{"id":610,"date":"2020-09-14T12:26:27","date_gmt":"2020-09-14T15:26:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciaepolitica\/2020\/09\/14\/o-7-de-setembro-de-jair-bolsonaro-defesa-historica-da-violencia-como-fundamento-da-ordem\/"},"modified":"2020-09-14T12:26:27","modified_gmt":"2020-09-14T15:26:27","slug":"o-7-de-setembro-de-jair-bolsonaro-defesa-historica-da-violencia-como-fundamento-da-ordem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clorofreela.com.br\/revistablogs\/2020\/09\/14\/o-7-de-setembro-de-jair-bolsonaro-defesa-historica-da-violencia-como-fundamento-da-ordem\/","title":{"rendered":"O 7 de setembro de Jair Bolsonaro: defesa hist\u00f3rica da viol\u00eancia como fundamento da ordem"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right eplus-wrapper\"><em><mark class=\"has-inline-color has-pale-cyan-blue-color\">Texto por Ulisses Rubio e Gustavo Zullo.*<\/mark><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Consideramos que no pronunciamento realizado por Jair Bolsonaro no 7 de setembro algo foge ao estere\u00f3tipo paradigm\u00e1tico dos discursos do atual presidente. Bolsonaro n\u00e3o repetiu as falas aparentemente desconexas, que t\u00eam deixado os analistas at\u00f4nitos e os leva a an\u00e1lises no m\u00ednimo insuficientes, uma vez que enfatizam a incoer\u00eancia e ressaltam um burro Bolsonaro. Ao contr\u00e1rio, consideramos que, na comemora\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia, o presidente apresentou um discurso elucidativo e, na medida do poss\u00edvel, sereno sobre sua sele\u00e7\u00e3o do passado nacional e dos seus valores. Mais ainda, Jair Bolsonaro explicitou a sua vis\u00e3o de Brasil, na qual os dominantes desenharam a identidade nacional:<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u201cNaquele hist\u00f3rico 7 de setembro de 1822, \u00e0s Margens do Ipiranga, o Brasil dizia ao mundo que nunca mais aceitaria ser submisso a qualquer outra na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Quem \u00e9 o sujeito da a\u00e7\u00e3o? O Brasil. Mas quem \u00e9 o Brasil? Mais que isso, quais seriam os \u201cbrasileiros [que] jamais abririam m\u00e3o de sua liberdade\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Certamente n\u00e3o est\u00e3o inclu\u00eddos a\u00ed os negros escravizados, que permaneceram privados de sua liberdade ainda por mais de um quarto de s\u00e9culo ap\u00f3s a independ\u00eancia. Seriam os ind\u00edgenas? Isto n\u00e3o seria coerente com as atuais pol\u00edticas do executivo federal em rela\u00e7\u00e3o aos povos ind\u00edgenas, especialmente atingidos pela boiada incandescente que avan\u00e7a de modo acelerado sobre a Amaz\u00f4nia e o Pantanal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">&nbsp;\u201cA identidade nacional come\u00e7ou a ser desenhada, com a miscigena\u00e7\u00e3o entre \u00edndios, brancos e negros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Nesse trecho do discurso, a v\u00edrgula ap\u00f3s \u201cdesenhada\u201d n\u00e3o \u00e9 gratuita. Repare. A miscigena\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o agente da passiva. O agente da passiva do verbo \u201cdesenhada\u201d n\u00e3o aparece. A miscigena\u00e7\u00e3o \u00e9 um aspecto muito importante da identidade nacional, mas n\u00e3o a sua realizadora. Assim, nos perguntamos quem seria este agente da passiva e por que ele teria sido ocultado? Para responder a estas quest\u00f5es, recorremos a um dos \u00edcones do pensamento conservador brasileiro do s\u00e9culo XX, Oliveira Vianna. Segundo ele, os principais acontecimentos que marcam a Hist\u00f3ria do Brasil, inclusive a independ\u00eancia, foram protagonizados pela \u201cNobreza rural\u201d. Coerente ao pensamento conservador, acreditamos que Bolsonaro est\u00e1 assumindo que s\u00e3o os dominantes que \u201cdesenharam\u201d a identidade nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Impl\u00edcita nesta posi\u00e7\u00e3o est\u00e1 que a identidade nacional teria sido formada pelo andar de cima e para o andar de cima a partir da preserva\u00e7\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o social. E esta quest\u00e3o possui uma curiosidade quando a associamos \u00e0 \u00e9poca da independ\u00eancia. Naquele per\u00edodo, a segrega\u00e7\u00e3o social assumia a forma de um sistema escravista extremamente violento que, contudo, foi romantizado pelo conservadorismo brasileiro como um sistema em que se formaram afetos espont\u00e2neos entre negros e brancos. Como consequ\u00eancia, a interpreta\u00e7\u00e3o conservadora da identidade nacional cancela a possiblidade dos dominados acessarem a cidadania sem que se o anuncie explicitamente \u2013 e aqui reside um dos grandes dilemas brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Na atual conjuntura, isto significa a supress\u00e3o de todos os ensaios emancipat\u00f3rios que se vislumbraram nos \u00faltimos anos, uma ofensiva a pautas sociais, culturais e econ\u00f4micas que apontam para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa ou, se quiserem, menos injusta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Na vis\u00e3o conservadora da forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Brasil, a miscigena\u00e7\u00e3o cumpre um papel fundamental, mas n\u00e3o fundador, da identidade nacional. Para deixar ainda mais evidente o significado da miscigena\u00e7\u00e3o no discurso de Bolsonaro, recorremos a outro autor important\u00edssimo para o pensamento conservador brasileiro: Gilberto Freyre, autor que consolidou a ideia de que, no Brasil, vivemos numa \u201cdemocracia racial\u201d e que nos ajudar\u00e1 a decifrar a sequ\u00eancia do discurso de Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Assim, seguimos com o presidente: \u201cPosteriormente, ondas de imigrantes se sucederam, trazendo esperan\u00e7as que em suas terras haviam perdido. Religi\u00f5es, cren\u00e7as, comportamentos e vis\u00f5es <strong>eram assimilados e respeitados. O Brasil desenvolveu o senso de toler\u00e2ncia<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Bem&#8230; j\u00e1 identificamos \u201cquem era o Brasil\u201d. Agora vemos estes brasileiros serem \u201ctolerantes\u201d, \u201c<strong>assimilando\u201d <\/strong>e \u201crespeitando\u201d diferentes \u201creligi\u00f5es, cren\u00e7as, comportamentos e vis\u00f5es\u201d. A fala do presidente claramente retoma a \u201cplasticidade\u201d do portugu\u00eas, o elemento branco da miscigena\u00e7\u00e3o exacerbada por Gilberto Freyre. Portanto, a suposta \u201cdemocracia\u201d racial decorreria da benevol\u00eancia dos dominantes, caracterizada por sua plasticidade, isto \u00e9, por sua capacidade de \u201ctolerar\u201d e \u201c<strong>assimilar<\/strong>\u201d o caldo cultural dos dominados \u2013 e a esta altura j\u00e1 notamos que o termo \u201cassimila\u00e7\u00e3o\u201d significa dominar\/sufocar. Mas esta n\u00e3o \u00e9 uma domina\u00e7\u00e3o expl\u00edcita \u2013 e esta tradi\u00e7\u00e3o de se fazer parecer tolerante \u00e9 preservada at\u00e9 por Bolsonaro, apelidado de \u201ccaval\u00e3o\u201d nos seus tempos de ex\u00e9rcito. Isto \u00e9, se na frente das c\u00e2meras o discurso \u00e9 de toler\u00e2ncia e mesmo de exalta\u00e7\u00e3o da diversidade, a pr\u00e1tica \u00e9 de persegui\u00e7\u00e3o social e policial de tradi\u00e7\u00f5es e costumes n\u00e3o-hegem\u00f4nicos, como ocorre com o candombl\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">E aqui insistimos. O agente que integra \u00e9 o mesmo brasileiro que realiza o movimento de independ\u00eancia. Este brasileiro absorve outros elementos culturais, mas n\u00e3o confere o mesmo valor \u00e0 cultura dos povos escravizados e, consequentemente, n\u00e3o os concebe como dignos de fazerem reivindica\u00e7\u00f5es. Assim, a sua presen\u00e7a \u00e9 t\u00e3o somente tolerada na medida em que se preserva \u00e0 sombra da sociedade. Portanto, compreendemos como \u201cos diferentes tornavam-se iguais\u201d, proferido na continua\u00e7\u00e3o da fala de Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Simula-se uma igualdade, posto que os povos dominados e as suas respectivas culturas jamais foram aceitos em p\u00e9 de igualdade \u2013 isto \u00e9, o conflito nunca foi aceito como parte da constru\u00e7\u00e3o de um ambiente verdadeiramente democr\u00e1tico. Esta \u201cigualdade\u201d a que Jair Bolsonaro se refere foi constru\u00edda pelos dominadores. Isto \u00e9, uma igualdade que, na verdade, \u00e9 absolutamente incompat\u00edvel com a valoriza\u00e7\u00e3o real daquilo que o presidente ostenta orgulhosamente como um \u201cconjunto de preciosidades culturais, \u00e9ticas e religiosas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Assim, a \u201cplasticidade\u201d que constr\u00f3i a democracia racial de Gilberto Freyre pode se juntar \u00e0 \u201cplacidez\u201d da forma\u00e7\u00e3o social brasileira de Oliveira Vianna, para quem \u201c\u00e0 sombra patriarcal deste grande senhor de engenhos, de est\u00e2ncias, de cafezais <strong>vivem o pobre e o fraco com seguran\u00e7a e tranquilidade<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Com isto, Bolsonaro assume a figura de patriarca nacional, de defensor da ordem conservadora, entendendo que mobiliza\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o bem vistas apenas quando subsidiam a sua ordem. E este detalhe \u00e9 importante: a atua\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro n\u00e3o se restringe \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o de negros e ind\u00edgenas, mas tem a rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de persegui\u00e7\u00e3o e tutela a estes grupos como experi\u00eancia a ser repetida quantas vezes forem necess\u00e1rias para preservar privil\u00e9gios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Podemos, assim, entender a narrativa que o presidente constr\u00f3i no que segue de seu discurso:<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u201cPassados quase dois s\u00e9culos da independ\u00eancia, nos quais enfrentou e superou in\u00fameros desafios, o Brasil consolidou sua posi\u00e7\u00e3o no concerto das na\u00e7\u00f5es. Ainda no s\u00e9culo XIX, durante o per\u00edodo do imp\u00e9rio, fomos invadidos e agredidos, derrotando a todos. J\u00e1 no s\u00e9culo XX, durante a II Guerra Mundial, a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira foi \u00e0 Europa para ajudar o mundo a derrotar o nazismo e o fascismo. <strong>Nos anos 60, quando a sombra do comunismo nos amea\u00e7ou, milh\u00f5es de brasileiros, identificados com os anseios nacionais, de preserva\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, foram \u00e0s ruas contra um pa\u00eds tomado pela radicaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, greves, desordem social, e corrup\u00e7\u00e3o generalizada\u201d<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O que vemos \u00e9 a exalta\u00e7\u00e3o de tr\u00eas governos autorit\u00e1rios que sufocaram manifesta\u00e7\u00f5es sociais que chacoalhavam a ordem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Estamos, portanto, preparados para entender a coer\u00eancia do discurso do presidente quando ele afirma defender a democracia e a liberdade:<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">\u201cO sangue dos brasileiros sempre foi derramado por liberdade. <strong>Vencemos ontem, estamos vencendo hoje e venceremos sempre<\/strong>. No momento que celebramos esta data t\u00e3o especial, reitero, como presidente da Rep\u00fablica, meu amor \u00e0 P\u00e1tria e meu compromisso com a Constitui\u00e7\u00e3o e com a preserva\u00e7\u00e3o da soberania, democracia e liberdade, valores dos quais nosso Pa\u00eds jamais abrir\u00e1 m\u00e3o. A independ\u00eancia do Brasil merece ser comemorada hoje, nos nossos lares e em nossos cora\u00e7\u00f5es. <strong>A independ\u00eancia nos deu a liberdade para decidir nossos destinos e a usamos para escolher a democracia<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Nesta narrativa, j\u00e1 sabemos que quem teve a liberdade para fazer a independ\u00eancia e manter a ordem posteriormente foi o patriarca branco, intolerante e eugenista, oposto \u00e0 imagem benevolente da miscigena\u00e7\u00e3o apresentada por Bolsonaro. Sabemos tamb\u00e9m que a democracia de que se fala, \u00e9 a dita \u201cdemocracia racial\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">*<strong>Ulisses Rubio.<\/strong> Economista, Professor Universit\u00e1rio, Mestre e Doutor em Desenvolvimento Econ\u00f4mico pelo Instituto de Economia da UNICAMP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>*Gustavo Zullo.<\/strong> Economista, Professor Universit\u00e1rio, Mestre e Doutor em Desenvolvimento Econ\u00f4mico pelo Instituto de Economia da UNICAMP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Refer\u00eancias:<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">FREYRE, Gilberto.&nbsp;Casa grande &amp; senzala: forma\u00e7\u00e3o da familia brasileira sob o regime da economia patriarcal. 17. ed. Rio de Janeiro, RJ: Jos\u00e9 Olympio, 1975.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">VIANNA, Oliveira.&nbsp;Popula\u00e7\u00f5es meridionais do Brasil: historia &#8211; organiza\u00e7\u00e3o &#8211; psicologia. Belo Horizonte, MG; Niter\u00f3i, RJ: Itatiaia: Editora da Universidade Federal Fluminense, 1987.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Pronunciamento do Presidente Jair Bolsonaro, 7 de Setembro de 2020. Dispon\u00edvel em https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2iomceoXjOY. Acessado em 7 de setembro de 2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto por Ulisses Rubio e Gustavo Zullo.* Consideramos que no pronunciamento realizado por Jair Bolsonaro no 7 de setembro algo foge ao estere\u00f3tipo paradigm\u00e1tico dos discursos do atual presidente. 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