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  • “Programa Nutrir Campinas: impactos em época de pandemia do COVID-19”

    Texto produzido por Ana Clara Duran e pesquisadoras do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Alimentação da Unicamp (NEPA/UNICAMP)

    Em abril de 2020 foi confirmado que a pandemia do COVID-19 havia atingido todos os estados do Brasil (1). Porém, em um cenário em que as principais medidas de prevenção são o isolamento social e medidas de higiene, as populações mais vulneráveis são as mais afetadas, incluindo uma maior dificuldade de aquisição de alimentos (2).

    Essas populações com dificuldades econômicas e sociais são as que apresentam maiores índices de Insegurança Alimentar e Nutricional (IAN), ou seja, apresentam maiores dificuldades de acesso a alimentos de qualidade de forma adequada (3), o que aumenta o seu risco de desenvolver ou agravar doenças como obesidade, diabetes, hipertensão, depressão e doenças mentais (4). Ademais, evidências recentes demonstram um maior risco de complicações quando o paciente diagnosticado com COVID-19 apresenta obesidade ou diabetes. 

    O Programa Nutrir Campinas

    Em Campinas, um terço dos domicílios apresentavam IAN previamente a pandemia do COVID-19, o que pode ser ainda mais intensificado durante essa época de crise, exigindo medidas emergenciais (5). Assim, a Prefeitura de Campinas, através da Lei no 15.892 de 30 de março de 2020, declarou a expansão do Programa Nutrir Campinas para até 26 mil famílias(6). O Nutrir Campinas é um Programa Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) implementado em 2016 para auxiliar famílias em vulnerabilidade no município. Estas famílias recebem um cartão alimentação que pode ser utilizado em estabelecimentos de vendas de alimentos credenciados no valor mensal de R$94,00 (7, 8).

    O Programa, que substituiu a entrega de cestas básicas – ação conhecida por ser menos eficiente e custo-efetiva do que transferência diretas de renda –  ainda apoia o comércio local, já atendia até início de 2020 cerca de seis mil famílias, o que equivale a mais de 30 mil pessoas em situação de pobreza (7). Os novos cartões, distribuídos a partir de abril, podem ser utilizados por até 90 dias na compra de, além de gêneros alimentícios, produtos de higiene pessoal e limpeza, essenciais para a diminuição da disseminação do vírus (8). A extensão deste programa emergencial em mais três meses está atualmente em fase de discussão.

    O Núcleo de Estudos e Pesquisa em Alimentação da Unicamp

    Considerando que a identificação de populações mais vulneráveis em tempos de crises devem ser prioridade nos esforços para reduzir a fragilidade e o tempo de recuperação após a crise (9), o monitoramento de estratégias como o Programa Nutrir Campinas é essencial. Assim, pesquisadores, alunos de graduação e pós-graduação do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (NEPA) da UNICAMP desenvolveram um projeto de pesquisa e extensão para avaliar os comportamentos de compra de alimentos com o cartão-alimentação do Programa Nutrir Campinas entre os beneficiários convencionais e emergenciais, além de avaliar, em uma sub-amostra de beneficiários, a situação de IAN durante e após a pandemia do COVID-19.

    O desenvolvimento do projeto

    O projeto de extensão e pesquisa está sendo realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos de Campinas e utilizará informações socioeconômicas e de participação dos beneficiários fornecidas pela Secretaria e também dados dos estabelecimentos onde as compras de alimentos são realizadas, fornecidos pela empresa que gerencia os cartões-alimentação. 

    Assim, verificaremos os locais de compra dos beneficiários previamente cadastrados no Programa e analisaremos a distância que os beneficiários percorrem para comprar alimentos. Após essa etapa, compararemos os comportamentos de compra (valor de compra, tipo e distância percorrida até os estabelecimentos) antes, durante e após a pandemia. Essa mesma avaliação será realizada entre os beneficiários emergenciais que serão comparados aos beneficiários do Programa Nutrir Campinas que já recebiam o benefício antes da pandemia da COVID-19. Ademais, em uma subamostra de participantes, avaliaremos por meio telefônico o estado de segurança alimentar e nutricional durante o período de isolamento social e seis meses após sua finalização no Município de Campinas. Estes beneficiários também receberão informações acerca de como melhor utilizar seus benefícios de acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira (10). 

    Os resultados serão discutidos com a Secretaria Municipal de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos. A parceria entre o NEPA/Unicamp e a Prefeitura de Campinas tem o potencial de contribuir para o aprimoramento do Programa Nutrir Campinas, auxiliando no manejo do programa e na tomada de decisões futuras acerca de proteção social dessa população.

    Força Tarefa Unicamp: a pesquisa em tempos de pandemia

    [Nota do Editorial] Este é o primeiro texto produzido por uma das pesquisas já em andamento da Força Tarefa da Unicamp – que além dos trabalhos de diagnóstico tem produzido pesquisa em várias áreas de conhecimento. Em breve traremos mais textos e debates sobre a ciência em tempos de pandemia, realizados pela Força Tarefa da Unicamp.

    Para saber mais

    1. El País (2020) Evolução dos casos de coronavírus no Brasil.

    2. Lima J (2020) Por que as periferias são mais vulneráveis ao coronavírus, Nexo Jornal.

    3. Bezerra TA, Olinda RAd, Pedraza DF (2017) Insegurança alimentar no Brasil segundo diferentes cenários sociodemográficos, Ciência & Saúde Coletiva, 22:637-51.

    4. Gundersen C, Ziliak JP (2018) Food Insecurity Research in the United States: Where We Have Been and Where We Need to Go, Applied Economic Perspectives and Policy;40(1):119-35.

    5. Souza BFdNJd, Marin-Leon L, Camargo DFM, Segall-CorrÊA AM (2016) Demographic and socioeconomic conditions associated with food insecurity in households in Campinas, SP, Brazil, Revista de Nutrição, 29:845-57.

    6. Campinas (2020) Lei nº 15.892 de 30 de março, altera a Lei nº 15.017, de 26 de maio de 2015, que “institui o Programa Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional `NUTRIRCAMPINAS`, estabelece critérios de inclusão, interrupção e exclusão, e dá outras providências”.

    7. Campinas (2019) Prefeitura de Campinas. Programa Nutrir Campinas entrega mais 900 cartões em Dezembro 2019.

    8. Campinas (2020) Prefeitura de Campinas. Prefeitura disponibiliza cartões Nutrir emergenciais a partir do dia 17.

    9. Dixon N (2019) Identification and inclusion of vulnerable populations during emergency planning: A real-world application.

    10. Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica (2014) Guia Alimentar para a População Brasileira 2ª edição.

    Outros Textos do blogs

    Alguns questionamentos sobre governo, um vírus e a fome

    As Autoras

    Ana Clara da Fonseca Leitão Duran é pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (NEPA) da UNICAMP e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva na área de concentração de Epidemiologia da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP. Também é pesquisadora associada do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (NUPENS/USP).

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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Casos assintomáticos e a transmissão da COVID-19

    Os casos assintomáticos são um grande problema quando falamos em combater a pandemia do novo coronavírus, que já infectou quase 10 milhões e matou quase 500 mil pessoas. Aquelas pessoas que têm sido chamadas de “assintomáticas” são um complicador a mais, pois elas são as transmissoras silenciosas do vírus. Mesmo sem qualquer sintoma, ainda são capazes de transmiti-lo, apesar de haver uma grande dúvida ainda se todos os casos assintomáticos são capazes de fazer isso. 

    Um paciente assintomático é aquele que tem resultado positivo em testes de RT-qPCR para o SARS-CoV-2, mas sem demonstrar qualquer sintoma ou anormalidade em exames de imagens. Ou seja, uma pessoa que foi infectada pelo vírus, mas não ficou doente (não teve sintoma algum). Na maioria das vezes, por causa da falta de sintomas e pouca consciência de como se prevenir, essas pessoas não procuram ajuda médica e acabam sem nem saber que estão infectados, contribuindo assim para a rápida disseminação do vírus dentro da população.

    Mas assintomáticos realmente transmitem a doença?

    Recentemente, uma pesquisa de um grupo de pesquisadores chineses, publicada na revista Nature Medicine estudou a fundo uma série de características sobre 37 casos assintomáticos. Nesta pesquisa, foram avaliados diferentes fatores como: características demográficas, exames laboratoriais e radiológicos, propagação do vírus e quantidades de anticorpos específicos contra o vírus. 

    Os cientistas viram que o tempo médio que pacientes assintomáticos podem disseminar o vírus é de 19 dias, enquanto pacientes com a forma leve da doença tem esse período reduzido para 14 dias. Mas calma… O estudo deixa claro que ser capaz de disseminar o vírus não quer dizer que ele pode infectar eficientemente outra pessoa. Então, o que significa este resultado? Primeiramente, que é preciso mais estudos para compreender a capacidade de infecção do vírus nestas condições, pois simples detecção do material genético do vírus não quer dizer que ele está realmente presente no trato respiratório do organismo. 

    E os anticorpos?

    Além disso, uma outra conclusão da pesquisa foi em relação à quantidade de anticorpos IgG e IgM de pacientes com sintomas leves e pacientes assintomáticos. Recapitulando rapidamente o que explicamos no texto de anticorpos, em um primeiro contato com um patógeno, nós produzimos somente IgM. Já em um segundo contato OU um primeiro contato mais demorado e prolongado (como é o caso da infecção pelo SARS-CoV-2), nós passamos a produzir mais IgG do que IgM, pois esse anticorpo IgG é muito mais eficiente no combate ao vírus. 

    Focando agora nos resultados dessa pesquisa, os autores viram que durante a fase aguda da infecção (aquela em que podemos sentir os sintomas e contaminar outras pessoas), os pacientes sintomáticos possuem mais IgG do que pacientes assintomáticos. Já na fase convalescente (aquela que ocorre após o fim da infecção e que você não pode mais infectar alguém), os níveis de anticorpos e principalmente de IgG diminuem mais nos pacientes assintomáticos do que em pacientes com sintomas leves. Mas o que todos esses termos complicados significam afinal?

    Em outras palavras, tudo isso significa que a duração da imunidade contra o SARS-CoV-2 pode ser menor do que para outros coronavírus (algo que já foi abordado no texto sobre Cenários Pós-Pandemia). Exemplificando um pouco melhor: a imunidade contra outros coronavírus como o SARS-CoV-1 (causador do surto na China em 2002) e o MERS-CoV (causador do surto no Oriente Médio em 2012) dura por aproximadamente 1 ano1, 2, com alguns artigos dizendo que níveis de IgG se mantém por até dois anos para a SARS 3, 4, enquanto para a MERS a resposta por anticorpos pode durar até 34 meses 5. Contudo, como visto no artigo, os níveis de anticorpos neutralizantes para o SARS-CoV-2 já começam a baixar entre 2 e 3 meses após o fim da infecção, uma ideia que também está sendo proposta por vários outros estudos 6, 7.

    Nossa, o que isso pode significar para nós? Quer dizer que eu posso pegar COVID-19 de novo? 

    Calma! Não é bem assim. Como foi dito no texto sobre anticorpos, após uma infecção nós criamos células de memória que, entre outras coisas, passam a produzir anticorpos continuamente e que ajudam a combater de forma mais rápida e eficiente uma próxima infecção. Então a princípio, se você possui anticorpos contra o SARS-CoV-2 e se contaminar novamente, até onde sabemos atualmente, você não terá mais do que os sintomas leves da COVID-19.

    Contudo, não conhecemos ainda a duração dessa imunidade, assim não sabemos se essa doença funciona como a gripe comum (que todo ano nos infectamos ou tomamos a vacina) ou alguma outra doença que uma vez que nos infectamos não pegamos mais (como a catapora). E é justamente por causa dessas dúvidas, quanto a duração da imunidade contra o SARS-CoV-2, que precisamos considerar melhor sobre os “passaportes de imunidade” da COVID-19 8, 9. Para os que não conhecem o termo, seria uma espécie de documento afirmando se você está infectado ou não, ou se já se infectou e está recuperado. Alguns países como a China já estão usando esse tipo de estratégia para a flexibilização da quarentena. 

    Por causa de todas essas dúvidas, caso a duração da imunidade do SARS-CoV-2 seja realmente de curta duração, o uso dos passaportes de imunidade pode ser arriscado e acarretar em novas ondas de infecção. Dessa forma, será necessário pensar em outras estratégias de saúde pública como novas intervenções, novos períodos de isolamento social, higiene, isolamento de grupos de risco e testes em larga escala. 

    Mas, novamente, para respondermos essas dúvidas precisamos de mais pesquisas e testes, para realmente saber a duração da imunidade contra o vírus e a eficácia dos anticorpos gerados em casos assintomáticos e leves. Enquanto isso, o isolamento social (mesmo nos casos de pessoas já infectadas e recuperadas) continua sendo estritamente necessário! Não só nos protegemos como também protegemos todas as pessoas que estão em volta. 

    Para saber mais

    Artigo Original: Long, Q. X., Tang, X. J., Shi, Q. L., Li, Q., Deng, H. J., Yuan, J., … & Su, K. (2020). Clinical and immunological assessment of asymptomatic SARS-CoV-2 infections. Nature Medicine, 1-5.

    1. Cao, W. C., Liu, W., Zhang, P. H., Zhang, F. & Richardus, J. H. Disappearance of antibodies to SARS-associated coronavirus after recovery. N. Engl. J. Med. 357, 1162–1163 (2007).
    1. Choe, P. G. et al. MERS-CoV antibody responses 1 year after symptom onset, South Korea, 2015. Emerg. Infect. Dis. 23, 1079–1084 (2017).
    1. Guo, X., et al. Long-term persistence of IgG antibodies in SARS-CoV infected healthcare workers. Preprint at https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.02.12.20021386v1 (2020).
    1. Wu, L. P. et al. Duration of antibody responses after severe acute respiratory syndrome. Emerg. Infect. Dis. 13, 1562–1564 (2007).
    1. Payne, D. C. et al. Persistence of antibodies against middle east respiratory syndrome coronavirus. Emerg. Infect. Dis. 22, 1824–1826 (2016).
    1. Wang, X., et al. Neutralizing antibodies responses to SARS-CoV-2 in COVID-19 inpatients and convalescent patients. Preprint at https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.15.20065623v3 (2020).
    1. Kissler, S. M., Tedijanto, C., Goldstein, E., Grad, Y. H. & Lipsitch, M. Projecting the transmission dynamics of SARS-CoV-2 through the postpandemic period. Science 368, 860–868 (2020).
    1. Entrevista: o passaporte da imunidade do coronavírus é uma ideia perigosa. Acessado em: 25/06/2020. Disponível em: https://saude.abril.com.br/medicina/passaporte-da-imunidade-do-coronavirus-ideia-perigosa/
    1. Faz sentido pensar em um passaporte de imunidade para Covid-19? Acessado em: 25/06/2020. Disponível em: https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/faz-sentido-pensar-em-um-passaporte-de-imunidade-para-covid-19/

    Outras Leituras:

    Gao, Z., Xu, Y., Sun, C., Wang, X., Guo, Y., Qiu, S., & Ma, K. (2020). A systematic review of asymptomatic infections with COVID-19. Journal of Microbiology, Immunology and Infection.

    Este post foi escrito com exclusividade para o Especial Covid-19

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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Como a Economia Social e Solidária pode ser a solução para esses novos tempos pós pandemia!

    Com mais de 8 milhões de casos confirmados de Covid-19 no planeta [1], passar por essa pandemia acelerou discussões que não giram em torno apenas da saúde e a busca pela cura do vírus, mas promoveu também discussões que, até então, circulavam apenas em bolhas sociais [2]

    A pandemia deixou claro os problemas da falta de investimento nos sistemas de saúde e ciência, além da avalanche de informações duvidosas recebidas diariamente (a chamada infodemia).

    A pandemia também evidenciou as deficiências sociais e econômicas vigente que insiste em seguir o raciocínio da Revolução Industrial (1760 – 1840) – com suas devidas atualizações – mas, mantendo seu principal compromisso com o maior lucro em decorrência da menor despesa possível. 

    Vimos explodir nas mídias sociais e na imprensa demonstrações, protestos e cobranças de uma situação que não era igual para todos, principalmente, advindas  dessa nova geração [3] que veio a público mostrar como a Covid-19 e seus efeitos foram sentidos de forma muito diferente (e a custo de vidas) nas minorias, como: mulheres, povos indígenas, pessoas com deficiência, comunidades marginalizadas, jovens e pessoas com contratos de trabalho precários ou da economia informal, por exemplo.

    E ao identificar essas problemáticas evidenciadas pela pandemia, às Nações Unidas [4] montou uma Força-Tarefa Interinstitucional sobre Economia Social e Solidária (TFSSE) promovendo assim a discussão e a garantia da coordenação dos esforços internacionais, aumentando sua visibilidade (da Economia Social e Solidária – SSE) como solução na recuperação pós-crise do COVID-19.

    “A pandemia expôs muitas fragilidades em nossas economias e aprofundou as desigualdades existentes, destacando a necessidade de resiliência, inovação e cooperação. Os problemas pré-crise, incluindo a quantidade e qualidade insuficientes de emprego, as crescentes desigualdades, o aquecimento global e a migração, a insustentabilidade do atual sistema industrial de alimentos, vão piorar significativamente como conseqüência das medidas tomadas para combater a emergência sanitária”.

    Documento emitido pela TFSSE em 11/06/2020.

    Nós tivemos o privilégio de conversar com o Leandro Pereira Morais que é economista, Representante do Brasil no OIBESCOOP, Consultor Sênior da OIT, Membro Suplente da Força Tarefa das Nações Unidas sobre Economia Social e Solidária (E mais um tantão de coisas [5]) sobre como essa iniciativa funciona e como podemos contribuir para que o futuro pós – COVID-19 ofereça condições melhores a nossa sociedade.

    Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [6]

    Como a Força Tarefa das Nações Unidas sobre Economia Social e Solidária contribui para a recuperação pós-crise do COVID-19?

    R: Esse trabalho ganhou muitas conexões com outras agências das Nações Unidas e foi se transversalizando os temas relacionados a Economia Social e Solidária com outras áreas como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), nos assuntos relacionados a segurança alimentar, orgânicos, na geração de trabalho e renda para famílias vulneráveis, promovendo, por exemplo, o acesso a alimentação mínima diária, repercutindo, inclusive em melhores condições de saúde.

    Essa transversalização se formou no que chamamos de Força Tarefa das Nações Unidas sobre Economia Social e Solidária.

    É importante dizer, que essas discussões já eram desenvolvidas antes da pandemia, como: os objetivos do desenvolvimento sustentável – a agenda 20/30 e às ODS.

    A economia social e solidária é uma ferramenta importante para a formação e implementação das ODS e sua relação com seu ambiente/território onde essas ações são desenvolvidas. Do ponto de vista da conexão do econômico (gerar renda e trabalho), com o social (emancipação de vulneráveis, governança democrática participativa  nas políticas públicas) e com o ambiental (com práticas sustentáveis, agricultura familiar). Essa, então, se transforma na tríade do desenvolvimento econômico, sócio-político e ambiental.

    Assim, a partir desse momento de pandemia, voltamos os trabalhos e a articulação governamental internacional para a questão de enfrentamento da pandemia e suas consequências econômicas, sociais e ambientais.

    Muitas das experiências da economia solidária podem ser utilizadas para situações emergenciais, como a disponibilização de alimento, associações de costureiras para a confecção de máscaras, por exemplo. Assim, como às de médio e longo prazo, propondo revisões e reflexões do atual modelo de desenvolvimento que vivemos. Esse modelo bastante potente do ponto de vista material e da produção, de padrões tecnológicos avançados, a chamada 4ª revolução, mas que cobra um preço alto das relações de trabalho, de espaço, produção, de consumo, sociais e ambientais.

    Portanto, todo um mundo de discussões que já perfilava antes da pandemia e que agora intensifica essas tendências e exige soluções, coloca urgência na discussão.

    E como esse padrão econômico citado reflete na sociedade nesse momento de pandemia?

    R: Pois é, como estávamos conversando esse padrão econômico, produtivo e altamente potente do ponto de vista material e de produção, que nos permite conforto, enfrentamento de momentos adversos e de acesso, por exemplo, relógios que medem sua saúde, controle de temperatura do ambiente, viagens através do continente, comunicação em tempo real e com pessoas do outro lado do mundo, enfim… não podemos negar que é fantástica essas evoluções. Por outro lado, os frutos dessa produção material não são para todos. Nem todos são convidados nesta festa!

    Ainda há pouca facilidade de acesso a essas produções materiais e inovações tecnológicas, é para quem pode pagar.

    Essa facilidade é elitista e exclusiva! Ao mesmo tempo, percebemos nesse cenário de produção material e tecnológica o aumento na concentração de renda, exclusão, desigualdade e miséria.

    A pandemia veio para desnudar de forma intensa essa realidade e não é um problema do Brasil mas no mundo todo. O sistema atual é incoerente, nós temos uma produção mundial de alimentos de 10 bilhões e um planeta com 7 bilhões, como mais de 1 bilhão e meio de pessoas passa fome diariamente? 

    Então, do ponto de vista de médio e longo prazo, talvez essa pandemia nos dê a oportunidade de rever esse padrão econômico vigente, do lucro pelo lucro. E esse não é papo de esquerda ou direita mas de reflexão e discussão para aqueles que têm o mínimo de sensatez.

    Mas, isso seria uma mudança profunda, não só de padrões mas de consciência, certo?

    Sim, essa é uma mudança estrutural, de conceitos, de sentimentos. Não é simples, mas é preciso que às pessoas pensem sobre e essa discussão tem várias facetas, das relações de consumo, trabalho, etc.

    Nas relações de consumo, já vemos mudanças. As pessoas estão repensando e tomando atitudes de mudança.

    Primeiro que vivemos em um momento que as pessoas não tem como sair de casa frequentemente, devido a possibilidade de contaminação da Covid-19 e a incerteza de ter condições financeiras e de emprego, que já era um problema antes da pandemia. 

    Hoje às pessoas repensam sua necessidade de consumo. E isso gera um olhar crítico para a compra.

    A economia, na verdade, foi se distanciando da realidade da sociedade e isso aparece nesse momento de adversidade que estamos passando. Esse diálogo que tem aparecido sobre termos que escolher entre a vida e o trabalho não é justa, é uma equação obscena, é uma guerra de narrativas e isso é muito sério!

    A base originária da estrutura da ciência econômica precisa ser revista!

    Essa ciência é organizada pelos nexos de mercado, é essa ideia do “homem econômico”, ou seja, uma caricatura tosca que se move por ideais maximizantes, portanto, o produtor maximiza o lucro, em decorrência do prejuízo ao meio ambiente, precarização o trabalho e até a aceitação do trabalho escravo.

    Já pelo ponto de vista do consumidor é a maximização do conforto, bem estar, ou seja, quando sua renda, que é limitada, maximiza o seu consumo em demandas ilimitadas. 

    Dessa forma, a economia vem se afastando da realidade e essa pandemia só desnudou essa questão. Se por um lado, se tem pessoas que podem pagar pelo acesso a saúde, alimentação e ficar em casa, por outro, temos pessoas que não tem acesso a água, o que dirá álcool em gel e no meio pessoas que lutam pendendo de um lado e do outro. 

    Então, já vivíamos uma crise estruturante e o “corona” pega carona nessa crise e foi sendo escancarado pelas minorias nas mídias sociais ao mostrar o empregado que pegou o vírus da patrão e morreu e a patrão que teve acesso a condições de saúde e alimentação digna e sobreviveu.

    E quais são os direcionamentos práticos que a economia social e solidária recomenda para que essa ideia de produção e consumo maximizante mude? 

    É importante deixar bem claro que é um processo, não é uma receita de bolo ou mágica! Mas ações individuais, apesar de serem de menor alcance, já ajudam muito a promover mudanças:

    1- Fazer a comunicação e sugestões de assunto na imprensa, sites de comunicação, compartilhar conteúdo em suas redes sociais, por exemplo, sempre de forma não agressiva mas que sensibilize e informe às pessoas sobre a economia solidária, seus princípios e discussões. 

    2- Discutir e pensar sobre o assunto – como nós fazemos aqui no curso de Economia na Unesp, colocando em discussão os conceitos da economia solidária e pensar em um mundo diferente desses padrões que estamos vivendo, como mudanças na relação do trabalho, o não haver emprego para todos e seus efeitos.

    3- Participar, financiar e divulgar ações coletivas (trabalho, social e ambiental) – Dar visibilidade para grupos de minorias e suas reivindicações, dar preferência para atividades de pequenos comerciantes, empresários, artesãos, trabalhadores informais. Não consumir produtos que vem de empresas que degradam o meio ambiente ou funcionam em situações degradantes de trabalho.

    4- Escolher governante e exigir deles após às eleições que implementem políticas públicas para que o pequeno negócio tenha melhores chances de sobrevivência, acessos a créditos e impostos justos, a relação que vivemos hoje é completamente desigual para aquele que concorre com grandes indústrias. No Brasil, a micro e pequena empresa gera 80% da capacidade de renda do país, isso sem condições mínimas, é preciso que haja políticas mais favoráveis.

    Entende-se que o Consumo Consciente não é só um ato econômico mas político também, quando eu consumo de uma marca que sabidamente precariza o trabalho, não paga impostos ou degrada o meio ambiente, eu estou sendo conivente com o processo. Claro que o consumo dos pequenos ainda é mais caro, produtos orgânicos, por exemplo, mas ao investir comprando desse pequeno produtor geramos impactos macro na sociedade.

    A ideia que vimos aumentando durante a pandemia como “compre do pequeno” ou “compre no seu bairro” sempre foi uma bandeira da economia social e solidária. E essa é uma consciência que começou aumentar não só com as pessoas comuns, mas vemos empresários e empresas também começando a mudar sua atitude.

    E como a divulgação científica pode contribuir com essa mudança estrutural?

    A ciência em si tem um papel fundamental nisso, fazendo ciência em prol da maioria. 

    O cientista precisa colocar seu esforço em, além de desenvolver aquela área e realizar descobertas, para que sua pesquisa tenha uma ação social e não fique apenas no seu meio, que tenha uma utilidade pública, social e que não privilegie o sistema econômico e de mercado vigente. 

    Um exemplo, é essa busca pela vacina para o Covid-19. Será que essa vacina terá um direcionamento de bem de mercado e o acesso será restrito a quem possa pagar por ela? Ou terá um direcionamento social que independentemente da condição financeira, cor, credo, opção sexual, por exemplo, possa ter acesso a ela?

    Acho que todo cientista tem esse papel de rever a ciência de forma crítica, porque ela não está desconectada desse padrão que discutimos aqui, a disponibilização das informações sobre ciência, inclusive.

    A ciência, sua evolução e suas descobertas também foram disponibilizadas pela lógica de mercado, ou seja, para quem podia pagar. É claro, que existe o problema de financiamento, mas o que é possível se fazer, como cientista, é pensar na ciência como coletivo e disponibilizar seus frutos para que todos tenham acesso, para o bem comum.

    Por fim, nossa ação aqui na Força tarefa é feita, por sua maioria de professores/pesquisadores, de todo os lugares do mundo, dedicando nosso tempo em orientar, construir e reunir uma literatura e arsenal conceitual, teórico e empírico para contribuir para a implementação da Economia Social e Solidária nos governos mundiais, essa é uma das atividades em prol do bem comum que viemos explanando aqui.

    Dica de evento:

    O Fórum Político de Alto Nível, plataforma central das Nações Unidas para o acompanhamento e a revisão da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, prevê a participação plena e efetiva de todos os Estados Membros das Nações Unidas e Estados membros de organizações especializadas.

    A reunião do fórum político de alto nível sobre desenvolvimento sustentável em 2020 será realizada de terça – feira, 7 de julho a quinta-feira, 16 de julho de 2020 , sob o apoio do Conselho Econômico e Social. Isso incluirá a reunião ministerial de três dias do fórum, de 14 de julho a 16 de julho de 2020.

    Acompanhar o evento: ttps://sustainabledevelopment.un.org/hlpf/2020

    Para saber mais:

    [1] Para conferir os dados atualizados da Covid – https://covid19.who.int/ e https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51718755

    [2] “O fenômeno de Bolhas Sociais é conhecido em diversas áreas e pesquisas estão sendo feitas para analisar seu impacto na sociedade. Se caracteriza pela limitação dos indivíduos ao acesso a informações que tem afinidade e a falta de acesso a informações divergentes ou diferentes das de seu interesse.”

    EVANGELISTA, Bruno; BATISTA, Gabriela; DE OLIVEIRA, Jaqueline Faria. Detecção Automática de Bolhas Sociais no Twitter em uma Rede de Usuários de Tecnologia. In: Anais do VII Brazilian Workshop on Social Network Analysis and Mining. SBC, 2018.

    [3] Falamos aqui das gerações Y e Z: A geração, conhecida como Y – nascidos entre 1980 a 1995 – presenciou a plena expansão das inovações tecnológicas, o nascimento da internet e o início da mudança na comunicação e na era da informação, estes foram criados com a preocupação pela segurança e pelo excesso de estímulos, suas ambições estão na prosperidade econômica, ou seja, é movida por resultados, desafios e interesses de ascensão rápida.

    Já a geração Z – nascidos entre 1996 a 2000 – nasce em plena era da informação e da tecnologia na palma da mão, essa é uma geração conectada e informatizada 100% do seu tempo, prefere o consumo rápido e facilitado porém com pouca interação social presencial, uma vez que a conectividade supri suas necessidades emocionais. Essa geração não procura o acúmulo de bens, mas valoriza o dinheiro para que este sustente seu padrão e qualidade de vida, buscando, muitas vezes um perfil empreendedor. 

    Baby Boomer: https://pt.wikipedia.org/wiki/Baby_boomer

    Geração X: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gera%C3%A7%C3%A3o_X

    Geração Y: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gera%C3%A7%C3%A3o_Y

    Geração Z: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gera%C3%A7%C3%A3o_Z

    [4] Para a lista completa de membros e observadores do UNTFSSE, visite: http://unsse.org/ – Para mais informações, entre em contato com: Presidente: Vic Van Vuuren (OIT), vanvuuren@ilo.org; Secretaria Técnica: Valentina Verze (OIT), verze@ilo.org

    Ainda mais informações sobre o assunto:

    Sobre a Divisão de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

    Textos originais sobre a conscientização e contribuição para o corpo de conhecimentos sobre SSE como um meio de implementação dos ODS

    ESS Collective Brain é um espaço interativo virtual que visa enriquecer as atividades da OIT em  Economia Social e Solidária (ESS) – http://ssecollectivebrain.net/?lang=es

    Observatório Ibero-Americano de Emprego e Economia Social e Cooperativa

    [5] Leandro Pereira Morais. Professor Doutor e Pesquisador do Departamento de Economia e Coordenador do Núcleo de Extensão e Pesquisa em Economia Solidária, Criativo e Cidadania (NEPESC) da UNESP – ARARAQUARA, Membro Titular do Conselho Científico Internacional do CIRIEC, Representante do Brasil no OIBESCOOP, Consultor Sênior da OIT nas áreas de Economia Social e Solidária e Cooperação Sul-Sul, Membro Suplente da Força Tarefa das Nações Unidas sobre Economia Social e Solidária. Áreas de Interesse em Pesquisa: Políticas Públicas de Economia Social e Solidária, ODS, Cooperação Sul-Sul e Ecossistema Empreendedor para Economia Social e Solidária

    Ainda mais um pouco sobre o Leandro Morais: https://bv.fapesp.br/pt/pesquisador/38780/leandro-pereira-morais/ e http://lattes.cnpq.br/8472617785156618

    [6] Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (ou Objetivos Globais para o Desenvolvimento Sustentável) são uma coleção de 17 metas globais, estabelecidas pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Os ODS são parte da Resolução 70/1 da Assembleia Geral das Nações Unidas: “Transformando o nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, que depois foi encurtado para Agenda 2030. As metas são amplas e interdependentes, mas cada uma tem uma lista separada de metas a serem alcançadas. Atingir todos os 169 alvos indicaria a realização de todos os 17 objetivos. Os ODS abrangem questões de desenvolvimento social e econômico, incluindo pobreza, fome, saúde, educação, aquecimento global, igualdade de gênero, água, saneamento, energia, urbanização, meio ambiente e justiça social. https://pt.wikipedia.org/wiki/Objetivos_de_Desenvolvimento_Sustent%C3%A1vel

    Este post foi publicado originalmente no blog Mindflow

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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Carlos Nobre alerta que além da pandemia, é preciso conter o aquecimento global


    Por Danila Gabriela Bertin, Felipe Ferreira Naves e Vinícius Nunes Alves

    A colaboração científica global é essencial para vencermos a crise do novo coronavírus, mas também para uma reconstrução sustentável da economia pós-Covid-19

    Quem nega o aquecimento global, 
    vai ver esses efeitos acontecendo daqui há 20 ou 30 anos.
    Quem vai ser afetado, 
    não são as mesmas pessoas que estão negando agora.
    [Átila Iamarino no programa Roda Viva da TV Cultura em 30 de março] 
    

    Nunca antes, na sociedade moderna, houve uma pandemia com esta magnitude. Ao mesmo tempo, há uma união global da ciência em prol de uma solução comum, em proporções nunca vistas antes. Mas Carlos Nobre, um dos maiores cientistas do clima, defende que a ciência se una não só durante a crise de Covid-19, mas também após a mesma para auxiliar a economia a se reconstruir de forma sustentável no mundo.

    No webinar “Futuro Pós Covid-19” promovido pelos Líderes Climáticos da Juventude (YCL, sigla em inglês) em 05 de maio, o climatologista de destaque discutiu meios para uma reconstrução sustentável da economia pós Covid-19. “O ideal é uma colaboração, não é um país brigando com o outro, escondendo ciência, tentando usar a ciência com enorme poder tecnológico e econômico”, ressalta Carlos Nobre, que também apoia essa postura para as mudanças climáticas, outro problema global que as sociedades devem enfrentar.

    Carlos Nobre é um cientista brasileiro de impacto internacional. Atualmente é pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP e Presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, entre outras titulações e funções. Nobre alerta sobre os riscos do aquecimento global formado nas últimas décadas para a humanidade, caso não frearmos as emissões de gases de efeito estufa. A destruição e poluição do meio ambiente podem tornar a manutenção da vida na Terra insustentável para os seres humanos, assim como para 40 a 50% das espécies do planeta.

    Imagem de chamada do Youth Climate Leaders (Líderes Climáticos da Juventude) no Facebook para o webinar com Carlos Nobre.


    Resistência e retomada econômica sustentável

    Tanto na crise de Covid-19 quanto na crise climática há certa resistência da sociedade em mudar o estilo de vida, principalmente pelo impacto na economia. Carlos Nobre fez questão de reconhecer que “a recuperação econômica não é um coelho que sai da cartola do mágico”. É inevitável que grande parte dos recursos para isso saia do bolso do cidadão, assim como aconteceu nas outras recessões. Portanto, é imprescindível o posicionamento da sociedade a favor das soluções sustentáveis e economicamente viáveis, que evitem os limites planetários.

    A energia de fontes renováveis, como a solar e eólica, estão entre as menos custosas. No entanto, os subsídios para a indústria fóssil, a maior responsável pela crise climática, ainda é dez vezes maior do que para a energia renovável. Logo, é urgente a inversão desta prioridade. Carlos Nobre ainda realçou a necessidade da transição para uma agricultura regenerativa, baseada em sistemas agroflorestais, que favoreça a biodiversidade dos países tropicais e os serviços ecossistêmicos.

    “A floresta em pé tem um valor econômico superior para a sociedade em geral do que a floresta derrubada e substituída por pastagem de pecuária ou mesmo grãos. Tanto a ciência quanto o conhecimento tradicional podem valorizar, inclusive culturalmente, uma floresta em pé por milhares de anos”, conta Carlos. Nesse sentido, o projeto Amazônia 4.0 (em referência à quarta revolução industrial) é um exemplo de sucesso na parceria entre ciência, tecnologia e conhecimento tradicional de povos amazônicos que busca o desenvolvimento de uma economia que prioriza a floresta em pé.

    Outra iniciativa recente que tem potencial para alavancar a economia de forma sustentável após a pandemia é a do Fórum Econômico Mundial (2020) que propõe plantar um trilhão de árvores de forma planejada. Isso, além de ser poderoso no combate às mudanças climáticas, pode ser também um instrumento valioso na recuperação econômica, uma vez que gerará empregos e benefícios para a agricultura e qualidade ecológica urbana.


    Crise climática e pandemias no futuro

    As hipóteses mais aceitas para o surgimento do novo coronavírus, o Sars-Cov-2, se relacionam ao tráfico de animais silvestres, ao seu manuseio e consumo. São os famosos mercados molhados. E por que eles trazem risco de epidemias? Os animais silvestres, há milhões de anos, estão em equilíbrio com seu ambiente. Ambiente este que é rico em diversos microrganismos e, quando perturbado, pode desequilibrar o tamanho das populações de microrganismos e de seus vetores (animais que o transportam).

    A savanização da Amazônia também traz consigo riscos expressivos de gerar doenças com potencial pandêmico. Com as florestas tropicais secando e se transformando em fisionomias savânicas, a diversidade de microrganismos é desequilibrada e o fluxo desses muda, ficando mais expostos para a população humana.

    Muitos desses microrganismos podem trazer doenças zoonóticas, se em contato direto com humanos. A Floresta Amazônica, além de sofrer problemas ambientais como desmatamento, queimada e grilagem de terras, já carrega potenciais endemias. “Se perguntarem assim: Poxa, a Amazônia nunca gerou até hoje uma pandemia, né? Eu responderia: pura sorte porque elementos de geração de epidemias e pandemias estão na Amazônia. Existe a leishmaniose que é endêmica. Existem umas hantaviroses que estão se tornando agora um pouco mais disseminadas. É um lugar que tem a maior diversidade de microrganismos do mundo”, destaca o cientista.


    Crise climática e injustiça social

    A desigualdade social se torna cada vez mais frequente, em ritmo acelerado nos países em desenvolvimento. As populações com menor capacidade de resiliência aos impactos das mudanças climáticas são justamente as mais vulneráveis e as que menos contribuem para a instalação desta crise. São países africanos, do sul da Ásia e América Latina. Mesmo diante desse contexto, “nós ainda não tivemos a habilidade de implementar um mecanismo de compensação de justiça social”, pondera Carlos Nobre com sua franqueza característica.

    O Fundo Verde do Clima surgiu em 2010, na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, com o objetivo de financiar projetos voltados ao enfrentamento da crise climática nos países mais vulneráveis. Porém, o Fundo se encontra com baixa efetividade de atuação contra a injustiça social, assim como para nos direcionar a trajetórias de menor risco.

    Transações de caráter econômico não sustentáveis ainda estão recebendo prioridade, e um exemplo disso é a crítica iniciativa Belt and Rode da China que pretende vender termelétricas a carvão para a África. Ironicamente, é esse continente que possui o maior potencial de geração de energia solar do mundo com o Deserto do Saara.

    Isso vai na contramão do Acordo de Paris (2015) realizado pelas Nações Unidas que considera “as mudanças climáticas como uma ameaça urgente e potencialmente irreversível para as sociedades humanas e para o planeta e, portanto, requer a mais ampla cooperação possível de todos os países e sua participação em uma resposta internacional eficaz e apropriada, com vista a acelerar a redução das emissões globais de gases de efeito estufa”. Nesse sentido, Carlos Nobre ainda complementa que “se nós não conseguirmos atingir os objetivos do acordo de Paris, nós vamos criar um mundo muito mais impensavelmente injusto do que nós já temos hoje.”

    Poluição atmosférica em cidades – Imagem de Pixabay


    O papel da educação e dos jovens com as mudanças climáticas

    Quando lidamos com crises sanitárias, como a Covid-19, a percepção dos impactos é maior, pois estamos vivenciando as consequências desse problema rapidamente. Mas quando tratamos das graduais mudanças climáticas a percepção de risco é menor. Para mudar essa percepção, não basta só a informação científica, mas precisa essencialmente de uma base educacional sólida que valorize o processo do conhecimento científico sobre problemas ambientais e outros que afetam a sociedade como um todo.

    Os sistemas educacionais formais se concentram na juventude e colocam os jovens como protagonistas iminentes da sociedade. Assim, é a educação de qualidade que pode esclarecer a percepção de risco das mudanças climáticas, tornando a sustentabilidade um valor humano e de cidadania.

    Carlos Nobre enfatizou que os “bons ventos” estão mais nas mãos dos jovens, pois serão os consumidores, empreendedores e políticos de uma sociedade futura. Segundo o pesquisador, a organização de jovens líderes climáticos deste webinar é um emblema disso. São jovens com esse perfil que pensam em medidas inovadoras e em ferramentas criativas da quarta revolução industrial para gerar oportunidades econômicas sustentáveis. A responsabilidade e a oportunidade parecem ainda maiores para as gerações jovens que crescem em países com dimensões continentais e com biodiversidade imensa como o Brasil.


    Danila Gabriela Bertin é bacharel em Ciências Biológicas pelo ICENP/UFU.

    Felipe Ferreira Naves é bacharel em Ciências Biológicas e mestrando em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais pela UFU.

    Vinícius Nunes Alves é licenciado e bacharel em Ciências Biológicas pelo IBB/UNESP, mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais pela UFU. Atualmente é estudante de especialização em Jornalismo Científico pelo Labjor/UNICAMP e colunista do jornal Notícias Botucatu.

    Este post foi escrito originalmente no blog Natureza Crítica

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Antibiótico contra vírus? O curioso caso da azitromicina contra a COVID-19

    Diversas combinações de medicamentos estão compondo o chamado “Kit COVID-19”. Presença quase constante neles, um antimicrobiano utilizado para infeções bacterianas chama atenção: a azitromicina… o que ela está fazendo ali? Existe alguma base científica para essa indicação? Quais seriam possíveis consequências dessa medicação?

    A azitromicina é um antimicrobiano bacteriostático, da classe dos macrolídeos, que atua impedindo a síntese de proteínas nas bactérias. Possui amplo uso na prática clínica, sendo escolhida para o tratamento de infecções do trato respiratório, da pele e de tecidos moles causadas por diversas bactérias Gram-positivas e espécies bacterianas atípicas.

    A gravidade e a mortalidade de infecções virais do sistema respiratório (e aqui a gente também está falando da COVID-19) são associadas a uma resposta inflamatória excessiva caracterizada por uma produção excessiva de citocinas (você pode ter ouvido por aí sobre a tal “tempestade de citocinas).[1]

    E onde esses dois pontos (azitromicina e COVID-19) se encontram?

    De onde surgiu a ideia de usar um antibacteriano no tratamento de uma infecção viral causada pelo SARS-CoV-2?

    Primeiro de tudo, já tínhamos evidências in vitro[2] (que fique bem claro!) de que a azitromicina pode prevenir a replicação de vírus como o influenzavírus humano H1N1 e o zikavírus. Agora, novos estudos também in vitro demonstraram que a azitromicina aumenta o pH das células hospedeiras, o que pode dificultar os processos de entrada, replicação e dispersão do SARS-CoV-2. Além disso, esse antimicrobiano poderia reduzir os níveis da enzima furina das células hospedeiras, o que poderia dificultar o processo de entrada do vírus na célula.

    Ok… mas e em relação à imunologia… será que temos alguma hipótese para sustentar o uso da azitromicina?

    Os macrolídeos (a azitromicinaé dessa classe, falei ali em cima, lembra?) têm demonstrado efeitos imunomodulatórios e anti-inflamatórios, ao atenuarem a produção de citocinas anti-inflamatórias e promoverem a produção de anticorpos (imunoglobulinas). E isso poderia ajudar na redução das complicações decorrentes do estado pró-inflamatório induzido pela infecção pelo SARS-Cov-2.

    Muitas evidências… in vitro… mas elas são o bastante para que a azitromicina seja liberada para ser fornecida como profilaxia ou como tratamento para indivíduos contaminados? Se você tem acompanhado a evolução do uso da cloroquina/hidroxicloroquina deve saber que não é bem assim… É muito importante avaliarmos a eficácia do medicamento in vivo e de forma controlada no contexto da pandemia

    E, nesse contexto, é de grande relevância consideramos, também, os efeitos colaterais do seu uso: distúrbios gastrintestinais, aumento do intervalo QT (observado em eletrocardiograma, indicando alterações cardíacas), problemas para pacientes com problemas hepáticos e renais.

    Ainda carecemos de estudos in vivo para avaliarmos adequadamente a droga. Os estudos que estão disponíveis ainda têm muitos problemas (grupos pequenos, seleção enviesada de pacientes e tratamentos, dentre outros…).

    A ciência é feita a partir do acúmulo de evidências e estudos são validados pelos pesquisadores pela acurácia dos métodos utilizados no estudo. A validação pelos pares acontece pois metodologias adequadas (e aqui incluímos: uso de placebo, testes duplo cego, estudos multicêntricos, quantidade de amostras/pacientes, análise de resultados, dentre outros vários pontos) geram resultados confiáveis!

    Concluindo…

    Ainda não temos tratamentos comprovadamente eficazes para a COVID-19, e há uma busca mundial para o reposicionamento de fármacos já utilizados. Azitromicina está sendo utilizada em todo mundo de forma off-label[3], mas ainda não temos evidências que suportem o uso desse antimicrobiano num contexto de COVID-19 sem coinfecção bacteriana associada. Para a azitromicina, o caminho a ser seguido é, ou pelo menos deveria ser, o mesmo do que aconteceu com a cloroquina: antes de confiar em relatos milagrosos e anedóticos, é necessária a realização de estudos clínicos controlados antes de sair declarando que a droga é mais uma maravilha do mundo. As evidências são limitadas e enviesadas e estudos sistemáticos e controlados poderão mostrar se a droga tem efeito quando utilizada sozinha, se tem efeito sinérgico quando associado a outro medicamento, ou se não tem efeito. Além dos efeitos colaterais que também podem ser aumentado quando em associação com outras drogas.

    Todos queremos um medicamento eficaz contra o SARS-Cov-2, mas que seja identificado pela medicina baseada em evidências!

    No próximo post vamos falar um pouquinho sobre resistência bacteriana no contexto da COVID-19. Vamos falar um pouquinho dos mecanismos e dos riscos envolvidos no uso indiscriminado de antibióticos.

    NOTAS:

    [1]Citocinas e tempestade de citocinas. Citocinas são moléculas reguladoras produzidas por diversas células do sistema imune. Elas atuam modulando nossa resposta imunológica, podendo ser citocinas inflamatórias (p.ex.: TNF, IL-1, IL-2, IL-6, IL-7) ou antiinflamatórias (p.ex.: IL-4, IL-10, IL-13, TGFβ). Na tempestade de citocinas, há uma liberação excessiva das citocinas pró-inflamatórias que resultam no recrutamento de muitas células inflamatórias. O resultado disso são danos ao tecido local. Para mais, consulte o Blog Microbiologando da UFRGS.

    [2] Experimentos in vitro e in vivo: Os experimentos in vitro são aqueles realizados nas primeiras etapas de um estudo. Eles são realizados sem a participação de seres vivos. Geralmente são utilizadas células cultivadas em laboratório ou mesmo órgãos de animais abatidos (p.ex.: córneas de bovinos obtidas de abatedouros). Em etapas mais avançadas, quando se tem evidências da segurança da substância, os experimentos são realizados com seres vivos. Num primeiro momento geralmente utiliza-se invertebrados, peixes ou roedores, para, num momento posterior, utiliza-se humanos. Os ensaios in vitro e in vivo com animais não-humanos são chamados de estudos pré-clinicos. Os ensaios com seres humanos são os ensaios clínicos. Antes de serem iniciados, os ensaios com animais vertebrados devem ser aprovados pela CEUA (Comissão de Ética no Uso de Animais) e os ensaios clínicos  devem ser aprovados pelo CEP (Comitê de Ética em Pesquisa).

    [3] Uso off-label de medicamentos: Todos os medicamentos registrados no Brasil recebem aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para uma ou mais indicações que passam a constar na sua bula. Acontece, porém, que essas podem não ser as únicas indicações possíveis, ou seja: o medicamento pode continuar sendo estudado para outros usos. Quando sua eficácia é comprovada para essas novas indicações, a Anvisa as inclui na bula. A opção de um médico em tratar seus pacientes com um medicamento em uma situação não prescrita na bula (seja por analogia de mecanismo de ação, base fisiopatológica das doenças) é chamada de “uso off-label”. O uso off label de um medicamento é feito por conta e risco do médico que o prescreve, e pode eventualmente vir a caracterizar um erro médico, mas em grande parte das vezes trata-se de uso essencialmente correto, apenas ainda não aprovado. Para mais informações, consulte o site da Anvisa.

    Para esse post foram consultadas as seguintes referências:

    • Choudhary, R; Sharma, AK. “Potential use of hydroxychloroquine, ivermectin and azithromycin drugs in fighting COVID-19: trends, scope and relevance.” New microbes and new infections, vol. 35 100684. 22 Apr. 2020, doi:10.1016/j.nmni.2020.100684
    • Gbinigie, K; Frie, K. “Should azithromycin be used to treat COVID-19? A rapid review.” BJGP open vol. 4,2 bjgpopen20X101094. 23 Jun. 2020, doi:10.3399/bjgpopen20X101094
    • Pani, A et al. “Macrolides and viral infections: focus on azithromycin in COVID-19 pathology.” International journal of antimicrobial agents, 106053. 10 Jun. 2020, doi:10.1016/j.ijantimicag.2020.106053

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    Esse post foi originalmente escrito pelo blog Meio de Cultura

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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • É DEXA!!

    Texto de autoria da Olguitcha na Pands publicado no Facebook no perfil pessoal dela, com a devida autorização e convite do blogs Tubo de Ensaio.

    Oi, pessoal. Olguitcha na pands aqui. Senta que lá vem história da DEXA.

    Então, como vocês sabem, eu não tenho limites. Vou começar dizendo que a Oxford mais uma vez está sambando na cara das universidades de vocês sabem onde… [a piada é interna, mas eu to rindo]. Mas isso é para outro post. hihihi

    Os dados obtidos para a dexametasona são bem-vindos sim, esse grande estudo demonstrou que a dexametasona melhora a sobrevida de pacientes mais graves da COVID-19 que necessitam de ventilação. No entanto, o estudo ainda não foi publicado ou submetido ao escrutínio científico.

    Isso não impede a polvorosa do galerê, e os trocentos posts que já devem ter saído… Êêêê todos ama ciência agoraaaaaaa. SEUS CARA DE CONCHA.

    https://giphy.com/gifs/w5FTwwiweGqDm

    Desde fevereiro/março, uma iniciativa de ensaios clínicos denominada RECOVERY* está avaliando o potencial uso de um monte de medicamentos para COVID-19 (RECOVERY: Randomised Evaluation of COVid-19 thERapY; é cafona, sim, o que você espera de um monte de nerds recebendo atenção…rsrs). Eles estão revisitando drogas já conhecidas dada a emergência da pandemia, além de intervenções médicas outras. A rede RECOVERY conta com 175 hospitais da rede pública do Reino Unido (NHS-UK), logo tudo mais bem integrado do que a maioria dos trials que vemos.

    Dizem os responsáveis pelo RECOVERY que mais de 10 mil pacientes já participaram de ensaios por lá.

    Digamos com bondade no coração então que tudo isso sugere maior consistência entre os dados observados e, provavelmente, dados melhor/mais bem coletados para a análise. Digo isso porque quem manja de estatística na área clínica sabe, você faz o que quiser com um monte de números… mas se a fonte deles não é padronizada e confiável, esqueça, é xaxixo. Pode ser um xaxixo lindo, mas na beira do leito, não dá pra brincar e dizer que foi uma escolha difícil com ente amado alheio. 😉 Também não adianta ter um número infinito de amostras, para superar a variabilidade natural entre pacientes, se todas foram adquiridas de qualquer jeito e sem coerência.

    No final das contas, as interpretações na ciência dependem e se baseiam em ética e confiabilidade metodológica (percebam que essa é uma crítica razoável que posso fazer a estudos multicêntricos independentes, como aquele que foi retratado na The Lancet, que ganham em randomicidade pelo grande número de amostras/pacientes, mas perdem em robustez e padronização.

    É uma faca de dois legumes, dependendo da droga ou pergunta a ser testada, eu poderia dizer que chega a ser um universo amostral viciado o do RECOVERY, ou seja, um estudo bem britânico, imagine vários Príncipes Charles tomando chá com sorinho no braço… hahaha zoei. A tendência é o resultado ser ótimo para pessoas da família real. Sacaram? Mas não sejamos assim chatonildos e pessimistas, a população de UK que usa o NHS é mais variada, se formos pensar em diversidade, UK toda não é royal assim faz muito tempo.

    Enfim, no RECOVERY não só a dexametasona tem sido avaliada, mas outras drogas como antivirais usados no HIV e anticorpos provenientes do plasma de pacientes convalescentes também, incluindo a aminoquinolona que mais desperta paixões no planeta -hidroxicloroquina – (a qual já foi descartada por esse grupo de Oxford por não ter mostrado benefício *oh shoot*).

    Pois bem, vamos à dexametasona:

    A dexametasona é um antiinflamatório esteroidal bem conhecido, com diversas aplicações, dosagens e formulações farmacêuticas (comprimido, injetável, pomada e o escambau), o que pode mudar completamente sua efetividade e propósito.

    A DEXA (para os íntimos) é vastamente utilizada em inúmeras patologias e intervenções medicamentosas combinadas. A DEXA é mais comumente usada para tratar condições como inflamação, alergias graves, problemas adrenais, artrite, asma, problemas de sangue ou medula óssea, problemas renais, condições da pele e crises de esclerose múltipla.

    Barata e de fácil produção. Espero que ainda a DEXA só possa ser aviada com receita médica e não por live presidencial. Portanto, tem efeitos colaterais que muitos de vocês já talvez até tenham experimentado… vou listar uns que eu lembro de cabeça: retenção de líquidos (danos na circulação e rins), disfunção dos níveis glicêmicos tendendo a hiperglicemia (diabetes), fraqueza muscular, fragilidade de vasos sanguíneos, hipersensibilidade, refluxo gástrico, dificuldade de cicatrização… e tem mais uma cacetada se for uso bem crônico, até distúrbios psicológicos e catarata, e outros que nem citei aqui porque eu tô com preguiça real e oficial.

    E tem um que eu quero destacar: DEXA é imunossupressor, ou seja, deprime o sistema imunológico, reduz nossas defesas. Tem seus vieses se pensarmos em pessoas hospitalizadas utilizando, uma vez que diminuir a inflamação é o objetivo para evitar o progresso do quadro clínico da COVID-19, contudo a DEXA pode tornar o paciente mais suscetível a outras infecções secundárias. Todos sabem que um dos maiores problemas em hospitais são as mortes por infecções hospitalares secundárias à causa que levou o paciente à internação. E tascar um monte de antimicrobianos espartanos no paciente não ajuda muito não…

    Ou seja, DEXA não é bala Xaxá. NADA DE SAIR COMPRANDO ANTIINFLAMATORIO ESTEROIDAL PARA POR NA RECEITA DE BROWNIE. Caray. Já tô braba aqui.

    Pois bem, vamos aos resultados obtidos no ensaio com doses consideradas baixas de dexametasona no RECOVERY.

    Dois grupos de pacientes foram randomizados, ou seja, aleatoriamente selecionados e comparados:

    1 – 2104 pacientes com um tratamento convencional paliativo de COVID-19 com adição de dexametasona 6 mg uma vez por dia (por via oral ou por injeção intravenosa) por 10 dias.

    2- 4321 pacientes apenas para os cuidados habituais.

    Entre os pacientes que receberam os cuidados usuais isoladamente (grupo 2 sem droga), a mortalidade em 28 dias foi mais alta naqueles que necessitaram de ventilação (41%), intermediária nos pacientes que precisaram apenas de oxigênio (25%) e menor entre aqueles que não necessitaram de intervenção respiratória (13%).

    A DEXA reduziu aproximadamente 33% das mortes nos pacientes ventilados (razão de taxa 0,65 [intervalo de confiança de 95% 0,48 a 0,88]; p = 0,0003) e reduziu um quinto em outros pacientes recebendo apenas oxigênio (0,80 [0,67 a 0,96]; p = 0,0021). Não houve benefício entre os pacientes que não necessitaram de suporte respiratório (1,22 [0,86 a 1,75]; p = 0,14).

    Em geral, no grupo 1 com droga, os pacientes que receberam a DEXA, houve redução de 17% a taxa de mortalidade em 28 dias (0,83 [0,74 a 0,92]; P = 0,0007), com uma tendência significativamente alta mostrando maior benefício entre os pacientes que necessitam de ventilação (teste para tendência p <0,001).

    https://giphy.com/gifs/memecandy-ZECL3vwoHHkMrvVEca

    📍📍📍 Os autores do ensaio dizem que é importante reconhecer que não encontraram evidências de benefício para pacientes que não precisavam de oxigênio e que não estudaram pacientes fora do ambiente hospitalar. O acompanhamento está completo para mais de 94% dos participantes.

    PAUSA PIADISTICA 1: não fiquem brabos comigo, estou me estendendo e colocando até os dados estatísticos de valor de p e tudo, porque estão muito lindos demais… se não foram manipulados. hahaha Mas é o que está lá no RECOVERY e os caras colocaram disponíveis só isso aí. 🤘

    PAUSA PIADISTICA 2: pessoal por aí deu uma confundida na tradução. Tá escrito lá: “Dexamethasone reduced deaths by one-third in ventilated patients”, o que em português significa dizer que antes morriam 10 e agora morreriam 6 ou 7 usando DEXA. Redução de um terço. Não a um terço. Teve gente que achou que era milagre. “Reduced by” é pegadinha.

    https://giphy.com/gifs/thegoodfilms-thegoodfilms-lost-in-translation-scarlett-johansson-Tb7jwA6p1sEo0

    Com base nesses resultados, dizem eles, que 1 morte seria evitada pelo tratamento com DEXA a cada 8 pacientes ventilados ou a cada 25 pacientes que necessitavam apenas de oxigênio. Dada a importância desses resultados para a saúde pública, dizem eles “agora estamos trabalhando para publicar todos os detalhes o mais rápido possível.”

    POIS. Não é o feijão mágico ainda, mas bem animador mesmo. YAY 🤘🤘🤘

    Queremos o artigo publicado sim. Mais detalhes. Já tenho uma lista de comentários e perguntas:

    Os pacientes que necessitam de oxigênio ou ventilação geralmente apresentam pneumonia e desenvolvem falta de ar, insuficiência respiratória e síndrome da angústia respiratória aguda (SDRA, do inglês, ou SRAG, sindrome respiratoria aguda grave no português) – quando os pacientes não conseguem respirar porque há inflamação e fluido preenchendo alvéolos de ar nos pulmões. Uma vez que a SRGA se desenvolve, a taxa de mortalidade aumenta significativamente e a necessidade de cuidados intensivos e suporte à vida aumenta.

    Recomenda-se sempre cautela e mais dados antes de introduzir a dexametasona na prática atual.

    Mas, de fato, uso de esteroidais é realmente algo esperado já vendo outros trabalhos: Em março, pessoal de Wuhan na China liberou um estudo no JAMA** – “O tratamento com metilprednisolona pode ser benéfico para pacientes que desenvolvem SRAG.”

    Precisamos dos dados para descobrir o que havia de diferente nos pacientes estudados na China e no tratamento habitual combinado em UK (ou seja, uso de antibióticos empíricos?) O que determinou diferenças de outros grupos? Os dados de UK também nos ajudarão a selecionar melhor os pacientes que mais se beneficiariam.

    O estudo não mostrou nenhum benefício em pacientes que não precisavam de ajuda para respirar. Apenas uma minoria de pacientes com COVID-19 precisa de oxigênio ou ventilação mecânica – este é o único grupo que pode se beneficiar da dexametasona? Não sei.

    Diversidade na população, comentei isso um pouquito, a baixa dose de DEXA pode ser nada eficaz pra alguns grupos étnicos… é algo a se analisar.

    Agora fica a minha crítica PESSOAL. Depois de todas as retrações e PALHAÇADAS nessa pandemia, é inaceitável divulgar os resultados de estudo por meio do comunicado à imprensa sem liberar todos os dados em revistas científicas minimamente sérias antes. Qual o motivo pra isso? Vocês listem aí.

    Era isso, pessoal, se ficar alguma dúvida de entendimento ou técnica, faz um mimimi carinhoso que eu respondo.✌️

    Edit.: esqueci de dizer sobre a quantidade de verba PÚBLICA que financiou esse estudo em hospitais PÚBLICOS. Muitas libras esterlinas. Muitas. 🤑

    Aqui fica o link do press release do Recovery: https://www.recoverytrial.net/news/low-cost-dexamethasone-reduces-death-by-up-to-one-third-in-hospitalised-patients-with-severe-respiratory-complications-of-covid-19

    O paper de Wuhan em março: https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2763184

    Olguitcha na Pands é project scientist na Farmacologia da School of Medicine na Universidade da Califórnia (EUA). Professora Associada da UFPR (tá de licença sem salário, antes que perguntem). “Vim pra cá convidada pra trabalhar num projeto de glioblastoma. Tenho anos de experiência em Toxinologia (venenos de animais peçonhentos), sou Doutora em Ciências com ênfase em Biomol pela UNIFESP e Mestre em BioCel pela UFPR. Farmacêutica Bioquímica.”

    Este post foi escrito originalmente no blog Tubo de Ensaio, do Blogs de Ciência da Unicamp

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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • De água sanitária à radiação: você já ouviu falar em sanitização?

    Texto escrito por Cyntia Almeida, Gian Carlo Guadagnin e Gildo Girotto Júnior

    Imaginem que vocês, em futuro próximo, sentados em um restaurante (ou indo às compras em um mercado), sejam informados “Este restaurante conta com um sistema de sanitização ambiente por meio de substâncias que eliminam vírus e bactérias”, ou ainda, “este ambiente conta com um sistema de sanitização por meio de radiação ultravioleta”. Pois é. Este procedimento já tem ocorrido em alguns locais.

    Após o período em isolamento social, a maior parte dos estados brasileiros e muitos países do mundo seguem para a abertura do comércio. Mais do que isso, começam a traçar planos de retorno das atividades com a flexibilização do isolamento. O estado de São Paulo, por exemplo, propôs um plano de retorno do setor educacional, o qual envolve a ocupação gradual das instituições de ensino. Para além disso, outros espaços como o transporte coletivo, bares, restaurantes e demais estabelecimentos, num futuro próximo e ainda na presença do coronavírus, começarão a ser novamente ocupados. A preocupação que nos aflige é, portanto, como se preparar para evitar uma nova onda de disseminação do coronavírus?

    Nos diferentes projetos de retorno, muito se fala sobre ações que visam evitar a propagação do vírus. Isto levando-se em conta desde aquelas mais comuns, como lavar frequentemente as mãos, manter o uso do álcool gel e da máscara, até outras ainda pouco comentadas como a sanitização dos ambientes. Sobre este último ponto é que buscamos trabalhar algumas ideias neste texto. Trazemos, principalmente, esclarecimentos sobre como se dá este processo e quais procedimentos têm sido propostos e estudados para sua realização.

    Contextualizando um pouco 

    No mês abril deste ano, um estudo realizado por pesquisadores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Guangzhou, China, foi publicado. O objetivo foi estudar as possíveis causas da contaminação, por COVID-19, de 10 pessoas provenientes de 3 famílias distintas. Estas pessoas estavam presentes em um mesmo ambiente mas que se encontravam distantes umas das outras1. Levantou-se então a questão de que a circulação do ar (direcionada pelo aparelho de ar condicionado) teria propagado o vírus ou que os filtros de ar do aparelho pudessem estar servindo para o acúmulo do mesmo. 

    Os dados do estudo apontaram que a proximidade relativa das famílias durante o almoço e o forte fluxo de ar no ambiente, foram o fator crucial para a propagação do vírus a partir do paciente inicial, que na época não sabia estar contaminado. Isso ocorreu devido ao fato de as gotículas de saliva do primeiro doente terem sido levadas pelo fluxo de ar, a uma distância maior do que a esperada. A figura abaixo ilustra a contaminação ocorrida sendo A1 o sujeito inicialmente infectado. As datas indicam para a descoberta da contaminação dos demais sujeitos presentes no local.

    Ou seja, não apenas o maior distanciamento mostra-se necessário como é perceptível que partículas do vírus podem se deslocar. Isso devido ao fluxo de ar, se espalhando por uma grande área do ambiente. Este e outros estudos levantam questões sobre medidas que se tornarão necessárias, quando os estabelecimentos públicos voltarem a funcionar. Além disso, traz indagações referentes aos novos protocolos de limpeza e desinfecção. Quais produtos utilizar? Os processos realmente isentam o ambiente do vírus?  Seria possível realizar a sanitização em ambientes com a presença de pessoas? Trazemos aqui algumas considerações em relação ao processo de sanitização de ambientes.

    O processo de sanitização

    Antes mesmo da publicação do estudo citado, algumas cidades haviam adotado o uso da desinfecção ou da limpeza das ruas. O intuito era combater a contaminação dos indivíduos que por ali transitavam. Tal ação deve ser promovida apenas em lugares com maior fluxo de pessoas. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), ao realizar esse processo em lugares com poucas chances de contágio, corre-se o risco de fortalecer o vírus, tornando-o imune aos saneantes usados2. Nesse cenário, um primeiro ponto a se compreender é a diferença entre limpeza e desinfecção. 

    Segundo Nota Técnica2 da ANVISA, LIMPEZA é a remoção de microrganismos, sujeiras e impurezas das superfícies sem, no entanto, ter por objetivo a degradação dos microrganismos. É, portanto, uma remoção física que diminui o risco de propagação de infecções e doenças. Já o processo de DESINFECÇÃO utiliza substâncias capazes de matar microrganismos presentes nas diferentes superfícies. Esse processo não limpa necessariamente superfícies sujas ou remove fisicamente os microrganismos. Mas, ao degradá-los em uma superfície antes ou após a limpeza, pode reduzir ainda mais o risco de propagação de infecções (o uso do álcool gel por exemplo, desinfeta uma superfície). 

    Na desinfecção, como visto, uma substância é responsável por degradar o organismo causador ou transmissor da doença ou infecção. No caso de bactérias, a degradação ocorre quando a membrana exterior da célula do organismo é quebrada e seu material genético e constituinte se dispersa, impedindo-o de funcionar. É como se tivéssemos a cabeça ou o coração arrancados. No caso dos vírus, a desinfecção tende a romper a camada de proteínas e/ou gorduras que constituem sua parte externa.

    Em todos esses casos, a substância desinfetante interage com uma estrutura molecular rompendo ligações que manteria a estrutura do micro-organismo. A limpeza posterior retira “os restos mortais” que sobraram do processo. Recentemente (mas não muito), outros processos, sem o uso de substâncias, têm sido testados. É o caso da utilização de radiação ultravioleta (UV)3. A ideia neste caso é que a radiação UV, por carregar grande quantidade de energia, possa interagir com micro-organismos fazendo com que as ligações químicas que compõem as suas moléculas sejam degradadas. Uma analogia que pode ser feita é a ação do sol em nossa pele. A radiação solar é composta por diferentes ondas, dentre elas o UV, principal responsável por “queimar” a pele. A ideia é semelhante, só que o procedimento consiste em utilizar aparelhos que emitam apenas este tipo de radiação diretamente aplicado a superfícies.

    Mas então, onde aplicar e que substâncias ou métodos utilizar?

    Bom, antes é preciso saber o que vamos desinfectar, se existem pessoas ou animais no local, se o local é grande ou pequeno, qual seu uso e o que queremos eliminar. Nem todas as substâncias destroem vírus e também bactérias, vide os medicamentos, que em geral são específicos: antiviral ou antibiótico.

    Para o coronavírus, em especial, o Ministério da Saúde (MS) recomenda, para desinfecção de superfícies, o uso dos produtos autorizados pela Anvisa, como o quaternário de amônia (NR4+, onde R é uma cadeia de carbonos e hidrogênios); alvejantes contendo hipoclorito (de sódio ou cálcio); peróxido de hidrogênio e ácido peracético4. O Quaternário de amônio é o que chamamos de cátion, isto é, uma substância com carga, neste caso positiva pela deficiência em elétrons. Por ser positiva, essa substância é atraída por espécies negativas sendo reativa e atuando na oxidação da matéria com a qual está em contato, quebrando as moléculas da camada protéica do vírus, ou então rompendo as ligações da membrana da bactéria.

    Entretanto, segundo a ANVISA, quaternários de amônio podem causar irritação na pele e nas vias respiratórias e pessoas expostas podem desenvolver reações alérgicas, afinal, o cátion “ataca” a matéria sem muita distinção, podendo, portanto reagir com componentes da nossa pele.

    As outras recomendações para superfícies, e que funcionam quimicamente de forma semelhante, são o próprio hipoclorito de sódio (comum na desinfecção de alimentos), o peróxido de hidrogênio (comercializado em solução na forma de água oxigenada) e o ozônio ( utilizado no tratamento de água em piscinas). Para estes, é importante observar sua periculosidade uma vez que são fortemente irritantes e podem causar lesões severas.

    Seria possível sanitizar um ambiente com pessoas presentes? 

    Mesmo com o conhecimento dos riscos de irritação e a possibilidade de envenenamento, muitos estabelecimentos e até mesmo alguns estados brasileiros estão utilizando a técnica de sanitização de pessoas, como afirma reportagem de junho deste ano5. O ato ocorre por meio de uma cabine que pulveriza desinfetante por sujeitos que passam por ela sendo a estrutura batizada com o nome de “cabine de desinfecção”. Nestas cabines são utilizadas algumas das substâncias mencionadas anteriormente, como o hipoclorito de sódio, o quaternário de amônio, e outros sanitizantes que já citamos em nosso texto.

    Uma revisão especializada da ANVISA com bases internacionais não encontrou recomendações ou exemplos sobre a possível eficácia de desinfecção de pessoas com uso de câmaras, cabines e túneis.  Essa revisão incluiu informações de fontes como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos (FDA), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças/EUA (CDC) e a Agência Europeia de Substâncias Químicas (ECHA)5

    A Anvisa ainda recomenda que se escolhido o procedimento de desinfecção, o mesmo não seja realizado com pessoas presentes. Isto porque os saneantes recomendados apresentam características que podem causar, além das irritações e lesões citadas, intoxicação e problemas respiratórios quando inalados. Portanto, a realização da desinfecção de um ambiente com indivíduos presentes (ou à  desinfecção direta de indivíduos) NÃO é recomendada.  No caso da radiação UV, a mesma recomendação pode ser feita, uma vez que ao direcionarmos uma fonte de radiação de alta energia a uma pessoa, danos a estrutura celular de sua pele podem ser gerados.

    Por fim, quanto tempo o ambiente sanitizado fica isento de microorganismos?

    De modo geral, não existem estudos conclusivos sobre a sanitização de ambientes e espaços uma vez que há diferentes variáveis. O ar, a movimentação e dispersão de organismos, vírus e partículas em áreas abertas e espaços com grande movimentação de pessoas (como restaurantes, hospitais, escolas, lojas e academias ou no transporte público) são conjuntos complexos e amplos de estudo, com muitas variáveis e, por isso, dependem de tempo para respostas mais completas. O novo coronavírus ainda é recente e não o compreendemos totalmente. As recomendações para a diminuição da contaminação e do contágio são, grandemente, as medidas para outros vírus já conhecidos como os que causam a SARS ou a MERS e a família influenza.

    Assim, além da sanitização e limpeza de ambientes, teremos que usar máscaras e fazer os diversos protocolos de distanciamento por um bom tempo, pelo menos até novas e mais acalentadoras informações sejam apresentadas. Vale lembrar que ações de sanitização são maneiras a mais de minimizar a contaminação. Isto é, não eliminam os cuidados pessoais diários e a higienização de mãos e roupas sempre que possível. Até o momento, o álcool 70% e a boa e velha água e sabão são as formas mais eficazes e menos agressivas à saúde que conhecemos de fato.

    Para saber mais

    1. Jianyun Lu, Jieni Gu, Kuibiao Li, Conghui Xu, Wenzhe Su, Zhisheng Lai, Deqian Zhou, Chao Yu, Bin Xu, and Zhicong Yang. COVID-19 Outbreak Associated with Air Conditioning in Restaurant, Guangzhou, China, 2020. Emerging Infectious Diseases, Volume 26, Number 7—July 2020.

    2. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA. Nota técnica No 34/2020/SEI/COSAN/GHCOS/DIRE3/ANVISA.

    3. USP. Equipamentos desenvolvidos no IFSC/USP descontaminam superfícies. Assessoria de Comunicação IFSC/USP.

    4. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA. Nota Técnica

    5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA.  Nota técnica No 34/2020/SEI/COSAN/GHCOS/DIRE3/ANVISA.

    Os Autores

    Gildo Girotto Junior é Licenciado em Química (UNESP), Doutor em Ensino de Química (USP) e atualmente é professor e pesquisador no Instituto de Química da Unicamp

    Gian Carlo Guadagnin é estudante de graduação em Licenciatura em História (UNICAMP)

    Cyntia Almeida é estudante de graduação em Licenciatura em Química (UNICAMP)

    Este texto foi escrito com exclusividade para o Blog Especial Covid-19

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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Isolamento social muda a dinâmica do meio ambiente durante a pandemia

    Por Caroline Marques Maia, Luciane Borrmann e Vinícius Nunes Alves

    Benefícios momentâneos ao meio ambiente durante a pandemia não indicam, necessariamente, que a natureza está sendo restaurada dos estragos causados por humanos

    Diminuição da poluição atmosférica em grandes cidades, águas mais limpas, passagem incomum de animais silvestres em centros urbanos, praias vazias com tartarugas desovando em massa. Essas e outras consequências da redução da circulação humana e o seu impacto no meio ambiente têm sido noticiadas durante a pandemia e são importantes para reflexões sobre as questões ambientais no planeta. Mas será que apenas efeitos benéficos estão ocorrendo no meio ambiente em função do distanciamento social? “Alguns animais podem se beneficiar de forma mais imediata, como aves voltando a nidificar em certas áreas ou peixes reocupando canais outrora poluídos, mas mesmo a natureza dando mostras de reparos, isso não significa dizer que esteja se recuperando”, pondera a bióloga Lilian Hoffmann.

    Pela primeira vez em cerca de 80 anos, a montanha Dhauladhar, que faz parte da cordilheira do Himalaia, pôde ser avistada novamente na Índia. Esse fenômeno ocorreu devido à queda da poluição atmosférica pela diminuição da produção nas fábricas e o trânsito reduzido na quarentena. Na China, essa redução chegou a 25% desde o início da pandemia, sendo que o isolamento social no país pode ter salvo entre 50 e 75 mil pessoas da morte devido à poluição, de acordo com a Universidade Stanford

    Para Evangelina Vormittag, médica e doutora em patologia e saúde ambiental da Universidade de São Paulo (USP), conhecida como “Dra. Poluição”, essas reduções de poluição ilustram o quanto se polui o ar diariamente e como o menor consumo favorece um futuro mais saudável e mais sustentável. A médica afirma que “o benefício de um ar menos poluído é imediato para a saúde da população, não apenas para aqueles com doenças respiratórias, mas também para doenças cardiovasculares, principalmente quando se trata de grupos mais sensíveis como crianças e idosos”. 

    Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2018, a poluição do ar foi responsável por 320 mil mortes nas Américas e 51 mil no Brasil por ano. “Enfermidades como asma e infarto são acentuadas pela baixa qualidade do ar e isso tem custos econômicos (perda de produtividade e custo de internação) que podem ser mensurados em estudos científicos de poluição atmosférica sobre a saúde”, avalia Evangelina.

    A poluição atmosférica em centros urbanos, como na imagem, caiu consideravelmente com a redução nas atividades industriais e no trânsito pelo isolamento social. Crédito: Unsplash

    E não é apenas a poluição atmosférica que reduziu nos últimos meses. As águas do rio Ganges no Norte da Índia – um dos rios mais poluídos do mundo – estão ficando mais limpas, como noticiou em abril o jornal indiano India Times.  Mesmo os canais de Veneza na Itália, famosos por seu mau cheiro, estão com as águas mais claras e nítidas por falta de circulação de barcos, fenômeno que foi relatado pelo G1 em março. Até as vibrações que as atividades humanas diárias causam na crosta terrestre diminuíram com o isolamento social, permitindo que os dispositivos sísmicos detectem outros movimentos menores com sinais mais claros, noticiou a revista científica Nature

    Vantagens para a fauna

     Locais antes dominados pela presença humana agora estão dando passagem para animais silvestres como onças-pardas, coiotes e perus nos Estados Unidos, javalis na Espanha, leopardos em vários locais da Índia, cervos no Japão, todos exemplos das recentes aparições registradas em área urbana. E não é apenas a visita desses animais em locais bem urbanizados que tem sido notada. Em Fort Lauderdale, em Miami, a Veneza americana, as águas mais claras possibilitam que os caranguejos no seu habitat natural possam ser observados. 

              Bodes caminhando em bando no País de Gales. Crédito: Conta pública da @bbcbrasil no Twitter

    A fauna ainda está se beneficiando de outras formas por causa da redução na circulação de pessoas durante a pandemia. Um bom exemplo são as notícias, como da revista Veja, sobre tartarugas marinhas desovando em massa nas praias vazias, inclusive no Brasil. Até mesmo animais cativos estão sendo favorecidos. Depois de quase 10 anos de tentativas de acasalamento sem sucesso, o zoológico vazio de Hong Kong registrou esse ato ocorrendo naturalmente entre um casal de pandas, algo que pode ser vantajoso para a conservação dessa espécie. 

    Depois de quase uma década sem reproduzir, pandas acasalam em zoológico sem visitação em Hong Kong. Crédito: HKFP

    Apesar desses efeitos aparentemente otimistas para a fauna, resta a dúvida se todos eles são mesmo saudáveis para os animais. “Muitos animais que visitam as ruas podem estar atrás de comida, por exemplo, entrando em contato com resíduos descartados, e podem acabar se contaminando”, aponta Lilian, que é doutora em Biologia Animal e bolsista do Programa Arquipélago e Ilhas Oceânicas.

    Só impactos positivos?

    Existe também um outro lado sobre as consequências da pandemia atual para o meio ambiente. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), se grandes empresas petrolíferas e políticas econômicas usarem o atual recesso econômico como pretexto para desacelerar a transição para a energia limpa, a redução das emissões globais de carbono que estão ocorrendo neste ano não ajudarão a combater as mudanças climáticas. Por exemplo, na Arábia Saudita houve grandes quedas nos preços do petróleo, o que está fazendo o país aumentar sua produção em parceria com a Rússia. 

    O próprio isolamento social, apesar de diminuir o consumo de energia no segmento industrial, tende a aumentar as contas de energia nas residências. Segundo a Agência Brasil, a despesa do consumo residencial de energia elétrica pode aumentar em até 20%, e as estimativas do Ministério de Minas e Energia indicam que os gastos com o gás natural podem subir até 23%.

    Em um período que os holofotes estão voltados principalmente para a crise da saúde, o Brasil está caminhando para “compensar” a queda na emissão de gases de efeito estufa pela redução de atividades de transporte e de indústrias com uma tendência de aumentar o desmatamento. Como a própria vegetação “sequestra” gás carbônico, o desmatamento resulta em mais gás carbônico (CO2) na atmosfera. 

    Segundo relatório recente do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg) realizado pelo Observatório do Clima,as emissões de carbono devem aumentar até 20% em 2020 devido ao grande aumento do desmatamento”. Isso ocorre principalmente na Amazônia desde 2019, com a gestão do ministro do meio ambiente Ricardo Salles, já denunciado por improbidade administrativa, tanto pelo Ministério Público do Estado de São Paulo quanto pela Associação dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Asibama-DF) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). 

    “Alguns políticos e outros tomadores de decisão se aproveitam do momento de dificuldade de acompanhamento da sociedade para executar ações maléficas ao coletivo, tais como aumento na exploração de minérios, aprovação de legislação inadequada ou ainda destituição de decretos e portarias de proteção de biodiversidade, culturas indígenas e quilombolas. Isso acaba desfazendo resultados de grandes lutas passadas para a proteção de ecossistemas, biodiversidades e culturas”, destaca Camila Domit, bióloga do Centro de Estudos do Mar (UFPR). 

    Há ainda a ameaça de aumento de ações ilegais que prejudicam o ambiente e a fauna quando o foco da população e dos governantes está na manutenção das necessidades básicas e na busca de soluções para a pandemia. “Atividades ilícitas proliferam em épocas de pouca ou nenhuma fiscalização, e pode-se ver isso em atividades como desmatamento, garimpo, tráfico de animais silvestres, caça e pesca ilegal”, aponta Lilian. Um exemplo disso é a associação criminosa voltada para o desmatamento e o garimpo ilegais em terra indígena no Mato Grosso, que foi descoberta e apreendida pela Polícia Federal recentemente com mandados de prisão dos envolvidos, e busca e apreensão das ferramentas.

    Aumento no volume de descartáveis

    Outro impacto negativo é o aumento da quantidade de lixo descartável usado em alimentos e, principalmente, em hospitais. A Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) calculou em março que no país poderia ter um expressivo aumento de geração de resíduos sólidos domiciliares (15 a 25%) e de hospitalares em unidades de atendimento à saúde (10 a 20 vezes). 

    No Brasil, a capital paulista recentemente suspendeu a lei de proibição de materiais plásticos para comercialização de alimentos, supostamente pelas embalagens ajudarem na higienização e na prevenção da doença. Além disso, máscaras e luvas usadas pelas pessoas para proteção estão sendo descartados incorretamente à céu aberto nas ruas, gerando ainda mais poluição no ambiente, inclusive nos próprios oceanos. “A maior parte do lixo que chega às praias vem das cidades e como continua sendo produzido muitas vezes sem destino adequado, continua um problema, afetando negativamente a biodiversidade”, conclui Camila.

    Máscaras usadas para proteção contra o coronavírus são descartadas muitas vezes nas próprias ruas, gerando assim mais poluição no ambiente. Crédito: Pixabay

    A experiência globalizada do isolamento social ilustra que a cultura de produção e consumo têm impactos sobre meio ambiente e fauna. E mesmo os efeitos positivos da pandemia podem ser apenas um alento temporário, mas não a solução para os problemas que a civilização humana causa na natureza, como superexploração e poluição ambientais, e extinção em massa de espécies.

    Lab-19, projeto de divulgação científica de um grupo de alunos do curso de especialização em jornalismo científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor-Unicamp), engajados, como tantos, em contribuir para a disseminação de informações corretas e confiáveis sobre a epidemia de covid-19 para públicos diversos.

    Caroline Marques Maia é bióloga, mestre e doutora em zoologia. Comanda o Blog ConsCIÊNCIA Animal e é gestora-diretora do Clube Ciência e do Writing Center do Instituto Gilson Volpato de Educação Científica (IGVEC).

    Luciane Borrmann é jornalista e educadora ambiental.

    Vinícius Nunes Alves é biólogo, com mestrado em ecologia e conservação de recursos naturais. É colunista do jornal Notícias Botucatu.

  • Podemos comparar estas duas cidades? Exercícios complexos para uma pergunta simples (parte 3)

    No dia 26 de maio me perguntaram sobre a relação entre os casos confirmados e quantidade de óbitos de duas cidades, Porto Alegre e Hong Kong. A ideia geral da pergunta era: estes números são semelhantes?

    Ao tentar responder a pessoa ao que parecia uma pergunta simples, me vi envolta a inúmeras questões importantes sobre todo o fenômeno da COVID-19 e o quanto, também, temos apresentado dados sem que necessariamente as pessoas saibam não apenas receber a informação, mas questioná-las e compreendê-las de maneira menos apressada. 

    A pergunta gerou uma pesquisa que foi se estendendo, se estendendo e cá estamos, no segundo texto da série!

    O primeiro texto pode ser lido aqui. Em resumo, no dia 26 de maio, Porto Alegre tinha 1049 casos confirmados e 32 óbitos. Hong Kong tinha 1066 casos confirmados e 4 óbitos. No primeiro texto, eu busquei analisar algumas questões relacionadas à população total das duas cidades e, também, densidade populacional. No segundo texto, que pode ser lido aqui, eu fiz uma comparação com as datas de 26 de maio e 09 de Junho, mostrando as diferenças entre os números neste meio tempo.

    A outra questão que surgiu ao longo deste debate é sobre a subnotificação e as testagens, que é o que eu discuto hoje!

    Antes de falar dos testes

    Apenas para atualizar os dados das duas cidades

    Porto Alegre

    • 01 de Julho: 3.624 casos confirmados; 1.309 casos recuperados; 94 óbitos; 8.971 casos em análise.
    • 09 de Junho: 1.712 casos confirmados, 45 óbitos, 619 casos recuperados e 4.753 casos suspeitos em análise (aguardando o resultado).

    Hong Kong

    • 01 de Julho: 1.243 casos confirmados; 117 casos ativos; 1.120 casos recuperados; 07 óbitos;
    • 09 de Junho: 1.108 casos confirmados da doença, segue com 4 óbitos, 55 casos ativos (3 destes em estado crítico) e 1049 recuperados.

    Agora vamos à questão dos testes…

    E em que a quantidade de testes nos ajuda?

    Basicamente, testar em massa nos possibilita não apenas aferir quem está doente em situação grave ou gravíssima. Os testes em massa, mesmo em casos em que as pessoas apresentam sintomas muito leves da doença, nos dá condições para um manejo muito mais eficaz da doença e dos doentes.

    Se temos sintomas leves e temos a confirmação, podemos rastrear nossos contatos, testar estas pessoas e sinalizar a necessidade de isolamento (nosso e das pessoas ao nosso redor) até que a fase infecciosa da doença acabe. Podemos compreender melhor a quantidade de pessoas que já foi infectada em nosso município, possibilitando analisar com mais precisão quantos recuperados já temos e a segurança para flexibilizarmos os distanciamentos sociais e de que forma retomaríamos a vida em nosso espaço urbano.

    Além disso, conhecendo melhor a quantidade de infectados – doentes leves, moderados, graves e críticos – poderíamos nos planejar melhor em relação às compras e instalações de equipamentos hospitalares, leitos, contratações de profissionais de saúde em modo emergencial, etc.

    E estes dados são suficientes?

    Bom, eu achei prudente também olhar outros dados, uma vez que muito têm se falado sobre a subnotificação aqui no Brasil. A subnotificação se dá, entre outras coisas, pela quantidade de testes feitos na população. Quanto mais testes fazemos, mais conhecemos realmente quantas pessoas foram infectadas, e conseguimos rastrear melhor os lugares em que a infecção está mais presente, para propor um distanciamento social mais eficaz, correto?

    Eu não achei as testagens totais feitas em Porto Alegre, então eu analisei a partir da média de testes populacionais no Brasil. Como Hong Kong é uma “cidade-estado” estes números absolutos estão nos registros oficiais mundiais. Vale a pena observar que eu consegui apurar estes dados hoje (9 de Junho de 2020) e é a partir deles que eu vou fazer a próxima análise (como se fosse equivalente aos dias anteriores). Vamos dar uma olhadinha nestes números:

    • Hong Kong estava com uma média de 27.082 testes para cada 1 milhão de habitantes no dia 09 de Junho; no dia 01 de julho apresenta uma média de 42.883 para cada 1 milhão de habitantes e fez um total de 321.498 de testes no país;
    • O Brasil estava com uma média de  4.706 para cada 1 milhão de habitantes no dia 09 de Junho; agora apresenta uma média de 15.184 para cada 1 milhão de habitantes e fez um total de 3.227.591 de testes no país.

    Como eu não encontrei o número exato de testes realizados em Porto Alegre (várias cidades não apresentam estes dados, ou não são fáceis de serem encontrados), eu vou supor que obteremos o total de testes diagnósticos feitos na cidade de Porto Alegre somando-se a quantidade de negativos, positivos e em análise.

    Ao analisar o Boletim Epidemiológico de Porto Alegre lançado no dia 26 de maio de 2020, havia registrado um total de 4.105 testes (casos confirmados + casos negativos), enquanto ainda estavam em análise 2743 casos, totalizando 6.848 testes diagnósticos no dia 26 de maio

    Se olharmos o Boletim Epidemiológico de Porto Alegre, lançado no dia 09 de Junho de 2020, observamos os seguintes números: 1.712 casos confirmados; 4.753 casos em análise e 4.614 casos negativos, isto somado teríamos o total de 11.079 testes realizados desde o início da pandemia no dia 09 de Junho.

    Já o Boletim Epidemiológico de Porto Alegre, lançado no dia 02 de Julho de 2020 há um total de 16.410 testes (3.624 confirmados + 12.786 negativos), enquanto ainda estão em análise 8.971, totalizando 25.381 testes diagnósticos no dia 01 de Julho de 20220.

    Hong Kong fez o total de 202.930 de testes diagnósticos até o dia 09 de Junho, o que nos dava uma quantidade de testes 18,31 maior. No dia 01 de Julho, a cidade completou o número de 321.498 testes diagnósticos totais, o que relacionado à Porto Alegre nos dá uma quantidade de testes 29,02 maior.

    Se formos fazer relativo à quantidade de testes por 1 milhão de habitantes (que é a comparação padrão internacional), Hong Kong neste momento está com 42.883 e Porto Alegre com 7.467 testes. Neste sentido, Hong Kong está fazendo 5,74 mais testes por milhão de habitante do que Porto Alegre.

    E a subnotificação?

    O Ministério da Saúde divulgou, no dia 24 de Junho, que os casos suspeitos com sintomas leves começariam a ser testados no SUS. Pois bem, há muito se fala sobre a questão da subnotificação. Um dos dados acerca disto é, exatamente, a falta de testagens em massa na população – ainda estamos longe disto. No mundo, relativamente a testagens por milhão, estamos em 112º lugar. 

    Em artigo publicado dia 24 de Junho, os pesquisadores apontam uma notificação em 9,2% dos casos no Brasil. Neste sentido, o nosso número atual de 1,456,969 de casos, se corrigido seria cerca de 15.836.619 pessoas contaminadas (no Brasil). Outro dado que indica que estamos subnotificando são os casos de Síndrome Gripal e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

    Em Porto Alegre, temos registrados em Pronto Atendimento, em Junho de 2018 um total de 261 casos de Síndrome Gripal. Este número em 2020 foi de 1.274 casos registrados (4,88 vezes mais casos do que dois anos antes). Em Unidades de Atenção Primária temos 289 casos em junho de 2018 e 2.141 casos em junho de 2020 (7,41 vezes mais casos em 2020).

    Se olharmos os números no Brasil, o Painel Coronavírus do Ministério da Saúde aponta este comparativo

    Gráfico retirado do Painel Coronavírus do Ministério da Saúde, no dia 02 de Julho de 2020.

    A SRAG tem sido apontada como um importante indicador de subnotificação por diversos centros de pesquisa, cientistas e divulgadores de ciência (eu mesma já falei sobre isto neste texto aqui). 

    Finalizando…

    Não há muito o que falar sobre a abertura de espaços comerciais, tanto em Porto Alegre, quanto em outras capitais do país. Ao que parece, os planos de abertura estão em andamento com os casos subindo, óbitos batendo recordes e uma alarmante subnotificação ainda presente. As políticas públicas que poderiam estancar a reabertura seguem a passos lentos (quase parados) e a pressão de grandes empreendimentos parece ser maior do que um conjunto de análises científicas em meio à grave crise sanitária. 

    Ainda estamos longe de superar a crise sanitária e de mortes e estamos longe de alcançar um bom plano de abertura, especialmente enquanto a quantidade de testes esteja tão baixa e a subnotificação siga tão presente em nosso cotidiano.

    Mais do que traçar planos sobre a volta às atividades presenciais, deveríamos estar debatendo seriamente planos de manutenção da vida e minimizações de desigualdades sociais que só se acentuam nestes momentos.

    Todavia, esta pauta é de uma vida inteira – e não apenas desta crise sanitária – e ainda temos muito o que fazer, lutar, trabalhar, para as novas distopias, não tão árduas como as que estamos passando agora. 

    😉 Contamos com vocês, inclusive. 

    Encerro estes conjuntos de postagens comparando duas cidades…

    Inúmeras questões foram se abrindo com estas 3 postagens que fiz, comparando Porto Alegre e Hong Kong. Agradeço imensamente às revisões, questionamentos e inquietações que provocaram e a possibilidade de entender mais sobre aspectos que pareciam simples. Ainda há muito o que estudar, em breve apresentarei estas outras arestas que foram se fazendo contundentes ao longo da escrita destas postagens…

    Para escrever este texto, assim como o primeiro, eu contei com a leitura, revisão e boas conversas com uma galera da Divulgação Científica e da Unicamp, que eu faço questão de agradecer aqui:Marco Henrique, do blog zero (que além da revisão e das mil ideias, fez as imagens e corrigiu todos os cálculos! hehehe), o Samir Elian, do blog Meio de Cultura A Erica Mariosa, do blog Mindflow, o Roberto Takata, do blog Gene Reporter e o Professor Hyun Mo Yang, do Instituto de Matemática, Estatística e Ciências da Computação (IMECC) da UNICAMP.

    Para saber mais

    AAA INOVAÇÃO. Linha do Tempo do Coronavírus no Mundo [31/12/19 até 10/06/2020]. Acesso em 09/06/2020.

    BOFF, Thiago (2020) Passageiros e motoristas de linhas que podem ser suspensas afirmam que ônibus circulam lotados em Porto Alegre Gaúcha ZH, Porto Alegre, 26 de Maio de 2020. Acesso em 15/06/2020

    CRONOLOGIA DA PANDEMIA COVID-19. Wikipedia. Acesso em 09/06/2020.

    DIHL, Bibiana. Porto Alegre é a primeira cidade do país a ter decreto de emergência reconhecido pelo governo federal. Gaúcha ZH Porto Alegre, 02/04/2020. Acesso em 09/06/2020.

    GONZATO, Marcelo (2020). Porto Alegre tem a quarta menor incidência de coronavírus entre as capitais. Gaúcha ZH Saúde.

    HONG KONG. (2020a) Coronavirus  Acesso em 15/06/2020

    HONG KONG (2020b) Latest Situation of Novel Coronavirus infection in Hong Kong Acesso em 15/06/2020

    HONG KONG NÃO TÊM (2020) Hong Kong não tem novos casos de coronavírus pela 1ª vez em quase 2 meses. Valor Econômico. Acesso em 09/06/2020.

    LIMA, Lioman. (2020). Coronavírus: 5 estratégias de países que estão conseguindo conter o contágio. BBC Brasil, 18/03/2020. Acesso em 09/06/2020

    MINISTÉRIO DA SAÚDE (2020) Coronavírus Brasil. Acesso em 09/06/2020.

    MOTA, Renato. Países asiáticos voltam a ver seus números da Covid-19 crescerem. Olhar Digital, 07/04/2020. Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE. Secretaria de Saúde (2020a). Boletim COVID-19 nº 65/2020. Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE. Secretaria de Saúde (2020b). Boletim COVID-19 nº 78/2020. Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE. (2020c) Prefeitura prorroga decreto de isolamento social e libera mais alguns setores. Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE (2020d). Vigilância do novo coronavírus mobiliza área de saúde da Capital. Acesso em 15/06/2020

    PORTO ALEGRE (2020e). Saúde Municipal se mobiliza para vigilância do coronavírus

    PORTO ALEGRE (2020f). Boletim COVID-19 n.101/2020.

    Prado, Marcelo Freitas do, Antunes, Bianca Brandão de Paula, Bastos, Leonardo dos Santos Lourenço, Peres, Igor Tona, Silva, Amanda de Araújo Batista da, Dantas, Leila Figueiredo, Baião, Fernanda Araújo, Maçaira, Paula, Hamacher, Silvio, & Bozza, Fernando Augusto. (2020). Análise da subnotificação de COVID-19 no Brasil. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, Epub June 24, 2020.https://doi.org/10.5935/0103-507x.20200030

    ROCHA, Camilo. (2020). Os estudos que mostram o impacto positivo do isolamento social.   Nexo Jornal, 21 de abr de 2020. Acesso em 09/06/2020.

    SORDI, Jaqueline (2020). Lupa na Ciência: Estudos mostram eficácia do isolamento social contra Covid-19 e projetam cenários. Agência Lupa, 20 de abril de 2020. Acesso em 09/06/2020.

    YUGE, Claudio. (2002). Países que já haviam controlado a COVID-19 confirmam a 2ª onda de infecções. Canal Tech, 06 de Abril de 2020. Acesso em 09/06/2020.

    WORLDOMETERS. Coronavírus. Acesso em 09/06/2020.

    ZUO, Mandy; CHENG, Lilian; YAN, Alice e YAU, Cannix. (2019). Hong Kong takes emergency measures as mystery ‘pneumonia’ infects dozens in China’s Wuhan city.South China Moorning Post,  31 dezembro de 2019. Acesso em 09/06/2020.

    Este post foi escrito para o Especial COVID-19

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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Especial Covid-19: 100 dias

    O Brasil e a Universidade em Março

    Lançamos o Especial Covid-19 dia 20 de março de 2020. No dia 27 de junho, completamos 100 dias de trabalho dedicado no Blogs de Ciência da Unicamp. O que aconteceu neste meio tempo (ou um pouco antes do lançamento)?

    O primeiro caso confirmado no Brasil data de 26 de Fevereiro. No dia 20 de março, dia de lançamento do Especial Covid-19 no Blogs, tínhamos 977 casos confirmados da doença, com 11 óbitos. Aos 100 dias do especial, tivemos 1.313.667 casos confirmados, 57.070 óbitos.

    Tela do Painel Coronavírus em 27.06/2020

    A Universidade Estadual de Campinas interrompeu as atividades presenciais no dia 14 de março. O anúncio sobre a parada foi feito um dia antes. Outras universidades foram parando suas atividades nos dias seguintes e as escolas até o final do março estavam praticamente todas com as aulas suspensas também.

    A equipe do Blogs já vinha estudando temas específicos sobre a Covid-19 e o Novo Coronavírus. Alguns blogs individuais iniciaram suas publicações entre os dias 18 e 19 de março. Entre os dias 14 e 19 de março, o comitê editorial do Blogs reuniu-se e decidiu elaborar um especial dedicado integralmente à Covid-19. Neste sentido, o Especial Covid-19 priorizou atualizações técnico-científicas sobre a doença e seus efeitos na sociedade, conhecimentos básicos para entender melhor os números, tabelas e gráficos que vem sendo veiculados, as notícias, além de materiais para crianças, entrevistas, arte, etc.

    Um trabalho coletivo

    Não há o que comemorar nestes tempos. Em 100 dias de Covid-19 nós temos um balanço de nosso trabalho e reflexões sobre o que consideramos o papel da Divulgação Científica no enfrentamento da doença em nosso país…

    Foram 100 dias de trabalho. O que fizemos neste tempo? Investigamos os acontecimentos diariamente, analisando artigos publicados em modo “pre-print”, conversando com especialistas, elaborando pautas, combatendo fake news, participando de entrevistas, lives, podcasts em vários canais de divulgação científica. Neste meio tempo, também integramos a Força Tarefa da Unicamp, na Frente de Comunicação. Um esforço feito por toda a equipe do Blogs de Ciência da Unicamp, que inclui vários blogueiros e colaboradores, para que a compreensão desta doença se faça mais acessível possível.

    100 dias de Especial Covid-19

    100 dias de Especial Covid-19

    Foram 103 postagens, com 43 autores. Destes, 63% são mulheres, 37% homens. Cientistas que já atuavam como Divulgadores Científicos, ou que iniciaram seu trabalho neste campo, para o nosso Especial. Para os novos escritores, também incluímos um breve treinamento e conversas sobre as primeiras publicações. Além disso, todas as postagens do especial passam por uma revisão técnica e científica, tudo para a Divulgação Científica cumprir seu propósito. Isto é: a preocupação de comunicar informações corretas e linguagem acessível.

    Também ressaltamos, neste aspecto, que o Especial Covid-19 tem diferenças, comparadas com os outros três especiais já lançados pelo portal. Inicialmente por não ter um tempo delimitado de publicações. Optamos por deixar o especial no ar, com postagens atualizadas pelo tempo que for necessário. Outra diferença é a presença de autores convidados, além dos blogueiros do portal. Por fim, também contamos atualmente com os blogueiros do ScienceBlogs Brasil, que desde março integraram o Blogs da Unicamp.

    Desde o dia 20 de março, ao completar 100 dias de Especial no dia 27 de Junho, tivemos 218 mil visualizações ao material elaborado pelos autores, além de 301 mil e 386 mil acessos via Facebook e Twitter, respectivamente. Destes acessos, temos uma faixa etária predominante entre 25 e 34 anos e 54% dos leitores são mulheres e 46% homens. Nestes 100 dias, nosso portal geral alcançou a marca de 807 mil acessos. Também ressaltamos, neste meio tempo, um crescimento expressivo de seguidores em todas as mídias sociais.

    Um balanço geral

    A Divulgação Científica proposta pelo Blogs de Ciência da Unicamp é feita a muitas mãos, grande parte em um trabalho voluntário presente tanto na equipe administrativa e técnica, quanto na produção de conteúdos pelos blogueiros. Todo este coletivo de pessoas tem, como princípio, o compromisso com o desenvolvimento de propostas que articulem ciência e sociedade por meio da comunicação.  

    No Especial Covid-19, esse compromisso fica ainda mais evidente, dado o impacto das informações sobre a pandemia não apenas na saúde pública, mas em todas as áreas da sociedade. Quando iniciamos tudo em 20 de março, não imaginávamos que seriam tantos dias em isolamento (para quem conseguiu se manter em isolamento). Ainda conhecíamos muito pouco sobre a doença. Hoje conhecemos mais, mas temos conosco que ainda há muito o que aprender (com e sobre a doença).

    Nesse meio tempo, crescemos. Ampliamos não apenas nosso trabalho, mas a nossa compreensão do papel da divulgação científica em um mundo que enfrenta uma de suas maiores crises dos últimos anos (e certamente a maior crise de grande parte das pessoas que nos lê…). O conhecimento, para nós, é ferramenta para viver e entender a sociedade. Dessa forma, a divulgação científica é um dos modos de traçar este diálogo, entre o que é produzido dentro de centros de pesquisa (e aqui no Brasil, majoritariamente dentro de Universidades Públicas, como a UNICAMP) e as pessoas de uma sociedade.

    O Especial Covid-19, e toda a equipe que vem trabalhando neste especial, seguirá neste propósito de diálogo enquanto esta divulgação se fizer necessária, agradecendo a todos que escrevem, estudam, publicam, lêem, compartilham, comentam e nos ajudam a tornar nosso trabalho possível a cada dia.