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  • A Covid-19 e o negacionismo

    Enquanto a Covid-19 faz milhares de vítimas fatais pelo mundo e as autoridades em saúde pública orientam o isolamento social como método mais eficaz de contenção de sua disseminação, parte da sociedade assiste, estarrecida, ao discurso de políticos que seguem negando os fatos com foco na recuperação da economia, mesmo ao custo de “algumas” vidas. Veiculados como gesto em prol do trabalhador, conceitos formulados por Noam Chomsky e Antonio Gramsci mostram que o discurso negacionista tem outros beneficiários.

    O fenômeno do negacionismo não é novo, remonta aos anos 1940, em que se tentou provar a ausência de culpa da Alemanha pela Segunda Guerra Mundial. Isso se fez a partir da  banalização, justificativa ou mesmo negação da existência dos campos de extermínio e do holocausto. Em síntese, da defesa e da reabilitação de Adolf Hitler (MORAES, 2004:757). Apesar de se autodenominarem “revisionistas históricos”, os negacionistas nada têm de revisores, uma vez que a revisão histórica se dá diante de novas evidências ou de novas questões que se colocam. Já os negacionistas estão preocupados em negar as evidências, sem apresentar algum fato que o permita fazê-lo.

    Sob uma perspectiva psicológica, o jornalista Michael Specter, explica que, para todos nós que já estivemos diante de verdades dolorosas, a negação parece ser a única forma de lidar com elas. Specter afirma também que nessas circunstâncias os fatos, por mais detalhados ou irrefutáveis, raramente fazem diferença. Assim, para o escritor americano, o Negacionismo “é negação em larga escala – quando um segmento inteiro da sociedade, muitas vezes lutando com o trauma da mudança, se afasta da realidade em favor de uma mentira mais confortável” (SPECTER, 2009).

    Dessa forma, temos duas vertentes de negacionistas: os históricos, que negam o Holocausto, e os científicos, dentre os quais estão os climáticos (que negam o Aquecimento Global), os terraplanistas (que negam as evidências de um planeta aproximadamente esférico) e até os da AIDS (que negam, acreditem, o vírus HIV ser o causador da síndrome). Sem falar nos movimentos de design inteligente, antivacinas, e outros tantos que ganharam força com o advento da internet e das redes sociais. 

    Para estabelecer a relação deles com a Economia vamos relembrar um filósofo (por coincidência) italiano chamado Antonio Gramsci (1891-1937) que elaborou os conceitos de Bloco Histórico, Hegemonia, e Bloco Ideológico. Para ele, o Bloco Histórico de um sistema é composto por uma Estrutura socioeconômica, relacionada às forças produtivas, e por uma Superestrutura de natureza político-ideológica. Deduz-se que as grandes corporações do setor privado atuam na estrutura do bloco, formando a classe dirigente fundamental e os políticos e os intelectuais atuam na superestrutura. Para que uma classe dirigente em minoria consiga subordinar uma maioria é necessário que estes tenham um comportamento social adequado à necessidade produtiva daqueles. 

    Esse comportamento pode ser conseguido por meio da força (a coerção é sempre latente, mas não desejável) e do consentimento. Na maioria das vezes, a hegemonia é suficiente para assegurar o comportamento social esperado (Cox, 1993:52). Por isso, a atuação do o Bloco Ideológico é tão importante, pois, formado pelos intelectuais orgânicos e atuando na superestrutura, ele vai impregnar na sociedade os valores culturais necessários para que os dominados sigam consentindo essa dominação. Ou como explicou o dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) no texto Se Os Tubarões Fossem Homens: “Se os tubarões fossem homens (…) Se cismaria nos peixes pequenos que esse futuro / Só estaria garantido se aprendessem a obediência”. (BRECHT, 2018)

    E qual a relação disso com a atual negação da letalidade da Covid-19 por políticos?

    O Bloco Histórico vigente é o sistema capitalista neoliberal. Segundo Noam Chomsky (2017), o triunfo ideológico das “doutrinas de livre mercado” possibilita que decisões políticas se traduzam em polpudos lucros pagos a altos executivos e suas empresas. Na prática, as grandes empresas que têm grande poderio econômico, financiam campanhas eleitorais de atores políticos, de diferentes espectros ideológicos (diga-se). Isso, para que eles, uma vez eleitos e legitimados pelo voto popular (embora tenham prometido trabalhar em favor deste), possam ser representantes dos interesses dessas empresas, passando a legislar a seu favor, aqueles a que Chomsky vai chamar de “servos do capital privado”. Dessa forma, elas vão acumular ainda mais lucros e concentrar ainda mais renda, fechando o círculo.

    Assim, à medida em que a Covid-19 afeta a Economia, informações para minimizar esse impacto passam a ser produzidas e disseminadas pelo Bloco Ideológico (Blogs, sites, perfis de redes sociais, influenciadores) e pelos simpatizantes do sistema vigente. Então, não é difícil encontrar nos meios de comunicação dos apoiadores do atual governo mais e mais teorias da conspiração negando a letalidade do vírus e, mais recentemente, ao se depararem com a realidade das mortes, passaram a negar sua causa

    Entendidos esses aspectos, a frase do atual Presidente da República do Brasil “Vão morrer alguns, do vírus? Sim, vão morrer (…) Lamento. Tá? Agora não podemos criar esse clima todo que está aí. Prejudica a economia!” suscita uma interpretação diversa daquela que inicialmente seu emissor pretendeu transmitir.

    O Brasil não pode parar, sobretudo quando o interesse do grande capital está em jogo. Se todos vão morrer um dia, que seja indo alegres “para as goelas dos tubarões”.

    Bibliografia

    • BRECHT, Bertolt. Se os tubarões fossem homens. Olho de Vidro, 2018.
    • CHOMSKY, Noam. Quem manda no mundo?, São Paulo, Planeta. 2017.
    • COX, Robert W. Gramsci, hegemony and international relations: an essay in method. Cambridge Studies in International Relations, Cambridge, Cambridge University Press, v. 26, p. 49-66, 1993. Disponívelç em <encurtador.com.br/lFX78> Acesso em 28 mar. 2020 
    • GASTALDI, Fernanda C. Gramsci e o negacionismo climático estadunidense: a construção do discurso hegemônico no Antropoceno. Revista Neiba, Cadernos Argentina Brasil, v. 7, n. 1, 2018. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/neiba/article/view/39247 Acesso em 28 mar. 202
    • GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere, v. 2 — Antonio Gramsci: os intelectuais. O princípio educativo. Jornalismo. Ed. e trad. de Carlos N, Coutinho. Coed. de Luiz S. Henriques e Marco A. Nogueira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000
    • MORAES, Luís E. S. “O Revisionismo Negacionista” In: SANTOS, Ricardo Pinto dos (org.) Enciclopédias de Guerras e Revoluções do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
    • SPECTER, Michael. Denialism: How irrational thinking harms the Planet and threatens our lives. Penguin, 2009. 

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Coronavirus, quarentena, e energia

    E aí pessoal? Como estão.

    No dia que este texto é publicado, existe uma situação de quarentena devido ao coronavírus. Fiquem em casa quando puder, e escutem sempre os especialistas em relação ao coronavírus e como preveni-lo.

    Esse texto é para abordar o consumo de energia atual (ano de 2019) e o correspondente estado de pandemia.

    Covid-19 Vírus Coronavírus - Imagens grátis no Pixabay

    Contextualizando

    Segundo o recente relatório da OMS, o consumo de energia no geral tem previsão de queda de 0,9% em 2020, sendo que a previsão anterior era um aumento de 4,2%. Tanto que na segunda quinzena de março desse ano, o consumo de energia caiu 8%, sendo que 9,4% é correspondente ao mercado livre de energia e 7,4% do mercado cativo (comércio de rua e residências)[1][2].

    Isto pois o consumo das outras classes, como o comercial, diminuíram, com exceção do consumo residencial, que aumentou. No consumo residencial, por exemplo, o uso da internet aumentou, tendo em vista compras virtuais, serviços de streaming (Netflix), dentre outros[3][4]. Como as pessoas estão ficando mais em casa, é normal que o consumo de energia aumente nesses locais.

    Inclusive, devido a essa crise, há projetos sendo implementados, como suspensão de pagamento de contas básicas, como a de luz, água, dentre outras[5].

    Futuro

    Bem, o futuro não se sabe muito dele ainda, mas pode-se fazer as previsões:

    – Aumento em investimento em sistemas de ventilação, de forma que eles previnam que as pessoas contraiam o coronavírus. As aplicações seriam em veículos públicos, como o metro, ou em locais de trabalho[6]. Nunca se sabe quando uma nova pandemia irá surgir.

    – Incentivo maior a fontes renováveis de energia, tais que elas possam suprir parte do consumo de energia do usuário (inclusive em sistemas não conectados a rede elétrica). Tal medida visa a redução das suas contas, tendo em vista que situações como essa aumentam o consumo doméstico[7].

    – Maior educação energética, de forma a orientar as pessoas a reduzir ou otimizar seu consumo. Neste mesmo blog, há uma série sobre dimensionamento de fontes de energia, cujo primeiro texto trata sobre o consumo dos aparelhos de cada local. Tal texto é importante para se ter uma noção do estudo de consumo.

    Mais alguma previsão? Deixe nos comentários. Até a próxima.

    Referências

    [1] PAMPLONA, Nicola, Consumo de energia cai 8% em primeiras semanas de isolamento por coronavírus, Folha de São Paulo, disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/04/consumo-de-energia-cai-8-em-primeiras-semanas-de-isolamento-por-coronavirus.shtml>, acesso em: 5 abr. 2020.

    [2] LIS, Laís, Coronavírus: isolamento social altera horário de pico de consumo de energia, diz governo, G1, disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/04/02/coronavirus-isolamento-social-altera-horario-de-pico-de-consumo-de-energia-diz-governo.ghtml>, acesso em: 5 abr. 2020.

    [3] PEZZOTTI, Renato, Estudo aponta tendências do “novo consumo” em tempos de coronavírus, UOL, disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/20/estudo-aponta-tendencias-do-novo-consumo-em-tempos-de-coronavirus.htm>, acesso em: 5 abr. 2020.

    [4] OLIVEIRA, Priscilla, Coronavírus altera hábitos de consumo e impacta mercado, Mundo do marketing, disponível em: <https://www.mundodomarketing.com.br/ultimas-noticias/38582/coronavirus-altera-habitos-de-consumo-e-impacta-mercado.html>, acesso em: 5 abr. 2020.

    [5] GUEDES, Aline, Projetos preveem suspensão da cobrança de contas básicas durante crises, Agência Senado, disponível em: <https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/03/25/projetos-preveem-suspensao-da-cobranca-de-contas-basicas-durante-crises>, acesso em: 5 abr. 2020.

    [6] CONCA, James, The Coronavirus pandemic and the long-term energy outlook, Forbes, disponível em: <https://www.forbes.com/sites/jamesconca/2020/03/31/the-coronavirus-pandemic-and-the-long-term-energy-outlook/#5015fa8c7d39>, acesso em: 5 abr. 2020.

    [7] BAHAR, Heymi, The coronavirus pandemic could derail renewable energy’s progress. Governments can help., International Energy Agency – IEA, disponível em: <https://www.iea.org/commentaries/the-coronavirus-pandemic-could-derail-renewable-energy-s-progress-governments-can-help>, acesso em: 5 abr. 2020.

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Fake News e Auxílios em tempos de Pandemia

    Em tempos como os que temos vivenciado agora, é comum montarmos redes de apoio às instituições como hospitais, centros de saúde e de pesquisa, instâncias de distribuição de alimentos e roupas à comunidades desabastecidas e em fragilidade social. Tudo isto não só é válido, mas é fundamental, pois mesmo quando o poder público é organizado e tem ações efetivas, as emergências nos tempos de calamidade são demasiadas.

    No entanto, também é tempo de termos cuidado redobrado com golpes que se apresentam cotidianamente nas redes sociais, em especial em compartilhamentos em mensagens instantâneas, como grupos de WhatsApp, por exemplo. 

    Assim, alguns cuidados específicos em relação às doações para a unicamp são fundamentais:

    1. Desconfie de pedidos de depósitos em que a pessoa jurídica não seja diretamente a UNICAMP ou o Hospital de Clínicas da Unicamp;
    2. Confira todas as informações da mensagem: a quanto tempo as associações e fundações que estão pedindo ajuda existem? O CNPJ delas confere? É relacionado ao que está dizendo ser, na carta ou mensagem recebida? Existe rede social desta instituição? Existe informações precisas, nomes dos envolvidos? No site da Unicamp e do Hospital de Clínicas estas informações também estão presentes nos canais de ajuda?
    3. Confira sempre e toda a vez o site da Unicamp e do Hospital de Clínicas para ter certeza absoluta que esta parceria existe;
    4. A Unicamp tem um link específico para doações, se realmente quiseres ajudar, estes canais são diretamente relacionado à instituição:
      https://www.unicamp.br/unicamp/coronavirus/doacoes
      https://www.unicamp.br/unicamp/orientacoes-sobre-como-proceder-para-realizar-doacoes
      Vocês também podem se informar melhor pelos e-mails:
      amigosdohcunicamp@hc.unicamp.br
      combatecorona@unicamp.br
      Ou ainda pelo telefone (19) 3521-2020 (fixo e WhatsApp)
    5. Todos os sites têm especificações que nos ajudam a rastrear falsidades. Todas as informações da unicamp estão em endereços dentro do domínio “unicamp.br”, sempre verifique esse detalhe no seu navegador. O Hospital, por exemplo tem como endereço na internet:
      https://www.hc.unicamp.br
      o Blogs de Ciência da Unicamp, que é outro portal que tem apresentado notícias e informações sobre o covid, também apresenta o mesmo domínio:
      https://www.blogs.unicamp.br e https://www.blogs.unicamp.br/covid-19

    Em outras universidades e hospitais públicos também você deve ter o mesmo cuidado! Especialmente em um período como este, os golpes estão proliferando nas redes sociais e nem todo golpe é simples de identificar! Sempre procure os canais oficiais de comunicação das instituições que você gostaria de auxiliar, é mais seguro e eficiente.

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Solidariedade: saúde para todos

    Szachna Eliasz Cynamon (1955-2007), um dos maiores sanitaristas e pesquisadores da Fiocruz, em 1990 afirmou que “solidariedade à saúde tem de ser para todos. É um aforisma tecnicamente provado que ‘sem a saúde do vizinho, a tua corre risco’”.

    Temos visto muitas recomendações e indicações de cuidados próprios. Lavar as mãos o mais frequente possível, não passar a mão no rosto (boca, nariz, olhos…), tapar boca e nariz ao espirrar, passar álcool gel nas mãos, dentre outras prescrições.

    #fiqueemcasa

    A recomendação mais contundente de todas têm sido, entretanto, o “fique em casa”. Prescrição difícil de seguir em um país como o Brasil, aquele clássico clichê (não menos verdade por isso), “um país de dimensão continental”. Um país com o povo acostumado à rua, ao sol, às lidas diárias no campo, aos transportes públicos abarrotados nos centros urbanos, às praias no litoral, aos bares ao fim de tarde, o chimarrão na calçada com vizinhos, almoços coletivos aos finais de semana, conversas aleatórias com desconhecidos em filas de bancos e padarias… Em suma, uma vida de intensa interação social, com muitos trabalhos que não podem deixar de serem feitos… E agora? Como se cumpre isso em um país como o nosso?

    São tempos de solidariedade, como nos disse Cynamon. Há quem, realmente, não possa parar de transitar. Há quem não tenha sabão para se limpar. Também há quem não tenha acesso e condições de aferir informações… Vamos pensar juntos sobre isso?

    Sobre as informações e nossas ações…

    Temos publicado aqui no blogs, assim como temos visto em diversos outros espaços de jornalismo científico e divulgação científica, inúmeros materiais sobre cuidado de si e informações que nos possibilitam compreender melhor o que é o vírus e como ele se dissemina. 

    Uma das grandes dificuldades em tempos de pandemia é filtrarmos informações, não cairmos na tentação de nos agarrarmos em promessas de curas rápidas e discursos sedutores de que tudo vai melhorar ali, logo após a curva. 

    São montantes de informações que vocês (e nós), leitores e consumidores de notícias, recebem diariamente. E são vários e vários artigos e relatórios científicos publicados também apressadamente para ampliarmos a rede de debate e compreensão da doença e de como combatê-la.

    Veja, a informação deve ser filtrada (seja nos grupos de whatsapp, lives com especialistas, jornais televisionados, em rádios, seja de youtubers e, até, dos blogs de ciência, óbvio!) de modo a gerar uma eficiência em nossa vida. Como assim? Que eu compreenda a doença e os cuidados necessários para mim e quem está próximo, mas que não potencialize a ansiedade de cada um de nós (para saber mais sobre excesso de informações, pode ler aqui). 

    E as implicações sobre as informações não se restringem à “biologia” da doença. Cada fala nossa diz respeito a vidas humanas, com complexidades que, quando em nosso âmbito privado, falam de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Dizemos isto pois números, definitivamente, não são e não representam as pessoas. Mas falam das suas vidas, seus adoecimentos e suas mortes.

    Sobre a solidariedade…

    Ser solidário é, dentre outras coisas, compreender que não somos nós, individualmente, que a doença atinge. Cuidar da saúde dos outros é cuidar da nossa, como disse Cynamon em 1990. Ademais, a máxima “conhecer para governar” nunca fez tanto sentido. Não é possível governar com base em opiniões pessoais. É preciso debate com decisões rápidas sim, com corpo técnico, com grupos e redes de consultas e conhecimento acumulado também, para uma decisão que vise ao bem de todos e não de pequenas parcelas.

    O isolamento social, por exemplo, é historicamente uma ação prática e efetiva em doenças em que o contágio se dá pelo toque entre pessoas (já falamos disso aqui). É, à primeira vista, prejudicial socialmente e economicamente, mas salva vidas na prática imediata. Viabiliza que contenhamos o espalhamento da doença, enquanto ganhamos tempo para compreendê-la melhor e aprimoremos os modelos epidemiológicos já existentes para pandemias e epidemias anteriores.

    Há exemplos de silenciamento dos casos e de não disponibilizar informações seguras à população que pioraram, e muito, o quadro de adoecimento em epidemias que poderiam ter matado menos pessoas (como o caso da epidemia de meningite no Brasil, entre 1971 e 1975). Há modelos sendo pensados, a partir de negligências e acertos sobre a pandemia da gripe espanhola, em 1918.

    Nenhum destes modelos fará com que vidas parem de serem exterminadas pelo SARS-Covid-2, causador da Covid-19. Mas nos possibilita olhar comportamentos que potencializaram ou minimizaram perdas. Semana passada, por exemplo, tivemos a notícia do auxílio emergencial (aprovado hoje, dia 30/03, no Senado Federal). Também emergem no país diversas ações solidárias para bairros e populações com menor condição financeira para manterem-se neste período de isolamento.

    E aí? O que fazer de tudo isto?

    Ao fim e ao cabo, nossa fala não diz respeito a tirar esperança das pessoas com números mais ou menos assustadores. Mas mostrar que não há milagre, fora a teimosia cotidiana de seguirmos vivos.

    Nesta semana que passou, ouvimos relatos de São Paulo – a maior capital brasileira e o maior epicentro do coronavírus, esvaziar e encher – mesmo sem lotar – de gente novamente (como nas fotos abaixo da rua São Bento, destacando para o dia 27/03, após discurso público minimizando a importância da quarentena). 

    Fotos de arquivo pessoal de alguém que (ainda) não foi liberado de seu trabalho, tiradas no mesmo ponto da rua São Bento (Centro Histórico, São Paulo/SP), entre os dias 23 e 30 de Março de 2020.

    Reiteramos, aqui, nossa crítica a qualquer fala que amenize a gravidade da situação e proporcione um aumento da circulação de pessoas às ruas. Afirmamos, assim, que a solidariedade, a que nos remete Cynamon, se faz debatendo ciência – questionando-a também (visto que é com questionamento que avançamos e este é o pressuposto mais básico e fundamental da ciência). Solidariedade se faz combatendo “milagres que curam” (mas não curam nada) e vãs esperanças, notícias falsas e opiniões fraudulentas. Solidariedade se faz, por fim, ficando em casa também, batalhando para poder ficar e cobrando (inclusive de órgãos competentes e do poder público) para que possamos ficar, possibilitando uma diminuição do contágio.

    Leia também neste blog

    Alguns questionamentos sobre governo, um vírus e a fome

    Para saber mais:

    CYNAMON, Szachna Eliasz. (1990). Saúde Pública, qualidade de vida. Cadernos de Saúde Pública, 6(3), 243-246. https://doi.org/10.1590/S0102-311X1990000300001.

    FOUCAULT, Michel. (2002). Em defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes.

    ___. (2008). Segurança, Território e População. São Paulo: Martins Fontes.

    GENSINI, Gian Franco; YACOUB, Magdi H.; CONTI, Andrea A. (2004). The concept of quarantine in history: from plague to SARS. Journal of Infection. 49(4), 257-261. https://doi.org/10.1016/j.jinf.2004.03.002

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Alguns questionamentos sobre governo, um vírus e a fome

    “Eu tenho quase certeza que não vou morrer por causa desse vírus aí, mas se eu parar de trabalhar eu e toda a minha família vamos morrer de fome”.

    “Eu tenho quase certeza que não vou morrer por causa desse vírus aí, mas se eu parar de trabalhar eu e toda a minha família vamos morrer de fome”.

    Foi no dia 18 de março que ouvi pela primeira vez essa frase, dita por um motorista de Uber, e que logo depois se tornou tão popular na mídia conjuntamente à progressão da pandemia de COVID 19 no país. Naquele dia fui à São Paulo para participar em um programa de rádio sobre Fome e Direitos Humanos. A universidade na qual eu realizo minha pesquisa de doutorado, Unicamp, havia cancelado todas as atividades até o dia 14 de abril e eu já estava em uma quarentena auto imposta pois tinha participado de muitos eventos com pessoas recém chegadas da Europa.  Por esses e outros motivos, a ida para São Paulo me deixava um pouco ansiosa, principalmente ao saber que a cidade se configurava como o epicentro da doença no Brasil. Depois de confirmar com os organizadores do programa que a entrevista ia acontecer de qualquer maneira, me preparei para a viagem tentando seguir ao máximo as medidas de higiene recomendadas.

    No entanto, ao entrar na cidade fui percebendo que a vida por ali estava beirando a normalidade. Pessoas estavam trabalhando em lojas, havia vendedores de água e salgadinhos nos semáforos, os restaurantes estavam cheios e os ônibus municipais estavam tão lotados como usual. Assim, temendo contaminar alguém com a doença que nem sabia se tinha, resolvi chamar um Uber e, no caminho, comecei uma conversa que resultou na frase com a qual iniciei este texto.

    A afirmação do motorista ficou martelando na minha cabeça durante todo o dia. Mais do que isso, foi essencial para me fazer pensar na relação entre a fome, os direitos sociais básicos e a epidemia que estávamos por enfrentar – o que acabou sendo o principal tópico de discussão da entrevista naquela manhã.

    A comida sempre foi boa para pensar, como afirmou Lévi-Strauss (1929). Mas em relação à pandemia do COVID-19, a comida é objeto essencial para entendermos melhor os efeitos desta doença, não apenas compreendendo-a como epifenômeno de relações sociais mais amplas. Principalmente, porque o novo coronavírus tem suposta origem no consumo de animais exóticos e porquê sua epidemia impôs quarentena e distanciamento social para um número massivo da população mundial. E isto acabou impedindo ou alterando o acesso a direitos sociais mais básicos, tais como alimentação, habitação e saúde, que a atenção ao tema da comida e à garantia de acesso a ela é de extrema relevância.

    Estou certa, assim como diversos pesquisadores e cientistas das mais variadas áreas, que a atual pandemia pode ser compreendida como um momento crucial para repensarmos categorias  estruturais de nossa vida em sociedade como a economia, a política, o governo e o Estado. Assim, a discussão sobre o acesso à comida enquanto necessidade básica para a sobrevivência parece ser um bom ponto de partida.

    Em 1948, com a criação das “Nações Unidas”, após o fim de uma das maiores crises globais até então vivida, foi assinado a “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, na qual o artigo 24 afirma:

    “Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle” (ONU, 1948).

    Essa declaração, apesar de não constituir uma obrigação jurídica para os Estados, se propunha como uma resolução com o objetivo de evitar uma nova situação catastrófica como aquela experienciada durante a Segunda Guerra Mundial. 

    No momento atual, ao prestarmos atenção nas implicações que a epidemia de COVID-19 pode trazer para a sociedade como um todo, somos incitados a questionar se esses direitos foram em algum momento realmente garantidos, pelo menos para parte da população mundial.

    Retomando a afirmação do motorista de Uber, mas também considerando o que os trabalhadores das mais diversas áreas têm reivindicado nesse momento, podemos nos atentar para a precariedade de muitas vidas. Talvez, grande parte da população nunca teve garantido “o direito à segurança em caso de perda dos meios de subsistência fora de seu controle” (ONU, 1948).

    Penso, então, que o que essa pandemia está nos ensinando reside precisamente nos efeitos do vírus para além do tempo da ‘declarada pandemia’, modificando ou questionando ideias acerca do próprio conceito de ‘vida’ e subsistência.

    A comida que é usualmente um objeto renegado ao setor privado de nossas vidas, o domínio do oikos, vista como parte de uma esfera afastada da política, define agora, talvez mais do que nunca, aqueles que podem viver ou os que são deixados para morrer. E nesse processo, acaba por definir também o que é entendido por economia (oikos) e qual a sua importância na ‘feitura do Estado’ (Lima, 2012).

    De acordo com o Ministro da Saúde, Luis Henrique Mandetta, “a vida não se resume a uma doença, a um vírus”. Essa afirmação pode sim ser um consenso, no entanto, podemos questionar, a que se resume a vida então? Quais são os mínimos vitais que precisam ser estabilizados para que algo possa ser definido como vida? Que vida é essa que seguiremos tendo após a resolução dessa pandemia (e aqui não penso uma resolução no sentido de fim ou cura do problema)?

    Um dia após essa constatação do Ministro da Saúde, o presidente Jair Bolsonaro aprovou uma medida provisória (MP) que buscava soluções para a crise econômica decorrente do COVID-19. Um dos pontos mais polêmicos da medida permitia a suspensão de contratos de trabalho por até quatro meses durante o período de calamidade pública no país, desde que fossem disponibilizados cursos de formação online para os trabalhadores. Esse ponto foi rapidamente removido da MP após grande mobilização virtual da população, mas o poder executivo federal segue tentando barrar toda possibilidade de criação de medidas que garantam um padrão de vida adequado para todos os cidadãos, com a justificativa de que essas ações poderiam quebrar a economia do país. 

    No entanto, se nos atentarmos aos dados sobre trabalho no país percebemos que a taxa de informalidade é de 41%, o que equivale à 38,8 milhões de trabalhadores sem carteira registrada. Esses números sugerem então um baixo impulso na economia, pois normalmente o trabalho informal está associado à baixos salários, além de não permitir a garantia de estabilidade e segurança no provimento familiar. Em um contexto de crise são esses trabalhadores e suas famílias que são colocados, de uma hora para outra, em condição de total precariedade.

    Face a esse problema, no dia 24 de março, o presidente Jair Bolsonaro, fez um pronunciamento oficial televisionado em todo o país, mostrando sua preocupação com a atual situação econômica. Em sua fala, tentando minimizar os efeitos da crise, afirmou que o COVID-19 não passa de uma “gripezinha” e que por isso somente os idosos e os casos suspeitos deveriam ser mantidos em quarentena e o resto da população deveria continuar vivendo normalmente, isto é, produzindo e consumindo.

    A oposição entre economia e vida parece ser elemento central na forma de gestão do atual governo, o que nos incentiva a questionar então, como garantir um padrão de subsistência adequado para toda a população se o Estado não está disposto a manter grande parte dos cidadãos protegidos do vírus?

    Apesar de parecer um questionamento um tanto inocente, penso que o novo coronavírus pode trazer a possibilidade de repensarmos algumas oposições dadas como ‘naturais’ que operam em nossa vida em sociedade, sendo a principal delas a oposição entre a esfera da economia e a da política. Acredito que o direito à comida ou próprio fenômeno da fome podem nos ajudar a trazer luz aos aspectos mais materiais que informam esse dualismo.

    Se pensamos a economia enquanto diretamente associada à manutenção da vida, isto é, como instrumento de produção e reprodução das condições materiais necessárias à existência humana digna, essa oposição entre economia e vida, ou entre economia e política se desmancha. Mas se seguirmos entendendo essas esferas como separadas continuaremos presos a uma ideia de vida totalmente desnuda de humanidade. O vírus terá então nos ensinado muito pouco sobre nós mesmos.

    Leia também:

    Solidariedade: saúde para todos

    Para saber mais:

    Lévi-Strauss, Claude.[1929] (1965) Le triangle culinaire. L’Arc.

    Lima, Antonio Carlos de Souza, (2012). O estudo antropológico das ações governamentais como parte dos processos de formação estatal. In: Dossiê. Fazendo Estado. Revista de Antropologia. Vol. 55, N. 02 de 2012, São Paulo, USP.

    ONU. (1948) Declaração Mundial dos Direitos Humanos. Paris: III Assembléia das Nações Unidas, 10/12/1948. Res. No 217 A. Disponível em: http://www.onu -brasil.org.br/documentos_direitos humanos.php.

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Máscaras caseiras são eficientes contra o coronavírus?

    Com medo de contrair o coronavírus, ou COVID-19, várias pessoas estão costurando e comprando máscaras caseiras para usar na rua, principalmente quando vão às compras. Esses equipamentos de proteção produzidos em casa sem embasamento científico têm tudo para dar errado. Nesse texto, explico o porquê com um exemplo histórico.

    A máscara de gás foi criada na Primeira Guerra Mundial como uma forma de proteger os combatentes no front, pois foi em um ataque em 1915 que as armas químicas passaram a ser utilizadas em massa pela primeira vez. Os primeiros ataques foram realizados com o gás cloro, mas ao longo do conflito outros tipos de gases mais letais foram desenvolvidos, como por exemplo o gás fosgênio e o mostarda.

    As primeiras máscaras eram bastante simples e consistiam basicamente em um pedaço de tecido embebido em soluções neutralizadoras que deveria ser atado ao nariz e a boca. Uma bastante conhecida é o respirador feito com véu negro desenvolvido por John Scott Haldane, o black veil respirator. Chegar ao design de uma máscara aparentemente tão simples não foi uma tarefa fácil. Como o tecido deveria necessariamente ser embebido com soluções neutralizadoras, ele precisava permitir a passagem de ar quanto úmido, já que muitas vezes os combatentes vestiam a máscara logo após mergulhá-la na substância neutralizadora e também ser capaz de neutralizar os efeitos dos gases quando seco.

    Por isso a black veil respirator era feita com um tipo específico de fibra de algodão, além de utilizar como faixa fixadora um véu – negro porque era o mais produzido no momento, já que era usado por viúvas ou mulheres como símbolo luto. Mas nem todos os tecidos permitem a passagem de ar quando estão molhados e desconhecer essa informação causou a morte de muitos soldados. 

    Em uma tentativa de auxiliar nos esforços da guerra, o governo britânico fez uma chamada para que civis fizessem um mutirão para confeccionar máscaras. Milhares delas foram confeccionadas da noite para o dia e enviadas para o front. Como se verificou da pior maneira, elas eram não só inúteis, como perigosas. Como foram confeccionadas com o tipo inadequado de fibra de algodão, essas máscaras não protegiam do gás quando secas e molhadas não permitiam a passagem do ar. Como consequência, no meio de um ataque muitos soldados ficaram desprotegidos ou precisaram tirar a máscara úmida e acabaram sendo feridos ou mortos pelos gases. A partir desse episódio, a produção de máscaras e outros equipamentos de proteção passou a ser centralizada por um departamento criado especificamente para lidar com as questões das armas químicas: o Gas Service. Além de produzirem equipamentos, esse destacamento era responsável por treinar os combatentes para que eles pudessem usar o equipamento de forma correta, já que só assim ele seria efetivo.

    Desenvolver um equipamento exige muita pesquisa e muitos testes. As coisas não funcionam porque elas parecem funcionar, mas sim porque elas acumulam tecnologias desenvolvidas a partir de muitas pesquisas e experiências. E eles só funcionam quando são utilizados de forma adequada, seguindo protocolos rigorosos de uso estabelecidos após numerosos testes.

    As máscaras que estão sendo criadas em casa ou vendidas por costureiras – e até mesmo aquelas cirúrgicas – não impedem a inalação do COVID-19. Elas somente são efetivas quando usadas por pessoas contaminadas, já que impedem a dispersão do vírus no ar através de gotículas. A pessoa saudável que usa uma máscara caseira está, na verdade, criando uma armadilha para concentrar o vírus (e outros microrganismos) no próprio rosto. Além disso, tocar na máscara, deslocá-la pelo rosto até a área dos olhos ou abaixá-la no pescoço para falar acabam, na verdade, aumentando as chances de contaminação. Por isso essas máscaras podem ser tão perigosas: elas criam uma sensação falsa de segurança, o que acaba aumentando as chances de contaminação.

    As únicas máscaras capazes de impedir a inalação dos vírus são aquelas que possuem um sistema para barrar partículas minúsculas, biológicas ou não, dispersadas por aerossol. E como dito anteriormente: elas só funcionam quando usadas de forma rigorosamente correta e por tempo limitado. Se não conhecemos o comportamento e o tamanho do vírus e as especificidades dos tecidos, e se não sabemos quais são os protocolos de segurança no uso, criar e usar máscaras caseiras é irresponsável e perigoso. Não existe equipamento milagroso contra a contaminação. Para diminuir os riscos de contrair a doença devemos ficar em casa e evitar aglomerações, lavar frequentemente as mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos, não tocar a face e manter ambientes ventilados.

    Se você não apresenta sintomas, não compre máscara de nenhum tipo! Deixe para as pessoas que trabalham na área da saúde e seus familiares, que estão expostos cotidianamente ao vírus, e para as pessoas que precisam cuidar de familiares e amigos doentes. Somente use máscaras se você estiver contaminado.

    Um último lembrete: precisamos proteger e investir na ciência brasileira, pois é somente através de pesquisas e experiências que encontraremos soluções eficientes para os nossos problemas, como é o caso da atual pandemia.

    Update 06/04/2020 (Coordenação do Blogs de Ciência da Unicamp): Até o presente momento a Organização Mundial de Saúde segue sem recomendações de uso de máscara por pessoas não contaminadas. O MS e o CDC mudaram suas recomendações, especialmente em função de pessoas que podem estar infectadas mas não sabem. Todas as recomendações mais recentes são apenas para usar máscara como barreira mecânica de quem está infectado. O Blogs de Ciência da Unicamp decidiu manter este post no ar, uma vez que traz um panorama histórico importante dos riscos de produções sem cuidados técnicos e científicos. Quaisquer recomendações feitas por este veículo de Divulgação Científica estão e estarão, sempre, de acordo com preceitos científicos e embasados teoricamente. Reiteramos, ainda, que quaisquer comentários desrespeitosos com a autora, ou o blogs, não serão aceitos. 

    Para Saber mais

    AULD, S. J. M. Gas and flame in modern warfare. Nova York: George H. Doran, 1918.

    FRANKE, I. A fotografia e a máscara: uma antropologia da imagem. 2019. 109 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

    GRAYZEL, S. R. Defence against the indefensible: the gas mask, the State and British Culture during and after the First World War. Twentieth Century British History, vol. 25. n. 3, 2014, pp. 418-434.

    JONES, S.; HOOK, R. World War I gas warfare tactics and equipment. Colchester: Osprey, 2007.

     

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Sou idoso ou tenho alguma doença crônica: devo me preocupar com a COVID-19?

    Os órgãos de saúde e a imprensa têm falado bastante sobre a necessidade de não expormos grupos de risco ao novo coronavírus. Medidas já começam a ser adotadas para proteger essas pessoas. Nos lares brasileiros, por exemplo, o isolamento domiciliar até de pessoas que não estão apresentando sintomas tenta restringir o contato entre jovens e idosos que, por conta da idade, podem ter a saúde mais frágil. Dúvidas também começam a pipocar. Afinal, quem está incluído neste grupo de risco? Pessoas com doenças crônicas são, realmente, mais afetadas pela COVID-19? Se tenho alguma doença deste tipo, devo me preocupar?

    Para responder essas perguntas, vamos dar uma olhada nos dados que temos até agora. O perfil dos pacientes chineses infectados e que evoluíram para quadros clínicos mais graves tem sido mapeado por alguns estudos científicos. Ainda que os números sejam incipientes, podemos falar que existe uma relação entre doenças crônicas e a COVID-19 e que o assunto deve ser levado a sério. Um estudo com 1099 indivíduos apontou que 1 a cada 3 pacientes infectados com o coronavírus e histórico de doença crônica tiveram quadro clínico considerado grave (critérios baseados nas diretrizes da American Thoracic Society para pneumonia adquirida na comunidade) após a infecção pelo vírus. Em pacientes sem outras complicações de saúde, o número de casos graves foi quase a metade disso (21%)[1]

            Um segundo estudo realizado no Hospital de Wuhan, na China, com 99 pacientes do 1º ao 20º dia do mês de janeiro mostrou que a faixa etária do grupo foi de 55,5 anos [2]. A metade destes indivíduos tinha alguma comorbidade, como doenças cardiovasculares e cerebrovasculares. A COVID-19 também parece ter uma preferência por homens do que mulheres. A hipótese lançada pelos pesquisadores é de que hormônios sexuais e o cromossomo X das mulheres parecem possuir uma função relacionada à imunidade [3]. Outro estudo avalia que a maioria dos indivíduos que contrai o vírus e desenvolve a doença tem boas chances de recuperação. As exceções seriam a população idosa e indivíduos com doenças crônicas [4].

    Quando falamos em histórico de doença crônica, nos referimos a pessoas que têm alguma condição de saúde que afeta o seu sistema imunológico. Diabéticos, pacientes com problemas cardíacos, em tratamento contra câncer ou com doenças pulmonares crônicas entram nesta lista. O envelhecimento também entraria no rol de fatores de risco, já que, quando idosos, nosso sistema imunológico tende a ser mais debilitado e o processo inflamatório parece aumentar devido às morbidades e problemas geriátricos. A lógica é a seguinte: ao contrair uma gripe, nosso organismo libera um exército de células de defesa para combater a infecção. Se temos uma doença persistente, inflamatória, as chances do nosso exército estar exausto ou, ainda, de existirem poucos soldados para combater  o novo coronavírus, é grande. 

    Ainda não sabemos ao certo como determinadas doenças crônicas ou a presença de várias doenças ao mesmo tempo (o que chamamos de multimorbidade)  tornaram o corpo dos pacientes na China mais vulnerável à instalação do vírus. O que sabemos, por enquanto, é que os casos mais graves precisaram de um tratamento intensivo de saúde, como ventilação mecânica e oxigenoterapia. A COVID-19 é uma doença que exige muito do sistema de saúde. Segundo o estudo que usamos como fonte, o risco de morte, admissão na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ou uso de ventilação mecânica (por aparelhos), foi de 3,6% mas chegou a 20,6% (1 a cada 5 indivíduos) entre os casos graves. 

    E agora?

    Bem, o que esses dados chineses têm a ver com a realidade brasileira? Não que seja uma regra, mas entender como a COVID-19 vem evoluindo e quem é mais vulnerável a ela pode nos ajudar na hora de agir. Lembramos que os estudos apresentados neste texto são análises iniciais da doença, ou seja, podem ser retificados durante a pandemia conforme a ciência for avançando. 

    No momento, sabemos que pessoas com doenças crônicas e imunidade baixa precisam se precaver em dobro para não contraírem o novo coronavírus, pois têm mais chance de ter complicações clínicas mais graves. Se você é diabético, cardiopata, tem acima de 60 anos, deveria se preocupar, sim! E sabe o que você pode fazer para se proteger? Ficar em casa. Simples assim. 

    Recomendações para pessoas com doença crônica ou multimorbidade: 

    • Cancelar consultas médicas não essenciais, ou realizá-las online;
    • Armazenar medicamentos de uso contínuo suficientes para dois ou três meses, para não haver interrupção do tratamento;
    • Evitar a solidão do isolamento social (falar com parentes e amigos em redes sociais, skype, etc.);
    • Manter bons hábitos, incluindo sono suficiente, alimentação balanceada e realizar exercícios físicos;
    • Manter boa higiene respiratória, lavar as mãos frequentemente; 
    • Intensificar a limpeza de superfícies;
    • Reduzir/evitar fumar e ingerir bebida alcoólica;
    • Adiar viagens e passeios; 
    • Manter-se atualizado sobre casos confirmados de COVID-19 em cidades e áreas próximas;
    • Anotar telefones de referência para emergências;

    Fonte: Baseado em OMS, 2020.

    Para saber mais

    [1] GUAN, W., NI, Z., HU, Y., LIANG, W., et al. Clinical Characteristics of Coronavirus Disease 2019 in China. Massachusetts Medical Society. The New England Journal of Medicine.  2020; Avaliable in https://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMoa2002032?articleTools=true  DOI: 10.1056/NEJMoa2002032. Access on March 21, 2020. 

    [2]Chen N , Zhou M , Dong X , et al. Características epidemiológicas e clínicas de 99 casos de 2019 nova pneumonia por coronavírus em Wuhan, China: um estudo descritivo. Lanceta. 2020; pii: S0140-6736 (20) 30211-7. 

    https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30211-7

    [3] JAILLON, S.; BERTHENET, K.; GARLANDA, C. Sexual Dimorphism in Innate Immunity. Clinical Reviews in Allergy & Immunology, v. 56, 2017. DOI: 10.1007/s12016-017-8648-x   

    [4] Ramo de Radiologia da Associação Médica Chinesa Diagnóstico Radiológico da Nova Pneumonia por Coronavírus: Recomendações de Especialistas em Ramo de Radiologia da Associação Médica Chinesa (Primeira Edição) [J / OL] Jornal Chinês de Radiologia, 2020,54 (2020- 02-08) .http://rs.yiigle.com/yufabiao/1180115.htm  DOI: 10.3760 / cma.j.issn.1005-1201.2020.0001

    WHO. World Health Organization. Q&A on coronaviruses (COVID-19). 2020. Avariable in https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-coronaviruses. Access at march 23, 2020.

    * O Grupo Brasileiro de Estudos em Multimorbidade reúne pesquisadores brasileiros da área da saúde vinculados a instituições brasileiras, como UFPel, UFG, USP, UFRN e Unicamp, e colaboradores estrangeiros da Colômbia, Portugal e Índia. Eles estudam doenças crônicas e multimorbidade. (link para o site: https://wp.ufpel.edu.br/gbem/

    ** Os argumentos expressos no texto são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica. Não, necessariamente, representam a visão da UFPel e da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Uma mão lava outra com sabão no combate ao COVID-19.

    Na nossa pele, a sujeira, que pode conter vírus, como o COVID-19, fica rodeada por uma camada de gordura. Lavar as mãos apenas com água não é eficaz para remover a gordura das mãos ou destruir o COVID-19, isto é, usar apenas água não é uma forma adequada de limpar as mãos. Precisamos usar o sabão/sabonete para lavar as mãos.

    Daí fica a importância do uso de uma invenção bem antiga, o sabão. 

    Mas afinal, o que é o sabão?

    O sabão pode ser classificado como um sal de um ácido carboxílico de cadeia carbônica longa: um composto orgânico com vários átomos de carbono e hidrogênio na sua estrutura, como o estearato de sódio

    O efeito disso é que a cadeia longa de carbono no sabão forma uma cauda que não se mistura com a água, uma cauda hidrofóbica,  enquanto a “cabeça” , no exemplo com o carboxilato (perceba a carga negativa), é hidrofílica, é capaz de ser solvatada, ou dissolvida pela água. 

    Em água, cada uma das moléculas que compõem o sabão não fica isolada. Elas se juntam e formam um aglomerado esférico em que a parte carregada negativamente fica voltada para a superfície. Esse aglomerado organizado é chamado de micela.

    Como o sabão age?

    Quando lavamos as nossas mãos com sabão/sabonete líquido/sabonete e água, estamos expondo as nossas mãos e as sujeiras presentes nela a essas micelas, que se re-organizam e interagem tanto com a água quanto com a gordura. 

    O coronavírus têm um estrutura protetora ao seu redor formado basicamente por lipídios (“gordura”) e proteínas. O sabão é eficaz contra o coronavírus, pois é capaz de interagir com a gordura presente na membrana (ou envelope). O sabão separa os componentes individuais presentes na estrutura que recobre o vírus, destruindo essa estrutura e, consequentemente, destruindo o vírus. 

    As partículas de sabão se organizam de novo, e toda a sujeira grudada na gordura e os pedacinhos do que foi o vírus vão para dentro dmidascelas, que acabam sendo levadas pela água quando você enxagua a mão. 

    O sabonete e os detergente sintéticos também são capazes de destruir o coronavírus. Todos eles têm a longa cadeia formada de carbono e hidrogênio (também chamada de alquílicas), que se esconde da água, e outra extremidade que “gosta” da água.  

    A diferença do detergente sintético em relação ao sabão preparado a partir de gorduras e óleos vegetais, é que no lugar do grupo carboxilato, os detergentes sintéticos contém grupos formados por sulfonatos de sódio e sulfato de sódio, todos hidrofílicos.

    Referências

    Burrows, A. et al. Química: Introdução à Química Inorgânica, Orgânica e Físico-Química. Volume 3. Rio de Janeiro: LTC. 2013

    Solomons, TWG; Fryhle, C.B. Química Orgânica. 10 Edição. Rio de Janeiro: LTC. 2013.

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Coronavírus: conhecendo o vilão COVID-19 e combatendo a infecção

    O que é o vírus, como ocorre a sua disseminação e por quê devemos mudar nossos hábitos para combatê-lo

     

    Tempo de leitura: 3 min

     

    O que é um vírus?

    O vírus é formado por uma cápsula de proteínas contendo material genético e que é capaz de se multiplicar dentro das células de organismos. As partículas virais infecciosas são montadas em uma célula hospedeira, geralmente são partículas metaestáveis e robustas o suficiente para proteger o genoma viral fora da célula1. Para explicar melhor, o Blogs de Ciência da Unicamp fez um vídeo explicativo e didático explicando o que é um vírus e como ele se propaga.

    Fonte: Conteúdo científico e roteiro – Luisa Fernanda Rios Pinto; Narrativa-Paula Penedo; Arte e animação- Carolina Frandsen; Produção-Equipe Blogs de Ciência da Unicamp.

    Mas o que é o COVID-19?

    O COVID-19, ou Sars-Cov-2, é uma doença infecciosa causada por um vírus recém descoberto e pertencente a família corona. O nome corona vem do fato de que quando os cientistas olham para o vírus pelo microscópio, o vírus parece ter uma “coroa” em volta de si.

    Fonte:Wikimedia Commons

    Existem vários tipos de coronavírus em humanos e animais, e a razão pela qual o COVID-19 tem ganhado tanta atenção é que este vírus foi detectado em humanos pela primeira vez em dezembro de 2019 e, até o momento (24/03/2020), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)2 já infectou mais de 370 mil pessoas ao redor do mundo. Sua capacidade de contágio é bastante alta comparada aos vírus anteriormente descritos e a severidade da síndrome respiratória causada (uma forte pneumonia) tem alertado o mundo para o perigo desta pandemia. Os dados ainda são bastante insipientes e a cada dia novas informações são descobertas a respeito dessa doença. 

    Nos Estados Unidos, a porcentagem das pessoas infectadas que desenvolvem os sintomas mais severos, necessitando tratamento intensivo (UTI), varia entre a faixa etária, sendo em média 10,5%3 e até 30,1%4 para pacientes entre 75-84 anos, segundo estudos estatísticos. Além disso, devido ao rápido contágio e a limitação dos sistemas de saúde, se sabe que a taxa de mortalidade pelo COVID-19 depende do país, mas está em torno de 0,36-8%, com uma baixa taxa reportada na Alemanha e a maior na Itália5

    É importante ressaltar aqui que ainda não há vacina ou remédio que sejam eficazes contra o COVID-19. Muitos laboratórios ao redor do mundo estão correndo contra o tempo para desenvolver um tratamento, mas as melhores estimativas são de que não teremos uma solução acessível à população pelo menos até o final de 2020.

    O Brasil

    No dia 23 de março, o Brasil contava com 1891 casos diagnosticados da doença e 34 mortes6. O crescimento é alarmante, sabendo que no dia 15 de março se reportavam 162 casos positivos para o COVID-19. Isso significa que em oito días (de 15 a 23 de março), os casos aumentaram mais de 11 vezes. Isso nos dá um bom indicativo de como a doença se espalha rapidamente, o que pode levar ao esgotamento dos leitos disponíveis em hospitais para o tratamento dos doentes. 

    O Brasil conta com uma população de cerca de 210 milhões de habitantes. Se imaginarmos que somente 50% da população terá contato com o vírus, e que 50% dessa pessoas desenvolvem sintomas, o número de pessoas sintomáticas no Brasil pode chegar a 50 milhões de pessoas. Desses 50 milhões, estima-se que 5% precisaria de tratamento hospitalar7. Imagine agora se todas essas pessoas ficarem doentes ao mesmo tempo. Seria humanamente impossível tratar todos os doentes, ademais somando-se os pacientes com outras doenças e acidentes. Repare que todos esses números são baseados nos dados que temos disponíveis de outros países, e que ao final dessa crise, esse cenário poderá ter sido melhor, ou ainda pior. 

    Diante desse cenário, podemos ver a importância de diminuir a disseminação do vírus, para que assim não tenhamos um sistema de saúde sufocado e sem a capacidade de tratar todas as pessoas doentes. 

    Qual o melhor combate ao coronavírus? 

     

    Higiene

    Criar hábitos de limpeza é muito importante nessa jornada. O melhor que podemos fazer para ajudar a sociedade é nos isolar em casa. Mas as vezes precisamos sair para ir ao mercado ou algum lugar que seja urgente. Para isto precisamos ter uma rotina de limpeza para entrar em casa e recomendamos alguns passos:

    1. Coloque as chaves perto da porta e não pegue-as se não for sair; se puder, limpe.

    2. Assim que chegar em casa, tire os sapatos e a roupa e deixe do lado de fora, depois lave a roupa com água e sabão. 

    3. Ao entrar em casa, não toque em nada antes de se higienizar.

    4. De preferência tome banho, se não puder, lave bem todas as áreas expostas com água e sabão. 

    5. Limpe o celular com um lenço e um pouco de álcool 70%, se não tiver álcool pode passar um paninho com água (não precisa ser muita) e um pouco de sabão e depois retirar o excesso com um lenço úmido (quase seco).

    6. Se tiver óculos, lave os óculos com água e sabão. 

    7. Quando estiver em casa, lave as mãos frequentemente com água e sabão durante 20 segundos.

    8. Não precisa ficar de máscara na casa se não estiver doente ou positivo com coronavírus. 

    9. Tente fazer o máximo de compras online. Se pedir alguma coisa pelo delivery, evite falar com a pessoa, pegue a caixa, limpe com álcool e entre em casa; evite contato, use cartão para pagar a conta. 

    10. Evite passar as mãos na boca ou nariz.

    11. Evite o pânico.

     

    Se possível #fiqueemcasa, mas se precisa sair para algum lugar, evite o uso de transporte público, evite aglomerações e evite tocar em superfícies. Lembre-se: sempre que puder, lave as mãos e siga a rotina acima da limpeza no retorno a casa.

     

    Isolamento

    Neste momento é melhor ficar em casa e evitar circular pelas ruas. O isolamento serve para combater ou impedir o espalhamento do vírus. Serve para que a doença não seja transmitida para as demais pessoas e com o isolamento, evitamos a propagação massiva da COVID-19 a superlotação de hospitais por pessoas infectadas e que o sistema de saúde entre em colapso. É importante manter o distanciamento social. Muitos países decretaram quarentena (isolamento físico e temporário de pessoas) para evitar o contágio, e é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

     

    Para saber mais:

    https://www.blogs.unicamp.br/covid-19/os-isolamentos-sao-importante-sim-senhor-e-nao-e-de-hoje-essa-pratica/

     Depende de todos para que este vírus não se espalhe pelo país e o isolamento é uma maneira de cuidarmos e cuidar dos nossos familiares. 

     

    #ficaemcasa #coronavírus

     

    Referências

     

    [1] Mateu MG. The Structural Basis of Virus Function. Structure and Physics of Viruses. Acesso:https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-94-007-6552-8_1

    [2]https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019

    [3]https://www.statista.com/chart/21173/hospitalization-icu-admission-and-fatality-rates-for-reported-coronavirus-cases/

    [4]https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/mm6912e2.htm

    [5]https://brasil.elpais.com/brasil/2020/03/20/ciencia/1584729408_422864.html

    [6]https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:folha-informativa-novo-coronavirus-2019-ncov&Itemid=875

    [7]https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/03/18/protocolo-elaborado-pelo-incor-vai-orientar-o-tratamento-dos-casos-graves-de-coronavirus-em-sp.ghtml

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Como divulgar informações de prevenção do Covid-19 se a língua de seu país não é a sua?

    Partindo do ideal de que a divulgação científica, principalmente neste momento da pandemia do Covid-19, deve chegar a TODOS, responda com sinceridade, divulgador científico:

    Seu material foi pensado para TODOS os brasileiros?

    Pensando nessa questão, a Profa. Dra. Taciana de Carvalho Coutinho da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, em Benjamin Constant no Norte do país, se propôs a desenvolver junto de seus alunos, materiais de divulgação científica sobre a Covid-19 para as comunidades indígenas da região.

    “Todos os meus alunos de iniciação científica são indígenas… A universidade possui mais de 50% de alunos indígenas de 8 etnias presentes” comenta Taciana.

    De acordo com o censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no território nacional existem 274 línguas indígenas, e dos 130 mil indígenas apenas 6 mil falam o português, além da língua mãe, desses 46 mil indivíduos falam a língua Ticuna, do Amazonas. 

    A região de fronteira do Alto Solimões encontra-se em posição estratégica no país, na tríplice fronteira Brasil – Colômbia – Peru, e é a porta de entrada circulação de pessoas e produtos provindos do pacífico, de países da América do Sul, Central e do Norte. São três as principais cidades da fronteira no Amazonas, banhadas pelos rios Solimões e Javari: Atalaia do Norte, Benjamin Constant e Tabatinga, sendo esta última cidade gêmea de Letícia na Colômbia, em uma fronteira física quase inexistente. Quase, pois hoje encontra-se fechada por conta do Covid-19. Tabatinga também faz fronteira com Santa Rosa, no Peru e Benjamin Constant com Islândia, também Peru. A população das três cidades juntas ultrapassa os 100 mil habitantes e, contando com as cidades em conexão, esse número pode chegar à 300 mil habitantes.

    Hoje, Taciana cedeu um pouco do seu tempo de quarentena para nos contar mais sobre esse trabalho, confira abaixo a entrevista:

    A Profa. Dra. Taciana de Carvalho Coutinho é doutora em Recursos Naturais pela Universidade Federal de Campina Grande e leciona há 11 anos no Instituto de Natureza e Cultura da UFAM de Benjamin Constant

    Érica Mariosa: Profa. como surgiu a ideia de preparar esse material de divulgação científica na língua mãe dos seus alunos?

    Taciana de Carvalho Coutinho: A ideia surgiu a partir da carta que fizemos como agradecimento pelos produtos de agricultura, caça e pesca que nos disponibilizam e da conscientização da importância deles ficarem nas comunidades nesse momento. 

    Nós temos em sala de aula muitos alunos indígenas, de 8 etnias diferentes, e era importante pensar em como fazer um trabalho de alerta  para que esses alunos e outros indígenas não saiam de suas comunidades, uma vez que eles vem até a cidade para vender a sua produção de alimentos. 

    Optamos por disponibilizar materiais na língua Ticuna, traduzido pelos próprios alunos e distribuído pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e a Fundação Nacional do Índio – FUNAI, além de uma campanha muito forte para que os – não indígenas – não entrem nas comunidades, devido a vulnerabilidade de saúde e dificuldade de acesso atendimento hospitalar.

    Para se ter uma ideia, ao lado de Tabatinga (cidade próxima a Benjamin Constant) existem mais de 7 mil indígenas, imagina se o vírus chega até eles! Seria catastrófico, a região não tem condições hospitalares, não existe, inclusive uma articulação política para esses atendimentos.

    Muitos deles vivem da caça, da pesca e da agricultura que são vendidos na cidade, assim ficam vulneráveis. A ideia era conscientizá-los que fiquem em suas comunidades. 

    EM: Quais os desafios e a realidade de estar em uma sala de aula com alunos que não possuem o português como língua mãe?

    TCC: Trabalhar com essa diversidade sociocultural é bem complexo, somos preparados na vida acadêmica a lidar com ciência pura e aplicada, uma vez que sou bióloga, com mestrado em genética e doutorado em recursos naturais, e a princípio, ao chegar em sala de aula, há insistência em algo mecânico. É preciso abrir a cabeça e perceber que nessa região às coisas são diferentes.

    Não é possível cobrar do meu aluno um português exemplar, uma vez que ele foi alfabetizado na língua de origem. Tenho alunos Ticunas que falam sua língua de origem muito bem mas pouco escrevem, tenho alunos que leem e escrevem muito bem o português mas não escrevem em ticuna ou já até perderam a fala de origem, além das outras etnias indígenas presentes na região. 

    Vem daí a dificuldade de produzir esse mesmo material em outras línguas.

    Tendo todos os alunos indígenas me fez pensar em como, eu como profissional, poderia ajudar a buscarem e perceberem que eles são protagonistas da sua realidade. 

    Normalmente, eles são muito pesquisados, mas eles também são pesquisadores, vão a suas comunidades e estudam sobre sua cultura, sua diversidade, seu artesanato, suas lideranças, sua identidade. É importante mostrar que eles podem dentro da universidade pesquisarem sobre sua própria comunidade. E isso foi importante para essa aproximação das necessidades dessa região.

    EM: Como foi preparado o material?

    TCC: Se você observar, as frases foram pensadas para serem simples mas possuem sua simbologia. As crianças e os idosos representam a nova geração e a geração que detém o conhecimento tradicional. Isso é muito importante.

    Na imagem está o Sr. Pedro Inácio que foi um grande líder do povo Ticuna, foi o homem que lutou pela organização social da comunidade, então ele possui uma forte representatividade para o povo.

    Não só as frases, mas as imagens também não foram escolhidas ao acaso, essas imagens fazem parte do cotidiano deles, a ideia é também trabalhar com essa sensibilização.

     

    A imagem do casal de idosos abraçados foi escolhido por ser o casal mais velho a se casar na região, apesar de já viverem como casal a muitos anos, eles optaram por oficializar a união em um casamento coletivo, se destacando por serem o casal mais velho a se casar. Então, seu simbolismo está no respeito aos nossos idosos.

    Fiquem nas comunidades.

     O material foi produzido pelos alunos:

    • Sandrinha Inácio Clemente – Comunidade Indígena Novo Porto Lima
    • Monique Inácio Clemente – Comunidade Indígena Novo Porto Lima
    • Nilson Fernandes Agostinho – Comunidade Filadélfia üütchigüne.
    • Isanildo Moçambite de Souza – Comunidade Bom Caminho
    • Edney Firmino Santos – Comunidade Vila Independente de SPO

    Com a orientação da Profa Dra Taciana de Carvalho Coutinho e ajuda na tradução Edivania Luciano Fidélis – Comunidade de Filadélfia BC/AM

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.