que a carga tribut\u00e1ria brasileira n\u00e3o \u00e9 a mais elevada do mundo. <\/strong>Ela n\u00e3o est\u00e1 sequer entre as mais altas, considerando um conjunto significativo de economias pr\u00f3ximas a do Brasil. Outra constata\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que, entre os pa\u00edses desenvolvidos, se estes n\u00e3o t\u00eam uma carga tribut\u00e1ria parecida com a brasileira, usualmente t\u00eam um percentual tribut\u00e1rio bem maior. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o neste caso, seriam os EUA, pa\u00eds que, contando com 24,4% de carga tribut\u00e1ria, tem uma arrecada\u00e7\u00e3o de impostos maior do que qualquer um dos outros pa\u00edses aqui considerados. Podemos afirmar, dessa maneira, que a carga tribut\u00e1ria brasileira n\u00e3o \u00e9 a mais baixa, mas definitivamente n\u00e3o \u00e9 a mais alta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><span style=\"font-size: 14pt\"><em><strong>Os brasileiros pagam muitos impostos?<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Esta outra quest\u00e3o se refere \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de que no Brasil, os pre\u00e7os dos bens e servi\u00e7os seriam muito altos em fun\u00e7\u00e3o de uma carga tribut\u00e1ria muito alta. Seria esta uma sensa\u00e7\u00e3o real? Sim e n\u00e3o. Podemos dizer que no Brasil, tudo depende de como cada indiv\u00edduo obt\u00e9m sua renda e de como a utiliza depois que a recebeu. Se, por um lado, tudo o que um cidad\u00e3o recebe \u00e9 gasto por ele no consumo de bens e servi\u00e7os, como \u00e9 o caso dos indiv\u00edduos que fazem parte de classes sociais de renda m\u00e9dia e baixa, ent\u00e3o os impostos para estes incidem com maior peso. Por outro lado, se o gasto realizado com bens e servi\u00e7os n\u00e3o \u00e9 pouco, mas \u00e9 comparativamente pequeno em rela\u00e7\u00e3o ao total da renda recebida, ent\u00e3o os impostos s\u00e3o sentidos com intensidade muito menor, ou seja, no Brasil, a maior parte dos impostos s\u00e3o cobrados sobre o consumo e n\u00e3o sobre a renda recebida ou sobre a propriedade privada. Assim, as classes sociais que n\u00e3o utilizam toda a sua renda para o consumo tendem a pagar uma propor\u00e7\u00e3o menor de impostos em rela\u00e7\u00e3o a sua renda. Esta renda que n\u00e3o \u00e9 utilizada para consumo \u00e9 usualmente aplicada em outras atividades rent\u00e1veis que tendem a n\u00e3o sofrer o mesmo impacto tribut\u00e1rio que o consumo. Grosso modo, no Brasil, os contribuintes pagam mais impostos sobre o consumo do que sobre eventuais rendimentos de sua poupan\u00e7a<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. O resultado \u00e9 o de que a carga tribut\u00e1ria que recai sobre uma parcela social mais abastada acaba sendo relativamente menor do que aquela que recai sobre a parcela social mais humilde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Para que esta afirma\u00e7\u00e3o fique mais clara, primeiramente iremos separar os impostos cobrados no Brasil da seguinte maneira:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"eplus-wrapper wp-block-list\"><li>Imposto sobre a Renda de Capital (juros, lucros, dividendos, alugu\u00e9is, etc.): IR; IOF; etc.<\/li><li>Imposto sobre a Renda do Trabalho (sal\u00e1rios e rendimentos aut\u00f4nomos): IR.<\/li><li>Impostos sobre o consumo de bens e servi\u00e7os: IPI; ICMS; ISSQN; PIS; COFINS; etc.<\/li><li>Impostos sobre propriedade: IPTU; IPVA; ITR; ITBI; etc.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Em segundo lugar, definiremos dois indiv\u00edduos hipot\u00e9ticos que se encontram, cada um, em um extremo da pir\u00e2mide social.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"eplus-wrapper wp-block-list\"><li>Jo\u00e3o \u00e9 um indiv\u00edduo sem muitas posses que no Brasil ganha um sal\u00e1rio m\u00ednimo (R$1.212,00 no ano de 2022), e dever\u00e1, em grande medida, utilizar praticamente todo seu sal\u00e1rio para o sustento pr\u00f3prio e o de sua fam\u00edlia. Em fun\u00e7\u00e3o do valor de sua renda Jo\u00e3o paga pouco, ou praticamente nada, de imposto sobre a renda do trabalho (IRPF)<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Os impostos sobre os seus ganhos recair\u00e3o, dessa maneira, predominantemente sobre os bens e servi\u00e7os que consome.<\/li><li>Ant\u00f4nio, por outro lado, recebe rendimentos de capital provenientes de lucros, de aplica\u00e7\u00f5es financeiras e do aluguel de propriedades que possui. Sendo o montante de sua renda mensal elevado, somente uma parte pequena de toda a renda se destina ao consumo pessoal e o de sua fam\u00edlia. Ant\u00f4nio paga, assim, relativamente menos impostos sobre consumo e mais impostos sobre rendas de capital e sobre rendas de propriedade.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Vejamos ent\u00e3o, na tabela a seguir, como os impostos tendem a incidir sobre a renda destes dois indiv\u00edduos no caso do Brasil<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>:<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2022\/05\/Tabela_Tributos-300x225.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-933\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Conforme a tabela, os impostos incidem com mais for\u00e7a sobre o destino da renda (a compra de bens e servi\u00e7os) do que sobre as origens das rendas. Em 2019, os impostos sobre consumo incidiram, em m\u00e9dia, em 43,3% sobre o valor dos bens e servi\u00e7os, tendo sido esta incid\u00eancia ainda maior em anos anteriores. De outra maneira, mesmo que a incid\u00eancia do imposto de renda chegue a 27,73% para os trabalhadores que recebem as melhores remunera\u00e7\u00f5es, a incid\u00eancia sobre as rendas de capital e aplica\u00e7\u00f5es financeiras foi de 22,45% para estas, de 4,82% sobre a propriedade e de 1,7% sobre as transa\u00e7\u00f5es financeiras. Podemos constatar preliminarmente que a incid\u00eancia de impostos sobre a renda, os sal\u00e1rios, a propriedade e as transa\u00e7\u00f5es financeiras \u00e9, em todas elas, muito menor do que sobre o consumo de bens e servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Grosso modo, para Jo\u00e3o e toda a popula\u00e7\u00e3o que depende totalmente do sal\u00e1rio e gasta todo ele em consumo, a tributa\u00e7\u00e3o \u00e9 alta. Para Ant\u00f4nio e as fam\u00edlias que dependem de rendimentos de suas posses em termos de propriedades, de capital e de aplica\u00e7\u00f5es financeiras \u2013 consumindo bens e servi\u00e7os com parte proporcionalmente muito menor de sua renda total \u2013 a tributa\u00e7\u00e3o s\u00f3 em termos de incid\u00eancia \u00e9 quase a metade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>Nossa segunda constata\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que parcelas mais humildes da sociedade entregam ao fisco uma parte maior de sua renda total do que parcelas sociais de renda mais elevada<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><span style=\"font-size: 14pt\"><em><strong>Se n\u00e3o fosse o tamanho da carga tribut\u00e1ria, o Brasil j\u00e1 teria se tornado um pa\u00eds desenvolvido?<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Verifiquemos ent\u00e3o esta \u00faltima quest\u00e3o. Podendo j\u00e1 afirmar que a carga tribut\u00e1ria brasileira est\u00e1 longe de ser das mais altas do mundo, podemos verificar como se distribui a carga no Brasil comparando esta aos pa\u00edses desenvolvidos. Analisemos os gr\u00e1ficos a seguir:<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2022\/05\/Graf3_Tributos-300x225.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-932\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">No gr\u00e1fico acima, referente a 2017, podemos verificar que em termos de carga tribut\u00e1ria o Brasil imp\u00f5e um peso de 14,3% do PIB sobre a sociedade no que se refere ao consumo de bens e servi\u00e7os. Entre os 32 pa\u00edses analisados, verificamos que a carga tribut\u00e1ria brasileira sobre o consumo de bens e servi\u00e7os \u00e9 uma das mais altas do mundo, ficando atr\u00e1s apenas de Hungria, Gr\u00e9cia e Dinamarca. Quatro pontos percentuais a mais do que a m\u00e9dia dos pa\u00edses que comp\u00f5em a OCDE.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2022\/05\/Graf4_Tributos-300x225.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-931\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Neste outro gr\u00e1fico acima, tamb\u00e9m em 2017, a carga tribut\u00e1ria brasileira sobre os rendimentos do sal\u00e1rio (incluindo recolhimento previdenci\u00e1rio) est\u00e1 entre os pa\u00edses que menos oneram as remunera\u00e7\u00f5es, estando 1% abaixo dos pa\u00edses da OCDE e com pelo menos a metade do percentual do primeiro colocado, a Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2022\/05\/Graf5_Tributos-300x225.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-935\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A carga de tributos cobrados em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto renda, lucros e ganhos de capital, no Brasil em 2017, conforme este outro dado acima, \u00e9, por outro lado, uma das mais baixas (7%) frente aos outros 32 pa\u00edses da compara\u00e7\u00e3o. Junto com Chile, Pol\u00f4nia, Hungria e Eslov\u00eania, a carga tribut\u00e1ria brasileira \u00e9 de apenas 7% sobre esses rendimentos, estando quatro pontos percentuais abaixo da m\u00e9dia da OCDE.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2022\/05\/Graf6_Tributos-300x225.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-934\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Quanto aos tributos cobrados sobre a propriedade, novamente o Brasil est\u00e1 entre os pa\u00edses que imp\u00f5es relativamente menos impostos sobre a propriedade privada de seus contribuintes, ou seja, de acordo com o gr\u00e1fico acima, a carga \u00e9 de 1,5% do PIB. Esta \u00e9 maior do que a da Rep\u00fablica Eslov\u00e1quia (0,4%) &#8211; a mais baixa carga tribut\u00e1ria neste quesito -, mas \u00e9 bem menor do que a da Fran\u00e7a, que imp\u00f5e uma carga de 4,4% do PIB em impostos sobre propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>O que se confirma novamente \u00e9 que, no Brasil, os impostos recaem com muito mais peso sobre o consumo de bens e servi\u00e7os do que sobre a origem das rendas em geral. Na compara\u00e7\u00e3o com os chamados pa\u00edses desenvolvidos que comp\u00f5em a OCED, o Brasil faz exatamente o inverso, ou seja, cobra mais impostos dos mais pobres e menos impostos dos mais ricos. Isso perpetua a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda existente no pa\u00eds e impede uma expans\u00e3o do consumo que poderia dinamizar a economia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Dessa forma, talvez n\u00e3o seja a carga tribut\u00e1ria total sobre o PIB, mas a distribui\u00e7\u00e3o desta entre as camadas sociais o que perpetue no Brasil a concentra\u00e7\u00e3o de renda e, tendo como consequ\u00eancia a manuten\u00e7\u00e3o da desigualdade social e do subdesenvolvimento econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><span style=\"font-size: 14pt\"><em><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Nossa an\u00e1lise buscou fazer uma aproxima\u00e7\u00e3o geral do quadro de tributa\u00e7\u00e3o no Brasil. Para isso, fizemos uma compara\u00e7\u00e3o desse panorama brasileiro com pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento. Utilizamos como par\u00e2metro a carga tribut\u00e1ria percentual sobre o PIB e a base de incid\u00eancia dos impostos. Esta an\u00e1lise poderia ser ainda mais profunda, mostrando diferen\u00e7as entre cada faixa de renda, o que tornaria este texto muito extenso para nossos prop\u00f3sitos<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Com o que levantamos, contudo, j\u00e1 podemos responder com seguran\u00e7a que a carga tribut\u00e1ria brasileira, na atualidade, depois de comparada com 27 pa\u00edses da OCDE, est\u00e1 abaixo da m\u00e9dia destes e abaixo da m\u00e9dia de todos pa\u00edses da OCDE em conjunto. A incid\u00eancia, todavia, \u00e9 a que parece ser a grande injusti\u00e7a do sistema tribut\u00e1rio brasileiro, comparando-a com outros pa\u00edses. Em fun\u00e7\u00e3o da forma como os tributos s\u00e3o cobrados no Brasil, fam\u00edlias de renda mais baixa pagam um montante muito elevado de impostos, enquanto as de renda mais elevada pagam um montante relativo muito menor. <strong>Conforme nosso exemplo, a injusti\u00e7a se faz presente e se perpetua com o fato de que Jo\u00e3o, de baixa renda e de poucas posses, paga muito imposto sobre o que ganha, enquanto que Ant\u00f4nio, de renda alta e de muitas posses, paga relativamente muito menos sobre aquilo que recebe. Este infort\u00fanio \u00e9, a nosso ver, um dos elementos que atrapalham nosso pleno desenvolvimento social e econ\u00f4mico.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><span style=\"font-size: 14pt\"><em><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Para o acesso aos dados utilizados neste texto, ver:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-altos-estudos-br wp-block-embed-altos-estudos-br eplus-wrapper\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"KdgITDCQIY\"><a href=\"https:\/\/www.altosestudosbrasilxxi.org.br\/vinte-e-cinco-anos-de-economia-brasileira-1995-2020\/\">Vinte e Cinco Anos de Economia Brasileira  (1995 &#8211; 2020)<\/a><\/blockquote><iframe class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; visibility: hidden;\" title=\"&#8220;Vinte e Cinco Anos de Economia Brasileira  (1995 &#8211; 2020)&#8221; &#8212; Altos Estudos BR\" src=\"https:\/\/www.altosestudosbrasilxxi.org.br\/vinte-e-cinco-anos-de-economia-brasileira-1995-2020\/embed\/#?secret=v0xIj65IkE#?secret=KdgITDCQIY\" data-secret=\"KdgITDCQIY\" width=\"500\" height=\"282\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> O PIB corresponde a soma do valor de todos os bens e servi\u00e7os finais produzidos dentro de uma economia nacional no per\u00edodo de um ano. Geralmente, os meios de informa\u00e7\u00e3o utilizam o conceito de PIB a pre\u00e7os de mercado, tendo em conta que no valor do PIB est\u00e3o inclusos os impostos e descontados os subs\u00eddios concedidos pelo governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Em 2019, o Brasil estava posicionado como o 12\u00aa PIB mundial em termos de d\u00f3lares depois dos EUA, China, Jap\u00e3o, Alemanha, Reino Unido, \u00cdndia, Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Canad\u00e1, Coreia do Sul e R\u00fassia. Ver: <em>World Economic Outlook Database. International Monetary Fund<\/em>. Outubro de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos deixar de mencionar que os Estados Unidos s\u00e3o os emissores do d\u00f3lar, moeda reserva de valor internacional. Podem, dessa maneira, cobrir seus gastos governamentais com um endividamento crescente sem que isso provoque maiores preju\u00edzos a sua economia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> O conceito econ\u00f4mico de poupan\u00e7a refere-se a parte da renda das fam\u00edlias que n\u00e3o \u00e9 gasta no consumo de bens e servi\u00e7os. A teoria econ\u00f4mica dominante considera que a maior parte da poupan\u00e7a das fam\u00edlias \u00e9 usualmente emprestada aos agentes financeiros na forma de compra de pap\u00e9is financeiros em troca de rendimentos futuros na forma de juros. N\u00e3o podemos, portanto, confundir poupan\u00e7a com caderneta de poupan\u00e7a que \u00e9 apenas um tipo de aplica\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Dependendo da faixa de salarial, o trabalhador brasileiro \u00e9 isento do pagamento de imposto de renda de pessoa f\u00edsica (IRPF) ou paga al\u00edquotas que sobem conforme se eleva o valor de sua renda. Ver: <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/receitafederal\/pt-br\/assuntos\/orientacao-tributaria\/tributos\/irpf-imposto-de-renda-pessoa-fisica#c-lculo-anual-do-irpf\">https:\/\/www.gov.br\/receitafederal\/pt-br\/assuntos\/orientacao-tributaria\/tributos\/irpf-imposto-de-renda-pessoa-fisica#c-lculo-anual-do-irpf<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Salientamos que o conceito, base de incid\u00eancia, que mostra o percentual de imposto incidente sobre uma renda especificada \u00e9 diferente do conceito de carga tribut\u00e1ria sobre o PIB, que se refere ao valor total arrecadado de determinado imposto em rela\u00e7\u00e3o ao valor total do PIB.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> N\u00e3o fizemos uma abordagem mais profunda sobre isen\u00e7\u00f5es sobre aplica\u00e7\u00f5es financeiras, por exemplo. Tal an\u00e1lise pode expor as diferen\u00e7as que existem entre grandes aplicadores e pequenos aplicadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Victor Augusto Ferraz Young No Brasil, nos mais variados meios de comunica\u00e7\u00e3o, assim como em conversas informais, quando o assunto \u00e9 economia, algumas frases sempre se repetem: \u201cNo Brasil, paga-se muito imposto!\u201d; \u201cO Brasil tem a maior carga tribut\u00e1ria do mundo!\u201d; ou \u201cSe n\u00e3o fosse o tamanho da carga tribut\u00e1ria, o Brasil j\u00e1 teria [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":607,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[18,51,58],"tags":[248,262,400,403,461,678,693,888,1118,1195],"class_list":["post-606","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-18","category-economia","category-especial-ciencia-e-politica","tag-brasil-comparado-com-ocde","tag-carga-tributaria","tag-desenvolvimento-economico","tag-desigualdade-social","tag-economia","tag-impostos","tag-incidencia-de-impostos","tag-ocde","tag-sistema-tributario","tag-tributos"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.2 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Brasil tem a maior carga tribut\u00e1ria do mundo? 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