Autor: dteach-home

  • Ciência para crianças! A importância do isolamento social

    Estamos iniciando nossa série de quadrinhos Ciências para crianças! Se você quiser conhecer um pouco mais sobre os personagens, confira antes nossos quadrinhos de apresentação: https://www.blogs.unicamp.br/nasasasdodragao/2020/05/18/ciencia-para-criancas-quadrinhos/

    O tema dos quadrinhos de hoje é muito pertinente na atual situação de pandemia de Covid-19 que enfrentamos. A forma mais eficiente de evitar o contágio e propagação do vírus é a prática de isolamento social, que consiste em evitar a participação em atividades que envolvam muitas pessoas e se manter dentro de casa por um tempo. 

    Neste quadrinho, Dragonino está triste por não poder ver seus amigos, porém sua mamãe médica, Driana, sabe que é preciso que todos se protejam bem para evitar a contaminação. Veja o quadrinho e, junto com o Dragonino, entenda a importância de ficar em casa durante esse período!

    Todas as informações têm como base dados disponíveis nos sites oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde do Brasil. Para mais informações, entre nos sites referenciados nos quadrinhos:

    https://coronavirus.saude.gov.br/

    https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019

    https://portal.fiocruz.br/video/video-da-oms-como-colocar-usar-retirar-e-descartar-uma-mascara

    Equipe: 

    • Design: Giovanna S. Veiga
    • Pesquisas e roteiro: Edilaine C. Guimarães e Carla R. de Souza
    • Supervisão: Vinicius Saragiotto, Verônica Dos S. Sales, Bianca B. De M. Fonseca
    • Orientação e Revisão: Carolina S. Mantovani e Lúcia E. Alvares

    English version

    Translation: Allan Cavalcante and Giovanna S. Veiga


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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Ciência para crianças! Uma série de quadrinhos para os pequenos cientistas em meio à pandemia!

    Devido a atual situação da pandemia de Covid-19, a equipe do projeto Nas Asas do Dragão está iniciando uma série de quadrinhos de divulgação científica voltadas para o público infantil.

    As histórias se baseiam nos aprendizados do personagem Dragonino, um pequeno dragão muito curioso, e contam com a participação de sua mãe, Driana, que é médica, e seu pai, Draco, que trabalha como biólogo e professor. Juntos, eles irão ajudar a explicar diversos temas atuais para as crianças!

    Serão abordados, semanalmente, temas como o isolamento social, a importância dos profissionais de serviços essenciais, como lidar com o distanciamento de parentes e amigos na quarentena, entre muitos outros. Fique por dentro dessa aventura de conhecimento e vamos passar juntos por essa fase!

    Abaixo está nosso primeiro quadrinho apresentando os personagens. Conheça um pouco mais sobre Dragonino e sua família, e não perca as próximas tirinhas!

    Quadrinhos de apresentação do Dragonino e sua família para iniciar a série Ciência para crianças!

    Equipe: 

    • Design: Giovanna S. Veiga
    • Pesquisas e roteiro: Edilaine C. Guimarães e Carla R. de Souza
    • Supervisão: Vinícios Saragiotto, Verônica dos S. Sales, Bianca Bosso de M. Fonseca
    • Orientação e Revisão: Carolina S. Mantovani e Lúcia E. Alvares

    English version

    Translation: Allan Cavalcante and Giovanna S. Veiga


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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Mais rápido, mais preciso e mais fármacos: Triagens de Alto Desempenho.

    Imagine que você esteja na véspera de uma prova e precise ler toda a bibliografia recomendada pelo seu professor da noite para o dia. Se você for um ótimo leitor, conseguirá ler no máximo um dos livros recomendados. Agora pense que você tenha a habilidade não só de ler vários livros de uma vez, mas ler todos os livros de diversas bibliotecas da sua cidade de uma vez só. 

    Essa leitura dinâmica te ajudará a entender os principais pontos dos livros e, às vezes você encontrará um livro que você nem sabia que poderia te ajudar na hora de fazer a prova. Apesar disso, sua leitura terá sido pouco específica ou aprofundada e se você precisasse saber algum detalhe na hora da prova, você provavelmente não se lembraria. Na área de descobrimento de fármacos temos uma metodologia parecida: a triagem de alto desempenho (High-Throughput-Screening, ou HTS).

    Desenvolver um remédio é algo muito caro e demorado. A triagem de alto desempenho é um processo automatizado capaz de testar milhares de “candidatos a remédios” (compostos químicos ou biológicos) em um único dia. Esse tipo de triagem, o HTS, é muito utilizado na indústria farmacêutica e é feita com a ajuda de robôs, o que minimiza os erros na hora de adicionar concentrações muito pequenas de remédios ao seu ensaio. Um cientista fazendo esse trabalho de modo manual demoraria uma semana para realizar a triagem de poucos compostos, e utiliza concentrações mais altas do que as do robô.

    O HTS é uma forma de separar fármacos promissores, também chamados de HITS, daqueles que não possuem efeito nenhum. Essa técnica é muito importante no cenário da pandemia de COVID-19, pois torna possível selecionar os compostos candidatos para tratamento de um modo bem mais rápido do que conseguiríamos sem a ajuda dos robôs. E como isto é feito?

    Para começar a triagem,  uma biblioteca de compostos é criada e funciona de modo bem parecido com uma biblioteca de livros. Essa biblioteca é um conjunto de compostos sintetizados quimicamente e de origem biológica. Podem ser, por exemplo, desde fármacos já aprovados para uso em humanos, até compostos extraídos de plantas. Essa biblioteca será testada com a ajuda destes “robôs pipetadores”, e os resultados serão analisados por cientistas que separarão os compostos HITS.

    Por ser um ensaio in vitro, ou seja, que não realiza observações em organismos vivos, e por nem sempre ser realizado com fármacos que já são aprovados para uso em humanos, esses testes são apenas indicadores de compostos promissores, que deverão ser validados em mais ensaios para confirmar se eles funcionam contra determinada doença ou não. 

    Caso sejam encontrados compostos promissores contra a infecção por SARS-CoV-2 (o vírus que causa a COVID-19), novos testes, que avaliam diferentes características dos remédios devem ser realizados antes, e depois validados pelos órgãos regulamentadores (como o FDA nos EUA e a ANVISA no Brasil). Existem 3 principais tipos de triagem de alto desempenho, e você pode conhecê-las a seguir:

    1. Triagem fenotípica, ou triagem celular

    As triagens fenotípicas, que são características observáveis, utilizam como base para o experimento uma cultura de células. Os pesquisadores, por meio de um sistema robotizado, adicionam uma quantidade específica de células em um poço de uma placa de ensaio, depois colocam o composto que será testado e o patógeno (agente causador da doença). No decorrer do experimento  as células, o composto e patógeno entram em contato e interagem entre si (isto pode durar alguns dias). O ensaio é finalizado com a adição de “corantes” no poço para realizar uma leitura no microscópio. Essa leitura pode mostrar estruturas celulares específicas e até mesmo o patógeno. Com essas imagens, são feitas análises para determinar se um composto teve efeito ou não.

    Caso o composto candidato apresente algum efeito, é necessário repetir o experimento, e depois estudos com outros tipos de testes/experimento , para que o resultado seja validado e se possa afirmar que um dado composto é eficiente de verdade. Por vezes, os testes indicam “falsos positivos”, compostos que parecem funcionar, mas na verdade não tiveram efeito. Além disso, uma desvantagem dos ensaios fenotípicos é que não é possível saber qual o mecanismo de ação do composto usado naquele contexto.

     

    2. Triagem Bioquímica

    As triagens bioquímicas são um pouco mais específicas do que as triagens celulares Antes de começar o experimento de triagem, são selecionadas  moléculas importantes do patógeno, como proteínas e enzimas.Tanto as proteínas, quanto as enzimas são pequenos pedaços que ajudam a dar uma forma para esse organismo, ou realizar uma função dentro dele. Essas moléculas são sintetizadas e colocadas nos poços das placas de ensaio juntamente com um ligante no caso das proteínas ou um substrato para as enzimas, ou seja, um composto específico com a sua molécula de interesse interage. Os compostos candidatos são adicionados, e é analisado se eles são capazes de interferir com a ação da proteína, ou seja, é avaliada a interação entre a proteína e o substrato ou ligante. Desta forma é possível saberse existe alguma interação específica entre essa proteína testada e o composto avaliado. A ideia é selecionar compostos capazes de fazer com que a proteína não funcione adequadamente. Essa análise pode ser feita por meio de indicadores de que houve uma transformação química, como uma mudança na coloração do poço que pode indicar, a quebra de alguma molécula do substrato, ou até mesmo alguma mudança na estrutura da proteína-alvo do experimento. Essa técnica foi efetiva para encontrar um remédio que atuasse na inibição da proteína NS5A do vírus da Hepatite C.

    Apesar de mais específico, esse tipo de teste está restrito a apenas uma região específica do patógeno (a proteína isolada). Proteínas diferentes têm estrutura diferentes e podem ter interação diferente diante de um determinado composto. No caso de um vírus como o SARS-CoV-2, existem diversos alvos possíveis para a ação de medicamentos, como a proteína spike, ou a enzima que quebra proteínas (protease). Caso o teste seja feito utilizando apenas a spike, nunca saberemos se os compostos testados funcionarão para a protease, por exemplo. 

    Figura 02. Esquema de um ensaio de triagem bioquímica.

    Triagem Virtual (vHTS)

    O ensaio virtual, ou triagem virtual, utiliza técnicas em bioinformática como base. Com o uso de programas de computador, são criados modelos em 3D da estrutura do composto e do alvo de interesse. Ao invés de usarmos um laboratório para sintetizar os compostos, cultivar as células e fazer o teste, realizamos o Docking molecular, ou uma simulação, em computadores. O Docking baseia-se na ligação das moléculas de compostos candidatos a sítios específicos da proteína alvo. Esta técnica funciona como um sistema de chaves e fechaduras, no qual testamos várias chaves e vemos qual se encaixa. O resultado disso é uma lista que ordena quais foram os compostos que se encaixam melhor naquele sítio de ligação. Dessa forma, podemos sintetizar apenas os compostos que mostraram uma boa ligação na molécula-alvo, economizando materiais do laboratório químico/farmacológico.

    Uma desvantagem desse ensaio é que para realizá-lo é necessário que você já conheça a estrutura molecular dos seus candidatos, e conheça a estrutura de onde você quer que ele encaixe, o que ainda não é possível para muitas moléculas. Essa estratégia só pôde a ser utilizada para encontrar candidatos contra a COVID-19 depois da publicação da estrutura das proteínas do vírus.

    Figura 03. Esquema de um ensaio de triagem virtual. Na imagem podemos observar uma das drogas que já foram selecionadas como possíveis tratamentos, se encaixando em uma das proteínas do vírus. 

    Mas qual o melhor HTS?   

    Cada um dos testes apresenta vantagens e desvantagens. A triagem por docking pode não representar de forma fidedigna o que acontecerá numa reação real, a triagem bioquímica exclui reações paralelas, como as que podem acontecer devido ao metabolismo celular, e a triagem por célula não nos permite conhecer o mecanismo de ação do fármaco. A melhor estratégia é sempre realizar a combinação dos 3 tipos diferentes de HTS e, caso um candidato passe por todas essas provas, o próximo passo é realizar os experimentos em modelos animais e testes clínicos que validem o composto como um remédio.

    Quer saber mais? 

    1. Integração das técnicas de triagem virtual e triagem biológica automatizada em alta escala: oportunidades e desafios em P&D de fármacos  https://core.ac.uk/download/pdf/37522641.pdf
    2. Acervo da Nature sobre HTS (textos em inglês):  https://www.nature.com/subjects/high-throughput-screening
    3. Impact of high-throughput screening in biomedical research: https://www.nature.com/articles/nrd3368.pdf
    4. A decade of fragment-based drug design: strategic advances and lessons learned: https://www.nature.com/articles/nrd2220.pdf
    5. Image based chemical screening: https://www.nature.com/articles/nchembio.2007.15
    6. Contemporary screening approaches to reaction discovery and development: https://www.nature.com/articles/nchem.2062.pdf
    7. An open-source drug discovery platform enables ultra-large virtual screens:  https://www.nature.com/articles/s41586-020-2117-z


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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


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  • Descobrindo e Redescobrindo medicamentos: Como podemos tratar a COVID-19?

    Como resposta à pandemia do coronavírus, diversos grupos de pesquisa têm procurado uma vacina ou um tratamento contra a COVID-19. Com isso, sempre aparecem novas notícias no jornal sobre medicamentos que são “a aposta” para curar essa doença. Você já se perguntou qual caminho um medicamento deve percorrer para sair do laboratório e ir até a prateleira da farmácia? Vamos explicar aqui como funciona o descobrimento (e o redescobrimento) de medicamentos para doenças ocasionadas por vírus!

    Mais rápido e mais barato, o que é o reposicionamento de fármacos?

    Criar um medicamento do zero demanda muito tempo  e é caro. O tempo médio para um princípio ativo ser sintetizado em laboratório, virar medicamento e ir parar nas prateleiras da farmácia é de 12 anos e custa milhões de dólares! 

    Em tempos de pandemia, não possuímos tanto tempo assim para achar uma solução, e uma alternativa é o que chamamos de reposicionamento de fármacos.

    O reposicionamento é uma forma de pesquisa que investiga se um medicamento que já é bem conhecido possui alguma atividade contra uma doença que ainda não tem tratamento.  Essa estratégia tem sido utilizada principalmente para identificar tratamentos para doenças que não possuem tanto investimento, como malária, leishmaniose, e doenças virais transmitidas por mosquitos. 

    O reposicionamento começa com uma pesquisa in vitro, normalmente em uma cultura de células, com objetivo de  verificar se o medicamento conseguiu atuar naquela infecção. Caso o resultado seja positivo, mais alguns testes são necessários para entender como esse medicamento atua na doença, determinar a dose e a periodicidade que ele deve ser administrado aos futuros pacientes. Após a validação dos testes, o remédio será seguro para realizar os testes clínicos. Esses testes possuem um número controlado de pacientes, e depois que os testes são finalizados, é possível dizer se o reposicionamento deu certo ou não. Reposicionar fármacos é tomar um atalho para encontrar uma resposta para uma doença.

    No caso do tratamento da COVID-19 temos muitos candidatos para reposicionamento.  O remdesivir, medicamento desenvolvido para o tratamento de casos de Ebola, o lopinavir e o ritonavir, utilizados em coquetéis anti-HIV, e claro, a cloroquina e a hidroxicloroquina,  utilizadas no tratamento de malária e lúpus. Possivelmente nas próximas semanas outros candidatos possam surgir e ganhar destaque na mídia.

    Todo medicamento de reposicionamento é seguro e é efetivo? Não!

    Mesmo sendo uma alternativa mais rápida do que o descobrimento de um novo medicamento, o reposicionamento precisa ser validado em diferentes experimentos e grupos de pessoas, e os efeitos a longo prazo também devem ser estudados! 

    Depois que foi divulgado um estudo experimental que utilizava cloroquina, houve um aumento substancial na venda deste composto, ocasionando problemas como a falta do medicamento para pacientes que fazem uso regular, diversos casos de intoxicação por má administração e até mortes! 

    Quer saber mais sobre a cloroquina? Se liga nestes links que selecionamos para vocês 🙂

    Desmistificando a Cloroquina:
    Nigéria registra intoxicações por cloroquina


    Estudo associa hidroxicloroquina a maior risco de morte por Covid-19

    Homem morre após automedicação com cloroquina nos EUA

    Maior estudo sobre cloroquina e hidroxicloroquina demonstra que aumentam risco de arritmias e morte

    Mesmo com as notícias de possíveis tratamentos, é preciso ter calma.  Ainda estamos na etapa de testes clínicos e apenas um grupo de pessoas realizou esse tratamento. Em um primeiro estudo com poucas pessoas, a própria cloroquina demonstrou ser um candidato ao tratamento, mas agora um estudo com mais de 96 mil pacientes indica que ela é ineficiente. Assim como qualquer medicamento, os tratamentos contra COVID-19 devem ser realizados apenas por meio de orientação médica e seguindo sempre as orientações dos órgãos regulamentadores e científicos.

    Ficou curioso para entender como funciona o descobrimento de um  novo medicamento? Aqui embaixo a gente te explica:

    O processo começa com o estudo do agente causador da doença e de etapas que são importantes para a evolução do quadro clínico. Algumas etapas importantes em doenças causadas por vírus são o momento de infecção, de replicação do vírus dentro da célula e de liberação das novas partículas. Com esse entendimento, é possível definir quais moléculas (naturais ou sintetizadas) serão capazes de realizar uma interferência e impedir, ou amenizar, a doença. O mecanismo de ação dos compostos pode ocorrer protegendo o corpo daquilo que está fazendo mal, atuando diretamente na morte do patógeno, ou em alguma outra etapa importante da infecção. Após esses estudos, é realizada a síntese em laboratório e a caracterização dos compostos de modo a verificar qual a composição exata deles. 

    Depois de sintetizados, esses princípios ativos são testados em ensaios in vitro. Um ensaio in vitro é como uma horta: As células cultivadas são como as plantas; a terra e os nutrientes são o que chamamos de meio de cultura, e todo esse cultivo ocorre geralmente em placas de vidro ou plástico. Os ensaios in vitro são muito importantes pois conseguimos controlar diversos fatores que não conseguiríamos em outros ensaios, definir uma quantidade exata de células, fazer observações ao microscópio e o mais importante, reduzir a quantidade de experimentos em animais. 

    No ensaio in vitro são realizados testes para verificar se o princípio sintetizado tem efeito ou não. Em uma doença ocasionada por vírus, verificamos se aquele composto foi capaz de proteger a célula, ou se aquele composto conseguiu diminuir a quantidade do vírus naquele experimento. Além disso, também verificamos se aquele composto está sendo tóxico para a cultura de células afinal, não adianta reduzir a quantidade do vírus, mas ao mesmo tempo matar as células.

    Depois de finalizados os experimentos in vitro, devemos partir para os modelos in vivo,ou seja, em modelos animais, pois a dinâmica do composto em um sistema vivo é diferente de um sistema fechado de cultura de células. Num corpo possuímos diversos tipos de células, que podem interagir de formas diferentes com esse possível princípio ativo. São nos testes in vivo que também verificamos as doses de segurança dos medicamentos, evitando uma possível overdose e também onde se reconhecem em parte os efeitos colaterais relacionados a substância administrada..

    Estabelecidos todos os parâmetros de segurança, passamos finalmente para os testes clínicos. Os testes clínicos são realizados depois da aprovação de um conselho de ética, e sempre com a autorização do paciente ou de um responsável. São testes realizados com escolha aleatória de pessoas, e sempre contando com um grupo controle, que não receberá o tratamento. Nesses testes é que realizamos a validação final dos medicamentos, e, aí sim ele pode ser considerado efetivo no tratamento de uma doença.

    Ainda não temos nenhum medicamento, novo ou de reposicionamento, que seja a cura para a COVID-19. A previsão é de que os resultados dos testes clínicos já iniciados sejam divulgados nos próximos meses, incluindo a iniciativa coordenada pela Organização Mundial da Saúde chamada “Solidariedade”. Por hora, os únicos métodos realmente efetivos de combate a pandemia são o distanciamento social e medidas básicas de higiene!

    Quer saber mais sobre o tema? Aqui embaixo temos algumas sugestões para você continuar a aprender:
    Novos Remédios para velhas doenças
    Como surge um novo medicamento?
    OMS lança estudo global para testar 4 medicamentos contra Covid-19

    Referências em inglês:

    MCCAUSLAND, Phil. CDC warns against using form of chloroquine that killed man, sickened his wife. 2020. Acesso em: 03 mai. 2020.

    WOUTERS OJ, McKee M, LUYTEN, J. Estimated Research and Development Investment Needed to Bring a New Medicine to Market, 2009-2018JAMA. 2020;323(9):844–853. doi:10.1001/jama.2020.1166


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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Celebrando a Dra. June Almeida – a mulher que descobriu o primeiro coronavírus humano

    Estamos passando por um período bem delicado, em que a pandemia do coronavírus mudou a rotina de muitos de nós, e com isso procuramos aprender e nos adaptar aos novos modelos de trabalho e relações.

    Vocês estão acompanhando nosso Especial Epidemias, e quero apresentá-los à Dra. June Almeida, a mulher que descobriu o primeiro coronavírus. Há cerca de um mês, June vem sendo destaque em alguns meios de comunicação e páginas de divulgação científica –  quando seu trabalho foi retirado do esquecimento. 

    Hoje, vamos explicar por que sua técnica de microscopia eletrônica foi revolucionária para a época e merece destaque nos dias atuais. Também convidamos vocês a refletirem sobre a razão pela qual uma pandemia foi necessária para que a Dra. June Almeida fosse, enfim, celebrada.   

    O começo

    A Dra. June Almeida nasceu em Glasgow em 1930 e foi uma virologista escocesa, doutora em ciências e pioneira no método de imagens para vírus. 
    Filha de Jane Dalziel e Harry Leonard Hart, sempre foi considerada uma aluna brilhante, mas aos 16 anos ela precisou deixar a escola pois não conseguiu uma bolsa de estudos . Por não ter recursos para ir à universidade, pois seu pai trabalhava como motorista de ônibus, June começou a trabalhar como técnica de laboratório em histopatologia na Royal Glasgow Infirmary. Posteriormente, mudou-se para o Hospital St. Bartholomew, em Londres, para continuar sua carreira em função similar.

    O reconhecimento

    Ao mudar-se para Londres, June conheceu  o artista venezuelano Enrique Almeida,com quem casou-se em 1954 e teve uma filha.  Um tempo depois, o casal mudou-se para o Canadá, onde June passou a trabalhar como técnica em microscopia eletrônica no Ontario Cancer Institute. Mesmo sem qualificações universitárias ela teve um grande destaque e escreveu diversos artigos científicos, sendo a maioria relacionada a estruturas de vírus.

    A metodologia desenvolvida por June, que possibilitava  uma melhor visualização de vírus por meio do uso de anticorpos, permitiu utilizar microscópios eletrônicos no diagnóstico de infecções virais, sendo uma delas a rubéola. 

    Seu trabalho começou a ser aceito e, alguns anos depois, em 1964, ela foi convencida pelo professor de microbiologia na St. Thomas Hospital Medical School a voltar à Inglaterra para trabalhar no hospital.

    June Almeida. Foto: Getty Images

    A técnica revolucionária

    Os vírus são partículas microscópicas e a visualização de suas estruturas só é possível através de um microscópio eletrônico, que evidencia partículas menores que 1mm. Quando um microscópio eletrônico emite um feixe de elétron sob uma amostra, essa emite elétrons secundários que são capturados por detectores. As interações das partículas com a superfície da amostra são então registradas, criando uma imagem 3D na tela do computador. Como os elétrons têm comprimentos de onda muito mais curtos que a luz, a imagem revelada apresenta detalhes pequenos e finos.

    Na época em que June trabalhou, as imagens de microscopia eletrônica eram muito duvidáveis devido à falta de nitidez do contraste, sugerindo resultados falsos-positivos. Contudo, June era conhecida por ter desenvolvido uma metodologia de sucesso, através da mistura de reagentes em determinado pH, que melhorava o contraste do material gerando imagens mais definidas. Essa metodologia é conhecida como marcação negativa

    June ainda realizou importantes avanços na técnica conhecida como microscopia eletrônica imune que utiliza anticorpos para marcar a molécula de interesse. Com essa técnica, June conseguiu demonstrar a morfologia do Rinovírus, o que era muito difícil na época. No geral, seus trabalhos em microscopia eletrônica promoveram importantes avanços em virologia nas décadas de 1960 e 1970.

    A validação

    Quando a Dra. June Almeida voltou para o Reino Unido suas publicações já eram reconhecidas, e com o seu retorno sua carreira efetivamente decolou e ela obteve o grau de doutora honorária. 

    A cientista começou, então, a colaborar com Dr. David Tyrrell, que analisava pacientes da unidade de gripe comum do hospital. Algumas amostras de lavagens nasais de voluntários foram enviadas a June, que pôde identificar em seu microscópio os vírus do resfriado comum e um outro vírus, que era uma nova causa de infecção respiratória: o coronavírus. A princípio, esse novo patógeno foi chamado de vírus “tipo influenza”, mas esse nome não soava tão especial. June batizou então o novo vírus com o seu nome, agora tão famoso, por observar nas imagens uma espécie de halo em volta do vírus,  que remete a uma coroa

    Embora a identificação de um novo vírus que causa uma patologia respiratória em humanos pareça algo muito relevante, seus achados foram imediatamente rechaçados pela primeira revista científica em que June tentou a publicação dos dados. Eles duvidaram se tratar de um novo vírus, argumentando que seria apenas imagens mal feitas do vírus influenza. 

    Somente em 1967, June publicou as imagens captadas pela brilhante técnica de microscopia eletrônica no Journal of General Virology. Esse artigo pode ser lido na íntegra aqui.

    June também produziu a primeira imagem do vírus da rubéola e descobriu a existência de dois componentes distintos do vírus da hepatite B.

    Primeiro tipo de coronavírus identificado por June Almeida em 1964. Foto: Reprodução/BBC.

    Ela encerrou sua carreira no Wellcome Research Laboratory, onde trabalhou desenvolvendo vacinas. Em 1985, ela se aposentou e tornou-se professora de ioga, mas manteve-se como consultora no Hospital St. Thomas desde 1980, onde ajudou a registrar a imagem do vírus HIV

    Ela morreu em 1 de dezembro de 2007, aos 77 anos, em sua casa em Bexhill, após um ataque cardíaco, deixando a filha Joyce e as netas.

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    Se pararmos para refletir, a história de June Almeida infelizmente não se difere muito da história de outras tantas mulheres cientistas que já abordamos aqui. Assim como ela, Rosalind Franklin e sua fotografia que ajudou a desvendar a estrutura do DNA ou Nettie Stevens e seu trabalho com cromossomos sexuais não tiveram a merecida valorização na época em que foram realizados. 

    O que sua história também tem em comum com a de outras cientistas é que anos mais tarde, de uma forma ou de outra, esses achados são resgatados e trazidos à luz e seus feitos são enfim merecidamente destacados. Nos orgulhamos em cumprir esse papel de resgatar e celebrar essas mulheres cientistas e seus feitos fundamentais para a construção do conhecimento. 

    Convidamos a todos vocês a celebrar a Dra. June Almeida e a descobrir aqui outras tantas mulheres incríveis. 


    Esse texto teve a colaboração de Marina Barreto Felisbino e Carolina Francelin.

    Referências

    https://oglobo.globo.com/celina/june-almeida-mulher-que-descobriu-primeiro-coronavirus-humano-24376400

    https://www.publico.pt/2020/04/17/ciencia/noticia/historia-primeira-pessoa-coronavirus-humanos-1912722

    https://pt.wikipedia.org/wiki/June_Almeida

    https://brasil.elpais.com/smoda/2020-05-08/a-verdadeira-historia-da-cientista-sem-estudos-que-descobriu-os-coronavirus.html

    https://www.microbiologyresearch.org/content/journal/jgv/10.1099/0022-1317-1-2-175;jsessionid=bDf_z0c7jWH2XFbtjM92rvp-.mbslive-10-240-10-103

    http://coronavirus.butantan.gov.br/ultimas-noticias/june-almeida-a-doutora-que-nao-terminou-o-ensino-medio-e-identificou-o-primeiro-coronavirus

    https://www.bbc.com/news/uk-scotland-52278716

    https://jvi.asm.org/content/jvi/10/1/142.full.pdf

    https://www.oxforddnb.com/view/10.1093/ref:odnb/9780198614128.001.0001/odnb-9780198614128-e-99332;jsessionid=C76D00BE1623ACAFA790C8992369D53D

    https://www.microbiologyresearch.org/content/journal/jgv/10.1099/0022-1317-1-2-175;jsessionid=BzeMOhElGboAUSiTKaCfW0HP.mbslive-10-240-10-183


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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Os 7 tipos de Fake News sobre a Covid-19

    Autoria de Cesar Augusto Gomes

    Conforme escrevi neste Especial Covid-19, há dois meses, a pandemia trouxe consigo a necessidade de estancar a disseminação de falsas informações a respeito dessa terrível doença.

    Neste sentido, o presente texto pretende analisar e classificar os tipos de desinformação que circulam relacionados à Covid-19 e indicar um roteiro de perguntas básicas que você deve fazer antes de acreditar e / ou compartilhar informações que vale tanto para o Coronavírus quanto para as demais fake news sobre saúde, que circulam desde sempre.

    Para esta análise e classificação utilizo como método os 7 Tipos de Desinformação, inspirado na classificação feita por Wardle e Derakhshan (2017), para quem o termo fake news é inadequado, ambíguo e simplista para descrever o fenômeno da produção, difusão e consumo de uma gama variada de informações e não dá conta tanto da natureza quanto da escala do problema:

    Neste relatório, evitamos usar o termo “fake news” por dois motivos. Primeiro, é lamentavelmente inadequada para descrever os complexos fenômenos da poluição da informação. O termo também começou a ser apropriado por políticos de todo o mundo para descrever organizações de notícias cuja cobertura eles acham desagradável. Desta forma, está se tornando um mecanismo pelo qual os poderosos podem reprimir, restringir, minar e contornar a liberdade de imprensa. (WARDLE e DERAKHSHAN 2017:05)

    As informações foram coletadas entre os dias 26 de fevereiro de 2020 (data do 1° caso de Covid-19 registrado no Brasil) até o dia 10 de maio de 2020 (data da produção deste texto) e serão elencadas por ordem cronológica a partir do momento em que elas foram publicadas[1] pelas agências e editorias de fact-checking brasileiras, além Projeto Comprova, que atualmente se empenham em fazer o debunk das informações não factuais que circulam. Houve a seleção de um único exemplo de desinformação por categoria, com o intuito único de ilustrar os mesmos e não se buscou quantificá-los, hierarquizá-los nem relacioná-los a quaisquer correntes políticas ou a seus interesses subjacentes.

    Há, sem dúvida, a menção à política dentro das explicações porque ela atravessa o tema aqui estudado.

    (1) Manipulação do Conteúdo: quando a informação ou imagem genuína é manipulada para enganar.

    Foto editada publicada em post nas mídias socias (à esquerda) e frame de reportagem do canal pago GloboNews (à direita)

    31/03. A linguista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roxane Rojo (2012), ao diferenciar mídias digitais e analógicas, explica que estas faziam parte de um processo de comunicação unilateral em que o receptor estava incapacitado de responder ou interagir com a informação ou conteúdo que recebia.

    Por outro lado, aquelas, com a evolução tecnológica, permitem “que o usuário – ou o leitor/produtor de textos humano – interaja em vários níveis e com vários interlocutores – interface, ferramentas, outros usuários, textos/discursos etc.” (ROJO, 2012:23).

    Assim, o fácil acesso às tecnologias digitais permite não apenas receber conteúdos passivamente, mas interagir com eles e até interferir, produzindo outros conteúdos a partir do que foi lido, publicá-los e ser lido em qualquer parte do mundo por milhares de pessoas que tenham a acesso à internet.

    Essas possibilidades, que inegavelmente democratizam a comunicação de uma maneira nunca antes vista, podem estar se tornando uma armadilha para a Democracia, pois, têm servido a interesses de grupos de que delas se aproveitam para obter dividendos econômicos, e políticos, inclusive para defender o fim da Democracia, passando ao largo do interesse público.

    Portanto, a Manipulação do Conteúdo é um claro exemplo concreto dessa distorção, pois, no caso em destaque, o autor se utiliza de um frame de uma reportagem sobre chuvas do ano anterior e sobrepõe – por meio de uma legenda que imita a fonte da emissora de TV – uma informação não factual envolvendo a Covi-19. Um leitor desavisado e que não tenha a curiosidade de investigar a veracidade da informação, certamente vai absorver a versão transmitida por meio da montagem.

    (2) Conteúdo Fabricado: conteúdo novo que é 100% falso, criado para ludibriar, prejudicar.

    Frames de vídeo publicado no YouTube (à esquerda) e ilustração de fórmulas químicas (à direita)

    14/04. A produção de fake news não é exclusividade de um partido ou de uma corrente política, não agora, mas na história da humanidade. No entanto, no caso específico da Covid-19, no Brasil de 2020, uma corrente específica manifesta claramente o seu desprezo pelas determinações dos cientistas, o que não é segredo para ninguém, muito pelo contrário, alguns se orgulham disso. Isso talvez justifique a ansiedade (talvez, não seja nem maldade) de se produzir uma cura, que venha a desmentir tudo o que as pesquisas e os cientistas disseram até agora, revelado pela frase dita ao final do vídeo pela autora: “Isso a Globo não te conta!”.

    A protagonista (é bom pontuar porque ajuda a explicar o contexto da produção) tem pretensões político-eleitorais, conforme um site local e o perfil de seu partido num site de rede social noticiam que ela foi “aprovada no processo seletivo para Vereadora de Campo Grande/MS”. Se o objetivo era divulgar seu nome, deu certo, pois, num único perfil do site de rede social Twitter ela teve mais de 2 milhões de visualizações. É exatamente para isso que muitas vezes se produzem Fake News: dado o absurdo de algumas narrativas, uma parte das pessoas acabam compartilhando para criticar o que foi dito e outra parte, por concordar. De um modo ou de outro, a pessoa consegue aquilo que buscava: notoriedade. A estratégia tem se mostrado bastante eficiente, principalmente para fins eleitorais, como parece o caso.

    Podemos classificar como Conteúdo Fabricado todas as Fake News que circulam propondo algum tipo de cura para a Covid-19, sem nenhuma comprovação científica, como é o caso da recomendação para beber água quente ou ingerir Vitamina C e chá de erva-doce.

    (3) Falsa Conexão: quando manchetes ilustrações ou legendas não confirmam o conteúdo.

    Post que circula nas mídias sociais (à esquerda) e captura de tela (screenshot) de decreto emitido pelo Governo Federal (à direita).

    14/04. Outro caso bem comum de se encontrar, novamente ligado à política, porque no Brasil de 2020 a pandemia ganhou uma dimensão política, aparece uma linha de produção de Fake News que busca isentar a figura do presidente da república das consequências econômicas inevitáveis que virão pós pandemia. Isso do ponto de vista do debate democrático é legítimo, desde que feito baseado em fatos. Não é o caso do post acima que circulou nos sites de redes sociais ligados a determinado espectro político.

    A Falsa Conexão – muito parecida com o Conteúdo Enganoso – procura, a partir de um fato, distorcer parte da informação. A diferença é que o Conteúdo Enganoso distorce os dados omitindo as fontes e comunicando aquilo que lhe convém. Já a Falsa Conexão apresenta sim uma fonte oficial, porém distorce o conteúdo dessa fonte oficial, apostando no hábito do leitor ubíquo de não pesquisar a fonte e se contentar com o que está ali colocado para acredita na postagem. Logicamente isso está associado a uma série de questões como o viés de confirmação e tantos outros motivos que levam as pessoas a acreditar em Fake News, mas que não vamos discutir neste momento.

    (4) Falso Contexto: quando o conteúdo genuíno é compartilhado com informação contextual falsa.

    Frame de vídeo que circula no aplicativo WhatsApp (à esquerda) e frame de vídeo que ilustra reportagem da EPTV São Carlos, pertencente ao Grupo Globo (à direita)

    30/04. Com o agravamento da pandemia no Brasil, o Amazonas despontou como um dos primeiros Estados que apresentaram colapso em seu sistema de saúde. Como há uma questão política envolvendo a Covid-19 no país, não tardaram surgir desinformações questionando o número de mortos e as medidas de isolamento social.

    Na falta de provas materiais de seus interesses, os produtores de fake news encontraram na rede um vídeo genuíno, porém, gravado em 2017 em que uma exumação foi realizada e encontradas pedras em lugar de ossos humanos. Assim se caracteriza o Falso Contexto: uma informação factual, ocorrida num momento diferente, porém trazida a público como se fosse atual, com a clara intenção de enganar.

    (5) Conteúdo Enganoso: uso enganoso de informações para enquadrar uma questão ou um indivíduo.

    Montagem de posts que circulam nas mídias sociais (à esqueda) e captura de tela (screenshot) dos dados de mortos por Covid-19 no Amazonas (à direita)

    07/05. Ainda no Amazonas, o ex-Ministro da Saúde, Nelson Teich, visitou o Estado no último dia 04 de maio para acompanhar de perto as ações desenvolvidas no enfrentamento à COVID-19, no Estado. Rapidamente, pipocaram nas mídias sociais informações de que o número de mortos havia diminuído após a chegada do político (conforme ilustração acima). Como de costume, este tipo de desinformação não apresenta nenhuma fonte oficial e circula por meio de imagens e vídeos de perfis ligados a determinadas posições políticas.

    Está caracterizado, assim, o Conteúdo Enganoso: partir de uma informação factual – no caso, a visita do ministro – e distorcer informações ou dados decorrentes desta – no caso a informação de que os óbitos em decorrência da Covid-19 teriam caído a 02 pessoas quando na verdade eles giraram entre 36 e 102, durante a passagem do ministro. A intenção é clara: levar os (e)leitores a deduzir que se a primeira informação é factual, a segunda também o será.

    (6) Sátira ou Paródia: nenhuma intenção de prejudicar, mas tem potencial para enganar.

    (7) Conteúdo Impostor: quando fontes genuínas são imitadas.

    Capturas de tela (à esquerda) de post publicado no site de rede social Twitter e (à direita) descrição do perfil da autora do post no mesmo site.

    A produção de notícias falsas como elemento de humor e ironia não começa com a internet. A revista Casseta Popular (paródia da Gazeta Popular) foi criada em 1978, por estudantes de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e o jornal Planeta Diário surgido em 1984 – que chegou a alcançar a tiragem mensal de 100 mil exemplares – inauguraram um tipo de humor tendo como conteúdo paródias e notícias falsas baseadas em fatos reais. A união das duas redações deu origem em 1988 ao Casseta & Planeta, que ficou no ar pela TV Globo entre 1992 e 2010, cujo lema era “Jornalismo mentira, humorismo verdade”.

    Ocorre que, naqueles suportes – impresso e TV – havia condições de identificar o objetivo da publicação e a não veracidade das “notícias” publicadas. Com a chegada das mídias digitais – no sentido que Rojo (2012) lhe atribui, conforme dito anteriormente – houve a migração desse tipo de humor para as plataformas de mídias sociais, o que tornou a vida do leitor muito difícil para – no afã de compartilhar um grande volume de informações que lhe chegam a todo momento em seus dispositivos – diferenciar uma piada com ares de verdade e uma notícia factual, produzida pela mídia denominada tradicional, aqui entendida como “o conjunto de meios enquanto indústria da comunicação, com suas empresas e rotinas próprias” (GUAZINA, 2007:54).

    O Conteúdo Impostor, ao que se tem notícia, é utilizado no Brasil apenas para sites de humor, como a Falha de S. Paulo, paródia do jornal paulistano Folha de S. Paulo, e o G17, paródia do portal G1, do Grupo Globo. Embora não se descarte sua intencionalidade político-partidária, a Sátira ou Paródia, diferentemente dos demais tipos de desinformaçãonão têm o objetivo de enganar, mas sim, entreter.

    7 Dicas para identificar uma notícia falsa

    Segundo o biólogo Atila Iamarino nesta pandemia o raciocínio negacionista está sendo desconstruído pelo rápido confrontamento com os fatos. As fake news, que em boa medida bebem nas fontes negacionistas, estão tendo o mesmo destino. Embora saibamos que o alcance de uma desinformação é muito maior do que o seu desmentido, no curto prazo, as agências e editorias de fact-checking têm um papel fundamental, valorizando ainda mais os profissionais do jornalismo.

    No médio prazo, os legisladores propõem projetos para tentar coibir quem divulga fake news com pesadas multas. No entanto, no longo prazo somente a educação para leitura crítica da mídia pode vir a dirimir esse problema.

    Infelizmente, a Covid-19 nem as fake news sobre ela vão esperar, assim, inspirado no método de identificação de notícias falsas da International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA), enumero a seguir 7 considerações às quais o leitor deve levar em conta antes de compartilhar uma história:

    1. Considere a fonte: clique fora da história para investigar o site, sua missão e contato.
    2. Considere o título: ele corresponde ao conteúdo do texto ou só quer obter cliques?
    3. Considere o autor: há um autor que assina o texto?  Ele tem credibilidade?
    4. Considere a data: repostar notícias antigas como se fossem atuais, é uma estratégia.
    5. Considere outras fontes: a história aparece em outros sites com a mesma versão?
    6. Considere sua ideologia: seus valores e crenças afetam seu julgamento nessa história?
    7. Considere o Humor: pesquise se o site de origem é adepto do gênero humorístico.

    No passado, na Grécia Antiga, a Ágora ateniense era o espaço, físico, onde o cidadão fazia discussões políticas, entre outras atividades. Por ser o espaço da cidadania, era considerada um símbolo da democracia direta e, em especial, da democracia ateniense, na qual todos os cidadãos tinham igual voz. Hoje, as mídias sociais são os espaços (virtuais) mais frequentes em que os cidadãos (onde há dispositivos eletrônicos e conexão de internet) encontram “palco” para se manifestar. Infelizmente, essa Ágora Moderna está sendo destruída por quem não tem apreço à democracia, muito menos à vida humana, pois uma pessoa que tem a coragem de espalhar uma desinformação sobre saúde está (ou deveria estar) consciente de que sua atitude pode levar uma pessoa a deixar de tomar um remédio que poderia lhe salvar a vida ou tomar um que pode lhe tirar. O mundo todo está enfrentando a pandemia da Covid-19, no entanto os brasileiros enfrentam duas.

    Referências:

    GUAZINA, Liziane. O conceito de mídia na comunicação e na ciência política: desafios interdisciplinares. Porto Alegre. Revista Debates, v. 1, n. 1, p. 49-64, jul.-dez. 2007.

    RODA VIVA. Entrevista a Atila Iamarino. TV Cultura. São Paulo. | 30/03/2020. Disponível em https://youtu.be/s00BzYazxvU acesso em 14 mai. 2020;

    ROJO, Roxane; MOURA, Eduardo. (Org.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. 264p.

    WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information Disorder – Toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Council of Europe. Estrasburgo, França. 27 out 2017. Disponível em https://rm.coe.int/information-disorder-toward-an-interdisciplinary-framework-for-researc/168076277c. Acesso em 15 mai. 2020


    [1] Exceção feita à Sátira e ao Conteúdo Impostor que, por pertencerem ao gênero humorístico, não passam por checagem das agências.

    Autoria de Cesar Augusto Gomes


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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Livros que ajudam a pensar a pandemia da COVID-19…

    Oi! Nos últimos dias consegui ler alguns livros de divulgação científica e vou indicá-los abaixo. Todos eles tratam de temas que estão sendo muito falados ultimamente e, portanto, podem nos ajudar a pensar sobre a pandemia da COVID-19! Eles possuem diferentes abordagens (focadas por exemplo, mais na biologia, na historiografia, ou na filosofia e em relatos pessoais), para falar sobre temas como: pandemias, vírus, imunidade, vacinação, doenças, economia, ecologia, evolução… Temos livros para todos os gostos! Vem comigo!

    Ah! Este não é um post patrocinado. Clique nos nomes dos livros para serem direcionados ao site da Amazon!

    O primeiro livro é o recém lançado "Ciência no cotidiano“, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi (Contexto). Natália é microbiologista e Carlos Orsi é jornalista com experiência em jornalismo científico. Am0bos fazem parte do Instituo Questão de Ciência! Nesse livro, a dupla mostra a aplicação do conhecimento científico em diversos contextos das nossas vidas: energia, transgênicos, higiene, astronomia, estatística… Tudo isso numa leitura interessante, curiosa e muito fluida. O capítulo 3 (sobre vacinas) é de utilidade pública! Leia a introdução do livro, clicando AQUI.

    Darwin sem frescura + Como os Vírus e as Pandemias Evoluem” (ebook – capítulo extra e gratuito), de Pirula e Reinaldo José Lopes (Harper Collins). Pirula é biólogo, tem experiência na área de zoologia e evolução e divulga ciência em seu canal no YouTube. Enquanto isso, Reinaldo é jornalista experiente e respeitado quando o assunto é ciência, evolução, evolução humana, história e autor de vários livros. Ao se unirem o resultado foi um livro sobre evolução que aborda temas complexos, tabus e com exemplos muito curiosos. Nesses últimos dias, liberaram um capítulo extra e gratuito sobre evolução dos vírus e das pandemias, que é muito bom!

     “Corpo – um guia para usuários, de Bill Bryson (Cia. das Letras). Bryson é famoso por um de seus livros anteriores que tinha o objetivo de contar a “Breve História de Quase Tudo” (Cia. das Letras) – que também recomendo. E agora ele procura fazer o mesmo, mas falando curiosidade sobre o nosso corpo. Bill começa falando sobre a pele, o sistema nervoso, o coração e a circulação, o equilíbrio, como ações simples envolvem arranjos complexos, nosso intestino e digestão, o sono, sistema urinário e reprodutor, a concepção e o parto… O capítulo 20 (“Quando as coisas dão errado: doenças”) está espetacular e é muito importante para ajudar a entender como e porque doenças se espalham e podem virar uma pandemia!

    Imunidade”, de Eula Biss (Todavia). A autora é uma jornalista que durante sua primeira gravidez foi em busca de respostas que assolam mães e pais… Essa empreitada resultou neste livro, escrito de uma maneira muito didática! Em seu relato, Biss fala sobre dúvidas que, na verdade são de todos nós e não apenas de quem vai receber um novo membro na família! Vacinas, micro-organismos, álcool em gel! O debate sobre vacinação tem um destaque grande no livro – e a autora comenta sobre o histórico caso do estudo fraudulento que relacionou vacinação e autismo, e sore o movimento antivax que, preocupantemente, tem ganhado palco no mundo todo. Fica a recomendação!

    Na batalha contra o coronavírus, faltam líderes à humanidade” (ebook gratuito), de Yuval Noah Harari (Cia. Das Letras ). Best seller mundial com os livros “Sapiens” e “Homo Deus”, o historiador israelense Yuval Harari analisa aqui a situação global da pandemia da COVID-19 e defende a importância da cooperação entre povos para o enfrentamento de situações como essa pandemia, mesmo em tempos de isolamento. Esse ebook, que é a tradução do artigo publicado originalmente na revista Time, é um texto curtinho, gratuito – dá pra ler de uma sentada.

    O amanhã não está à venda” (ebook gratuito), de Ailton Krenak (Cia das Letras). Um dos principais líderes do movimento indígena brasileiro, Ailton Krenak, faz um relato emotivo sobre sua percepção da relação do ser humano com a natureza em meio à pandemia da COVID-19. “Tem muita gente que suspendeu projetos e atividades. As pessoas acham que basta mudar o calendário. Quem está apenas adiando compromisso, como se tudo fosse voltar ao normal, está vivendo no passado […]. Temos de parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de parar de vender o amanhã.” 


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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • E a escola, como vai?

    O ensino remoto nos faz retornar a décadas passadas, onde o acesso à educação era para poucos, num formato totalmente tecnicista, com um currículo imutável e por meio da aplicação de uma mesma “técnica pedagógica”.

    É provável que muitos dos que irão ler este texto tenham filhos em idade escolar ou conheçam pessoas que os tem. É provável também que se perguntem como têm sido as atividades desenvolvidas pelas escolas e se há sentido a educação remota imposta pelo confinamento social. Um fato é, dentre pais, professores, gestores e estudantes, provavelmente encontraremos grande insatisfação com esse formato. Mas enfim, o que fazer em relação a esta situação? E se tivermos um segundo semestre também a distância?
    Sabemos que no Brasil há muitos formatos de educação dentro de um mesmo sistema. Estados, municípios, redes militares, redes federais e privadas compõem um espectro de modelos educacionais e, nesse período de isolamento, toda essa variedade migrou para o caráter remoto. Nessa migração, à outrora importantíssima diversidade do sistema educacional brasileiro tem se colocado como um desafio por vezes insuperável para as instituições e os resultados a se esperar de todo esse processo não tem sido tão promissores.

    Olhando para as propostas
    Ao percorrer os modelos de ensino remoto implementados vemos semelhanças e diferenças. O estado de São Paulo, por exemplo, adotou a proposta remota pela implementação de um aplicativo de celular para disponibilização de conteúdos por meio de arquivos e aulas, com preparo de um material específico para o momento da pandemia além das salas virtuais por meio da plataforma google classroom. Nesse formato, os estudantes da rede entram TODOS ao mesmo tempo no aplicativo para assistir as aulas (que tem horário definido por série) ou o fazem por meio do canal digital da tv cultura, minando qualquer possibilidade de interação). O material produzido não carrega conteúdos síncronos com aqueles estabelecidos em cada série(1).
    Numa linha totalmente diferente, o Instituto Federal de São Paulo (IFSP), por sua vez, optou pela suspensão das atividades, mantendo ações de vínculo com os estudantes enquanto planeja ações futuras. Nesta estratégia são desenvolvidas ações como clubes de leituras, debates sobre filmes, temas atuais, etc., mas sem a cobrança de uma formalização do ensino ou cumprimento de conteúdos curriculares.
    Já as redes privadas, para desespero dos pais, têm adotado cada qual a sua estratégia de sobrevivência. Aulas síncronas ou gravadas, plantões online, disponibilização de materiais e tarefas que devem ser elaboradas e entregues para o acompanhamento pelo professor, dentre outras. O objetivo, na maior parte dos casos, é manter o conteúdo em dia, preocupação que pode girar em torno da manutenção do número de matrículas (e pagamentos) como também em relação aos exames vestibulares.
    A linha comum de todas as propostas no entanto, se mantêm: os estudantes, juntamente com seus responsáveis (no caso da Educação Fundamental), devem acessar o conteúdo em casa, realizar ações e de algum modo apresentar uma devolutiva. Tudo remotamente. É diante deste cenário que estamos e que podemos pensar um pouco a respeito. Me proponho a colocar três questões das inúmeras que são possíveis para o debate.
    Primeiramente, como já apresentado por Natália Flores e Ana Arnt, para além do acesso aos recursos, nem todos os estudantes têm condições adequadas de aprendizado no ambiente domiciliar. Podemos considerar que a escola é um espaço pensado para prover condições mínimas de estudo (ainda que consideremos as condições problemáticas de algumas instituições). Independente de uma proposta tradicional, construtivista, sócio-interacionista, etc., o ambiente escolar possibilita um espaço-tempo onde é possível ler, escrever, dialogar, além, é claro, de obter orientações do e com o profissional professor. Nas casas, o conteúdo produzido (neste momento de forma pouco planejada) é transmitido para um aluno que muitas vezes não possui condições físicas para estudar nem orientação adequada para tal. Na na escola reconhecemos os ritmos e nos adequamos a eles enquanto que no ensino remoto isso não tem sido possível.
    O segundo ponto que toco é a forma como a implementação das ações foi pensada e quais aspectos foram considerados. Todos que trabalham com educação conhecem bem os termos avaliação diagnóstica e planejamento. A ideia de avaliação diagnóstica vai além de conhecer conhecimentos prévios de física, química, matemática ou qualquer outra área. Soma-se a isso, conhecer quem são os estudantes e suas realidades para que o planejamento educacional seja feito e refeito quantas vezes for necessário.
    E então nos questionamos: que dados diagnósticos foram considerados na proposição de uma plataforma única de acesso a conteúdos? Distribuem-se aplicativos a quem não tem acesso, propõe-se um material diferente do currículo e que nem ao menos tem-se a certeza de estarem chegando aos domicílios. Propõem-se que os pais realizem as tarefas com os filhos quando estes também têm trabalho remoto a fazer (na melhor das hipóteses).
    Para além dos dados gerais como os da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNAD 2017, que mostra que o acesso dos municípios à banda larga temos os dados específicos, das escolas, as quais conhecem os estudantes matriculados. Quando se propõe a implementação de um único projeto a populações totalmente distintas, incorre-se no erro crasso de acreditar que todos são perfeitamente iguais em temos de condições e de aprendizagem. Ou seja, nessa proposta, esquecemos o fundamental: quem são os alunos!
    Soma-se a este fato, como terceiro aspecto, a supervalorização da técnica frente ao objeto do aprendizado. Nunca antes se falou tanto em tecnologias educacionais como antes. Nós, professores, buscamos aprender a lidar com ferramentas novas de um dia para o outro (literalmente), empurramos aos alunos e pais que também aprendessem. E produzimos conteúdos digitais de maneiras como nunca faríamos, não fosse a pandemia, com uma falsa impressão momentânea de que com isso venceríamos toda a problemática imposta. Triste fim.
    Ainda que todos tivessem acesso, esquecemos que o formato digital imposto é, sim, limitador a uma proposta tecnicista de ensino uma vez que vem tolhe a interação e o diálogo, impondo um mesmo conteúdo apresentado da mesma forma à todos. A diversidade, outrora aspecto de possibilidades para o ensino, é nesse momento desprezada pois a técnica, por mais atualizada que seja, não considera a realidade. O ensino remoto nos faz retornar à décadas passadas, onde o acesso a educação era para poucos, num formato tradicional, com um currículo imutável e por meio da aplicação de uma mesma “técnica pedagógica”.
    O que podemos fazer diante deste cenário? Manter ou cancelar o ano? Trabalhar conteúdos ou não trabalhar? E o vestibular?
    Obviamente não há saída mágica para a situação. Mas é fato que dados nos auxiliam em ações. Estamos a completar quase dois meses de isolamento e, dependendo do sistema, de duas a oito semanas de ensino remoto. Temos, além dos dados que foram desconsiderados inicialmente, de quem são nossos estudantes, temos ainda o número de acessos, materiais recebidos, respostas ao sistema e podemos ainda acessar outros, se assim for desejável. Então, consideremos estes e nos perguntemos “O que aprendemos com isso e como podemos nos utilizar desses dados para repensar e replanejar as ações?” Na iminência de um segundo semestre também a distância, o mais coerente a se fazer é planejar com bases e não com achismos. Observar que as escolas, mesmo fazendo parte de um mesmo sistema educacional tem especificidades e buscar agir de acordo com estas características é crucial. E se tivermos um segundo semestre a distância? Muitos erros estão aí. Cabe a nós planejarmos as ações, para não cometê-los novamente.

    1. Portal de notícias do Estado de São Paulo: https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/educacao-retoma-ano-letivo-com-ensino-remoto-e-distribuicao-de-material-pedagogico/

    2. Nota da Reitoria do Instituto Federal de São Paulo. Disponível em: https://www.ifsp.edu.br/images/pdf/Noticias/Comunicado_01_2018_PRE.pdf
    3. Natália Flores. Ensino Remoto Emergencial: não é só sobre acesso e equipamentos… disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/covid-19/ensino-remoto-emergencial-nao-e-so-sobre-acesso-e-equipamentos/.
    4. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2017 – disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101631_informativo.pdf


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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


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  • O cérebro em quarentena

    Como ajudar nosso cérebro a driblar a ansiedade e lidar melhor com o estado de isolamento?

    [Esta é uma versão expandida de um texto escrito para a edição de maio de 2020 da revista Ciência Hoje, por André L. Souza e Lucas Miranda]

    O corpo humano é um organismo altamente complexo, cheio de segredos ainda não descobertos e com habilidades que você provavelmente nem sabe que existe. É estranho imaginar que a gente não conhece o próprio corpo e muito menos o controlamos por completo. Mas isso é normal! Aprender mais sobre como nós funcionamos é essencial para mantermos um estado de bem-estar e de saúde mental. E é sobre isso que vamos conversar.

    Nosso cérebro é uma máquina feita para buscar respostas e perceber padrões. O tempo todo, esse órgão que controla tudo que você faz e pensa, está analisando o mundo e as coisas ao seu redor na tentativa de encontrar esses padrões e, com isso, prever o que vai acontecer.

    cérebro jogando bola
    Ilustração do Vitor Hugo de Oliveira (@myFairy_King) feita com exclusividade para esse texto

    Imagine, por exemplo, uma partida de futebol. Neymar está com a bola e um adversário, bem na sua frente, aguarda o momento de dar o bote. Para o atacante decidir o que fazer, o cérebro dele vai analisar um monte de coisas: a distância que o adversário está, o quão bem o adversário joga, a presença de outros jogadores do seu time, a distância que ele está do gol, o seu nível de cansaço, etc. Essas informações vão ajudar o cérebro do Neymar a prever o que pode acontecer em cada uma das suas possíveis escolhas. E é com essas previsões que uma decisão será tomada.

    Esse processamento de informações ocorre no cérebro o tempo todo e em frações de segundo! Você poderia pensar: então, quanto mais informações o meu cérebro processa mais bem fundamentadas serão as minhas decisões, certo? Não exatamente. Imagine se o cérebro do Neymar decidisse analisar também a cor do cabelo do adversário, a vaia de alguém que está na torcida, uma borboleta que passou voando… Essas informações não serão nada úteis para a previsão específica da sua próxima jogada. Elas só irão dar mais trabalho para o cérebro e dificultar a tomada de uma decisão.

    Em momentos de incertezas, como é o caso de uma pandemia e de isolamento, não é fácil para o nosso cérebro saber quais informações são relevantes para fazer as suas previsões: “devo prestar atenção nas notícias de saúde? Ou devo me preocupar mais com as notícias da economia? Será que preciso saber como o coronavírus funciona? Ou posso mesmo só entender que lavar as mãos ajuda?”. Todo esse excesso de informação vai deixando o nosso cérebro perdidinho, sem saber como fazer suas previsões.

    Quando isso acontece e o cérebro não consegue mais montar padrões, ele aciona uma espécie de alarme interno para te avisar que tem algo errado e que alguma coisa precisa ser feita. É como se dissesse: “Ei, estou sendo sobrecarregado aqui. Precisamos fazer alguma coisa”. Esse sentimento, que chamamos de ansiedade, nos paralisa, porque exige toda a nossa atenção e energia voltadas para resolver o que precisa ser resolvido no cérebro para que ele volte a se sentir bem e a encontrar suas respostas e padrões.

    Por isso, é uma boa ideia adotar estratégias que tragam uma maior sensação de controle para o seu cérebro, para evitar que esse alarme seja acionado.

    Tudo sob controle

    Você acabou de chegar de uma atividade e tudo que você quer é um delicioso suco de frutas. Se você decidir jogar no liquidificador 300 tipos de frutas, de vários tamanhos e formatos, o que vai acontecer quando você o ligar? Obviamente, ele não vai conseguir triturar tudo e ainda vai transbordar e fazer a maior bagunça.

    Assim é o nosso cérebro com as informações. Não adianta jogar lá um tanto de informação de diferentes fontes e formatos e esperar que o cérebro faça um suco legal com elas. Se para fazer um bom suco é importante escolher poucas frutas, de preferência as que você gosta e que te deixam bem, e cortá-las em pedaços pequenos, o mesmo deve ser feito com nosso cérebro. Escolha um número pequeno de informações essenciais e de fontes que sejam confiáveis e se exponha apenas a elas. Dessa forma, seu cérebro vai conseguir digerir essas informações com calma e formar os padrões que ele precisa sem se sentir bombardeado.

    Mas como saber que fruta escolher, ou melhor, como saber que informação devo consumir? Basta você pensar o seguinte: a maioria de nós não vai descobrir sozinho a vacina do coronavírus e nem a melhor política pública para lidar com essa pandemia. Essas soluções virão através do esforço coletivo de especialistas das diversas esferas da nossa sociedade. Assim, você não precisa ficar consumindo toda e qualquer informação que apareça, isso só vai adicionar “mais frutas” e deixar o seu sistema cognitivo sobrecarregado. Foque em informações que dizem respeito diretamente a você, e foque nas fontes seguras e que te fornecem informações corretas, precisas e que não te deixem em pânico.

    Ficar em casa é um ato heroico

    Existem várias coisas que não estão sob nosso controle: a composição genética do vírus, a sua letalidade, a maneira como ele ataca as nossas células. E isso é um tanto ruim para o nosso cérebro, porque, como você deve ter percebido, ele é um pouco controlador. Mas que tal focarmos mais em coisas que estão sob nosso controle?

    Você deve saber que o coronavírus não tem asas e nem sabe se teletransportar. Isso significa que para ele chegar no nosso sistema nosso sistema respiratório e alcançar outras pessoas ele precisa de uma carona. Carona das nossas mãos, do nosso corpo, da nossa saliva, do nosso espirro. E essa carona é uma das coisas que podemos controlar. Como garantem os cientistas em todo o mundo, o ato de se isolar fisicamente é uma ótima forma não dar carona para o vírus.

    Pode ser difícil perceber o ato de ficar em casa como uma ação que está sob nosso controle. Afinal, muitos pensam que estamos apenas “esperando o tempo passar”. Mas não encare dessa forma. O ato de ficar em casa é uma ação que dificulta o trabalho do coronavírus de se espalhar e de chegar nas pessoas mais vulneráveis. E, nesse sentido, ficar em casa (para as pessoas que podem) é um ato heroico, principalmente para o nosso cérebro, que não encara muito bem essa história de isolamento físico.

    Ajudando o cérebro a lidar com o isolamento

    Nosso cérebro é, por natureza, um órgão que precisa das interações sociais. Como ajudá-lo a se acostumar com um estado de isolamento físico? A resposta é: através da criação de hábitos e rotina.

    A gente está o tempo inteiro criando hábitos e rotinas no nosso dia-a-dia. E isso é bom. Hábito é uma forma que o nosso cérebro encontra de economizar energia nas coisas que faz. É como se ele colocasse certas ações no piloto automático e usasse a energia que sobra pra fazer outras coisas. Só tem um problema: uma vez que um comportamento entra no piloto automático, é muito difícil o interromper. Se você tem o hábito de entrar no Twitter a cada 5 minutos, quebrar esse hábito será extremamente difícil. Mas como nosso cérebro sabe criar novos hábitos com facilidade, a melhor forma de acabar com um hábito é criar um outro em seu lugar.

    Ao invés de falar: “não vou entrar no Twitter”, você deve falar “vou fazer outra coisa ao invés de entrar no Twitter”. Crie hábitos bons que substituam hábitos que te fazem mal. Modificar seu ambiente para facilitar que esse novo hábito seja criado também é uma boa ideia. Não adianta querer diminuir o acesso a alguma rede social se ela fica a um clique de distância de você.

    E para contribuir para a sensação de controle, que é tão importante para o nosso cérebro, você pode criar pequenas rotinas no seu dia-a-dia. Ficar em casa o dia todo sem hora definida para nenhuma atividade é como estar em um barquinho no meio do oceano, você vai acabar se perdendo e não indo para lado nenhum.

    Se você precisa estudar durante a quarentena, é importante avisar seu cérebro da hora de estudar. Para isso, você pode criar uma rotina que envolva se arrumar como se estivesse indo pra escola, definir um lugar para estudar e se sentar sempre lá, como se fosse o seu lugar na sala de aula, e se comportar nesse lugar como você se comportaria na escola (de preferência sem pegar o celular a cada 5 minutos).

    Estabeleça a hora de começar, a hora de fazer um intervalo e a hora de acabar. A criação de uma rotina como essa faz com que seu cérebro entenda e se prepare para esse momento. Isso não apenas vai dar a ele uma sensação de controle, como vai te ajudar a se organizar e separar um tempo do seu dia para fazer as coisas que são importantes para você.

    Isolamento físico vs. Isolamento social

    É importante ter em mente que o isolamento necessário para conter a pandemia é um isolamento físico, não social. E há uma diferença muito grande entre essas duas coisas!

    O nosso cérebro é cheio de neurônios, que são células que estão o tempo todo se comunicando umas com as outras. Um neurônio “fala” com outro que fala com outro que fala com outro, e é com esse bate-papo que as informações são processadas. Essa comunicação dos neurônios é estimulada por várias coisas, mas a principal delas é a estimulação social. Como estamos o tempo todo conversando uns com os outros, trocando ideias, emoções e experiências, os nossos neurônios ficam em constante contato para processar todas essas informações que estão recebendo.

    Quando nos isolamos socialmente, nós perdemos esses estímulos e os neurônios vão parando de se comunicar uns com os outros. Sem essas conexões entre os neurônios, todo o nosso processamento cognitivo fica pior. Imagine isso acontecendo com o cérebro do Neymar, por exemplo. Ele vai levar muito mais tempo para decidir o que fazer com a bola (e talvez nem consiga chegar facilmente a uma boa decisão).

    Por isso, precisamos manter o contato social constante, mesmo com o distanciamento físico, conversando com os amigos, rindo, brincando, e explorando novas ideias e emoções. Isso vai manter seu cérebro ativo e fazendo o que ele faz de melhor: processar informações, montar padrões, prever o que vai acontecer e, no caso do Neymar, ajudá-lo a fazer gols.


    André L. Souza
    Neurocientista e divulgador de ciências
    https://twitter.com/andrelesouza

    Lucas Miranda
    Físico e divulgador de ciências
    Colunista na Ciência Hoje e Editor do Ciência Nerd

    Agradecimento especial ao Vitor Hugo de Oliveira (https://www.instagram.com/myfairy_king/), que nos presenteou com sua ilustração do cérebro jogando bola, e à Ciência Hoje, pela publicação do texto e pela parceria de sempre!


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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp.
    Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Da fatalidade epidemiológica à ferramenta de extermínio: a gestão necropolítica da pandemia

    Texto escrito por Leonardo Oliveira*

    O crescente número de infectados e mortos pelo novo Coronavírus (Sars-Cov-2) ao redor do mundo tem gerado preocupação e exigido a tomada de atitudes inéditas entre governos e cidadãos para frear a pandemia. As medidas de distanciamento social e isolamento recomendadas pela Organização Mundial da Saúde, até então o meio mais eficaz de diminuir o ritmo de disseminação da doença e amenizar o iminente colapso dos sistemas de saúde, têm causado mudanças drásticas nos hábitos e comportamentos da população. O esforço dos agentes públicos e da mídia para efetivar o isolamento não tem surtido o efeito desejado (SÃO PAULO, 2020). Cultivando o desejo de retorno a uma normalidade cotidiana potencialmente mortal, ainda é possível verificar aglomerações e ruas com intensa circulação de pessoas, mesmo com a suspensão de todos os eventos e reuniões públicas e interrupção dos serviços não essenciais. Uma realidade alarmante diante da célere escalada da curva de infecções no Brasil.

    A campanha “#FicaEmCasa” tem buscado conscientizar a população sobre a importância de sair às ruas apenas para as atividades estritamente necessárias e o respeito ao isolamento como uma atitude cidadã. Entretanto, como irão aderir à campanha aqueles que não possuem uma casa?

    Somente em São Paulo, epicentro da epidemia no Brasil, são mais de 24 mil pessoas vivendo nas ruas em situação insalubre e vulnerável, segundo dados da própria prefeitura (SÃO PAULO, 2020). Como poderão evitar aglomerações pessoas que vivem em uma favela como Paraisópolis, que ostenta a maior densidade populacional do país? (EBC, 2016). Isso, claro, sem contar a carência de tratamento do esgoto e fornecimento de água, numa situação onde o vírus pode ser transmissível pelas fezes (TORMENTE, 2020) e a lavagem das mãos em água corrente é a forma mais eficaz de evitar o contágio. E o que dizer dos mais de 770 mil presos que compõem população prisional nas penitenciárias brasileiras superlotadas? (BRASIL, 2020). Um prato cheio para o vírus e uma bomba relógio para a sociedade. A situação de rua, a favelização e o encarceramento constituem ‘mundos de morte’ (MBEMBE, 2018), espaços de concentração de um determinadas parcelas populacionais sujeitas à uma situação de sobrevida, ao estatuto de mortos-vivos. Lugares submetidos ao império da necropolítica (MOREIRA, 2019). 

    Enquanto o vírus se alastra pelo território nacional, o atual mandatário da Presidência da República tem cultivado crises institucionais entre os poderes e dentro do próprio governo. Em entrevistas, ao comentar sobre a mortandade causada pela pandemia, Bolsonaro declarou: “Alguns vão morrer? Vão morrer. Lamento, é a vida”; “Brasileiro precisa ser estudado, pula no esgoto e nada acontece” e “E daí? Lamento. Quer que eu faça o que? Sou Messias mas não faço milagre”. Estas e tantas outras falas de flagrante descaso com a saúde e com a vida da da população se alinham sob a ordem necropolítica.

    O termo necropolítica, cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe (2018), visa elucidar como a regimentalização do poder de matar nas sociedades modernas funciona como uma política de controle social. A distribuição desigual das oportunidade de vida e de morte que são base do modelo capitalista de produção impõe uma hierarquia em que uns valem mais que outros e aqueles que não têm valor são simplesmente descartados. Trata-se de uma radicalização e reinterpretação da biopolítica de Foucault, em que a administração da vida divide espaço com a dministração da morte (ESTÉVEZ, 2018).

    Segundo Valencia (2010) quando a morte, mais do que a vida, se encontra no centro da biopolítica ela se converte em necropolítica. Através de estratégias de exploração e destruição de corpos como a execução, o feminicídio, a escravidão, o sequestro, o tráfico de pessoas, o encarceramento; práticas legitimadas por dispositivos jurídico-administrativos, são ordenados e sistematizados os efeitos, as causas e as justificativas das políticas de morte. O poder atua para a manutenção do sujeito vivo, mas em estado de marginalização aguda, injúria e intensa crueldade, implementando uma forma de morte em vida até que se alcance a morte de fato.

    Mbembe parte do pressuposto de que a expressão máxima do poder soberano consiste em deixar viver, matar ou expor à morte. A partir do momento em que a soberania escolhe quem vive e quem morre, o próprio viver se torna uma manifestação do poder soberano (MBEMBE, 2003).

    E no Brasil?

    No Brasil a necropolítica não é algo inusitado, nem recém inaugurado. Na verdade não existe história do Brasil apartada das políticas de morte. Estamos falando do país com a polícia que mais mata e mais morre no mundo (CÂMARA, 2019). Estamos falando do país que lidera o ranking mundial de homicídios em números absolutos (UNODC, 2019). Estamos falando do país que registra o maior número de linchamentos no mundo (MARTINS, 2015). Estamos falando do país que mais mata LGBTs no mundo (GGB, 2018). Estamos falando de um país em que a legislação contra a violência doméstica, uma conquista histórica, faz diminuir os casos de morte entre mulheres brancas e disparar os casos de feminicídios das mulheres negras (IPEA, 2018). Este cenário não surgiu de forma mágica ou repentina.

    Estamos falando de uma nação inaugurada pelo genocídio dos povos originários, sustentada por séculos à base da mão de obra escravizada. Um território colonizado e arquitetado por um patriarcado conservador latifundiário e aristocrata (SADER, 2011). Não houve, nem haverá no curto prazo, um dia em que, neste país, não esteja em curso um plano de genocídio, extermínio, marginalização, encarceramento, subjugação de algum ou de vários segmentos da sociedade. Sejam índios, negros, mulheres, travestis ou comunistas. O discurso do inimigo interno é parte estruturante da necropolítica de “segurança” nacional (MENDONÇA, 2015). 

    Quando, em um país com estas características, chegam ao poder políticos que em meio a manifestações, negam a ciência e a importância dos setores públicos na promoção da equidade social, a partir de dados técnicos, científicos e sociais, torna-se notória a iminência da catástrofe. Um exemplo do caráter funesto que revestiu a política nacional, coadunando com vários setores e grupos sociais, pode ser observado na popularidade do fetiche punitivista: bandido bom é bandido morto (PRADO, 2020).

    Ao traçar como objetivo político a aniquilação daqueles classificados como inimigos, a imposição da soberania se dá pelo exercício do poder de matar, como ocorre em um contexto de guerra.  Está em andamento uma investida deliberada de necroempoderamento visando a institucionalização da necropolítica como estratégia de poder consolidada no senso comum. Trata-se de um esforço de deformação da moralidade para a difusão, naturalização, aperfeiçoamento e perpetuação da necrofilia como pressuposto de um projeto nacional.

    No escopo deste projeto, o Estado não monopoliza a soberania, mas disputa o poder com entidades privadas necroempoderadas, como as milícias e as facções que funcionam como um estado paralelo, controlando a população, o território, a segurança e a política; se apropriando criminalmente dos elementos fundamentais da governamentalidade, administrando a vida e a morte para exploração de recursos e obtenção de lucro nas lacunas e nos limites do poder Estatal (VALENCIA, 2010; ESTÉVEZ, 2018).

    A Necropolítica e a COVID-19: algumas considerações

    Embora os aspectos sanitários e econômicos tenham tomado a centralidade na pauta da pandemia, outras questões de cunho político, social e cultural estão imbricadas nesta crise sem precedentes. Certamente sequelas e traumas próprios da nossa realidade nacional irão impor singularidades sobre a manifestação da Covid-19. Considerando a capacidade de atendimento hospitalar do país, o pico agudo de infectados e o colapso dos sistemas de saúde, questionamos: quem morrerá com falta de ar e quem continuará respirando? Quantos milhares de pessoas irão morrer? Quem serão estes mortos, suas classes, cores, idades e identidades? Como estes corpos adoecidos estão sendo inscritos na ordem do poder?

    Quando governantes explicitam que não é preocupação política central garantir que cada cidadão tenha condições de continuar respirando, estão assumindo a responsabilidade de escolher quem vai ter a chance de lutar pela vida entubado num leito de UTI e quem vai ser lançado à própria sorte até o último suspiro. Esta gestão da morte deixa cristalino o funcionamento da necropolítica, pois nem todos são afetados da mesma forma.

    Se o último grau de expressão do poder político soberano consiste em determinar quem pode viver e quem deve morrer, porquê e como, no Brasil desde sua fundação, à luz de sua história, fica nítido quem são os corpos selecionados para viver e quem são os corpos selecionados para sobreviver antes de morrer. Esta noção continua válida e certamente será acentuada nesta situação de crise, convertendo o que seria tão somente uma fatalidade epidemiológica em uma ferramenta de extermínio. 

    Se até então a escolha sobre quem vive ou quem morre era exclusividade do poder soberano, a pandemia transformou este cenário. Segundo Mbembe, a Covid-19 democratizou o poder de matar (BERCITO, 2020). Qualquer pessoa que tenha contraído o vírus, potencialmente mortal, tem condições de transmiti-lo inconsciente ou deliberadamente. Todos temos, neste contexto, o poder de matar. O isolamento e distanciamento social seriam, portanto, uma forma de regular este poder. Analisando através deste prisma, as manifestações Brasil afora que reivindicam o fim do isolamento pretendem justamente a revogação da regulação deste poder de matar.

    Enquanto é amplamente reconhecia a possibilidade de diminuição da letalidade da doença através do isolamento e do distanciamento, estes grupos reacionários querem justamente o oposto: usufruir do direito de usar o próprio corpo como arma biológica, fazem questão de assumir o papel de vetores genocidas. Agentes voluntários da perversa administração necropolítica da pandemia.

    Ainda não é possível estimar a dimensão dos impactos que esta pandemia irá causar no mundo moderno capitalista globalizado e financeirizado. Mas é certo que este lúgubre evento abre uma janela de possibilidades para a introdução de pautas que contribuam para a redução da desigualdade, proteção e seguridade social. A emergência de uma doença que afeta mais severamente os pobres e os idosos evidencia que o envelhecimento e a pauperização da população não se resolvem com reforma da previdência, mas com fortalecimento dos sistemas públicos de saúde, assistência e seguridade.

    Mais do que nunca o SUS demonstra sua importância e reivindica a urgência de financiamento massivo. O subfinanciamento e sucateamento para o desmonte da saúde pública que estava a todo vapor encontra um enorme obstáculo e o fortalecimento do SUS deve assumir a centralidade na pauta progressista e no senso comum.

    Além disso, ideias como a renda básica universal, a taxação de grandes fortunas, auditoria cidadã ou moratória da dívida pública, reforma tributária progressiva, que anteriormente eram tidas como pautas da esquerda, passam a ser consideradas medidas necessárias até por setores liberais. Dinheiro não é problema para a oitava economia mundial, mas as prioridades precisam ser revistas. Nunca foi razoável e agora é ainda mais absurdo escoar uma fatia gigantesca do orçamento da união na amortização de uma dívida nada transparente enquanto o povo perece.

    Certamente iremos resistir e superar este doloroso teste de resiliência. Até lá nos resta cultivar a biofilia (FROMM, 1996): nos cuidar, cuidar de quem a gente ama e nos fortalecermos enquanto sociedade, para que a normalidade inaugurada pós pandemia seja melhor que normalidade por ela encerrada.

    Para saber mais

    BRASIL. Governo do. Dados sobre população carcerária do Brasil são atualizados. Segurança, 2020. Disponível em: <https://www.gov.br/pt-br/noticias/justica-e-seguranca/2020/02/dados-sobre-populacao-carceraria-do-brasil-sao-atualizados>

    BERCITO, Diogo. Pandemia democratizou o poder de matar, diz autor da teoria da ‘necropolítica’. Folha de São Paulo, 2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/pandemia-democratizou-poder-de-matar-diz-autor-da-teoria-da-necropolitica.shtml>

    CÂMARA, Olga. Polícia brasileira: a que mais mata e a que mais morre. Jus, 2019.

    EBC, Agência Brasil. IBGE divulga Grade Estatística e Atlas Digital do Brasil. Economia, 2016. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-03/ibge-divulga-grade-estatistica-e-atlas-digital-do-brasil>

    ESTÉVEZ, Ariadna. Biopolítica y necropolítica:¿ constitutivos u opuestos?. Espiral (Guadalajara), v. 25, n. 73, p. 9-43, 2018.

    FROMM, Erich. Ética e psicanálise. Minotauro, 1996.

    GGB. Grupo Gay da Bahia. Mortes violentas de LGBT+ no Brasil: Relatório 2018. Bahia, 2018. Disponível em: <https://grupogaydabahia.files.wordpress.com/2019/01/relatório-de-crimes-contra-lgbt-brasil-2018-grupo-gay-da-bahia.pdf>

    IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da Violência 2018. Disponível em: <www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/relatorio_institucional/180604_atlas_da_violencia_2018.pdf>

    MARTINS, José de Souza. Linchamentos: a justiça popular no Brasil. Editora Contexto, 2015.

    MBEMBE, Achille. Necropolítica.. 3. ed., São Paulo, 2018.

    MBEMBE, Achille; MEINTJES, Libby. Necropolitics. Public culture, v. 15, n. 1, p. 11-40, 2003.

    MENDONÇA, Thaiane. Política de segurança nacional e a construção do conceito de “inimigo interno” no Brasil. UFRGS, Porto Alegre, 2015. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/sicp/wp-content/uploads/2015/09/Thailane-Mendonça_Política-de-segurança-e-a-construção-do-conceito-de-inimigo-interno-no-Brasil-Thaiane-Mendonça.pdf>

    MOREIRA, Rômulo Andrade. A Necropolítica e o Brasil de ontem e de hoje. Justificando, 2019. Disponível em: <https://www.justificando.com/2019/01/08/a-necropolitica-e-o-brasil-de-ontem-e-de-hoje/>

    PRADO, Monique Rodrigues do. O fetiche punitivista: bandido bom é bandido morto? Âmbito Jurídico, 2020. Disponível em: <https://ambitojuridico.com.br/noticias/o-fetiche-punitivista-bandido-bom-e-bandido-morto/>

    SADER, Emir. O Maior massacre da história da humanidade. Disponível em: <https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/emir-sader-o-maior-massacre-da-historia-da-humanidade.html>

    SÃO PAULO, Governo do Estado de. Isolamento social em SP é de 49%, aponta Sistema de Monitoramento Inteligente. Portal do Governo, 2020. Disponível em <https://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/isolamento-social-em-sp-e-de-49-aponta-sistema-de-monitoramento-inteligente/>

    SÃO PAULO, Prefeitura de. Prefeitura de São Paulo divulga Censo da População em Situação de Rua 2019. Secretaria Especial de Comunicação, 2020. Disponível em: <http://www.capital.sp.gov.br/noticia/prefeitura-de-sao-paulo-divulga-censo-da-populacao-em-situacao-de-rua-2019>

    TORMENTE, Fabiana Vieira. O vírus da Covid-19 pode ser transmitido através das fezes? Microbiologando. UFRGS, 2020. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/microbiologando/o-virus-da-covid-19-pode-ser-transmitido-atraves-das-fezes/>

    UNODC. Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Estudo Global sobre Homicídios, 2019. disponível em: <https://dataunodc.un.org/GSH_app>VALENCIA, Sayak. Capitalismo Gore. 2010.

    Sobre o autor

    Leonardo Oliveira é Biólogo, professor de Biologia e mestrando em Ensino de Ciências e Matemática (UNICAMP).


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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


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