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  • Alguns questionamentos sobre governo, um vírus e a fome

    “Eu tenho quase certeza que não vou morrer por causa desse vírus aí, mas se eu parar de trabalhar eu e toda a minha família vamos morrer de fome”.

    “Eu tenho quase certeza que não vou morrer por causa desse vírus aí, mas se eu parar de trabalhar eu e toda a minha família vamos morrer de fome”.

    Foi no dia 18 de março que ouvi pela primeira vez essa frase, dita por um motorista de Uber, e que logo depois se tornou tão popular na mídia conjuntamente à progressão da pandemia de COVID 19 no país. Naquele dia fui à São Paulo para participar em um programa de rádio sobre Fome e Direitos Humanos. A universidade na qual eu realizo minha pesquisa de doutorado, Unicamp, havia cancelado todas as atividades até o dia 14 de abril e eu já estava em uma quarentena auto imposta pois tinha participado de muitos eventos com pessoas recém chegadas da Europa.  Por esses e outros motivos, a ida para São Paulo me deixava um pouco ansiosa, principalmente ao saber que a cidade se configurava como o epicentro da doença no Brasil. Depois de confirmar com os organizadores do programa que a entrevista ia acontecer de qualquer maneira, me preparei para a viagem tentando seguir ao máximo as medidas de higiene recomendadas.

    No entanto, ao entrar na cidade fui percebendo que a vida por ali estava beirando a normalidade. Pessoas estavam trabalhando em lojas, havia vendedores de água e salgadinhos nos semáforos, os restaurantes estavam cheios e os ônibus municipais estavam tão lotados como usual. Assim, temendo contaminar alguém com a doença que nem sabia se tinha, resolvi chamar um Uber e, no caminho, comecei uma conversa que resultou na frase com a qual iniciei este texto.

    A afirmação do motorista ficou martelando na minha cabeça durante todo o dia. Mais do que isso, foi essencial para me fazer pensar na relação entre a fome, os direitos sociais básicos e a epidemia que estávamos por enfrentar – o que acabou sendo o principal tópico de discussão da entrevista naquela manhã.

    A comida sempre foi boa para pensar, como afirmou Lévi-Strauss (1929). Mas em relação à pandemia do COVID-19, a comida é objeto essencial para entendermos melhor os efeitos desta doença, não apenas compreendendo-a como epifenômeno de relações sociais mais amplas. Principalmente, porque o novo coronavírus tem suposta origem no consumo de animais exóticos e porquê sua epidemia impôs quarentena e distanciamento social para um número massivo da população mundial. E isto acabou impedindo ou alterando o acesso a direitos sociais mais básicos, tais como alimentação, habitação e saúde, que a atenção ao tema da comida e à garantia de acesso a ela é de extrema relevância.

    Estou certa, assim como diversos pesquisadores e cientistas das mais variadas áreas, que a atual pandemia pode ser compreendida como um momento crucial para repensarmos categorias  estruturais de nossa vida em sociedade como a economia, a política, o governo e o Estado. Assim, a discussão sobre o acesso à comida enquanto necessidade básica para a sobrevivência parece ser um bom ponto de partida.

    Em 1948, com a criação das “Nações Unidas”, após o fim de uma das maiores crises globais até então vivida, foi assinado a “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, na qual o artigo 24 afirma:

    “Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle” (ONU, 1948).

    Essa declaração, apesar de não constituir uma obrigação jurídica para os Estados, se propunha como uma resolução com o objetivo de evitar uma nova situação catastrófica como aquela experienciada durante a Segunda Guerra Mundial. 

    No momento atual, ao prestarmos atenção nas implicações que a epidemia de COVID-19 pode trazer para a sociedade como um todo, somos incitados a questionar se esses direitos foram em algum momento realmente garantidos, pelo menos para parte da população mundial.

    Retomando a afirmação do motorista de Uber, mas também considerando o que os trabalhadores das mais diversas áreas têm reivindicado nesse momento, podemos nos atentar para a precariedade de muitas vidas. Talvez, grande parte da população nunca teve garantido “o direito à segurança em caso de perda dos meios de subsistência fora de seu controle” (ONU, 1948).

    Penso, então, que o que essa pandemia está nos ensinando reside precisamente nos efeitos do vírus para além do tempo da ‘declarada pandemia’, modificando ou questionando ideias acerca do próprio conceito de ‘vida’ e subsistência.

    A comida que é usualmente um objeto renegado ao setor privado de nossas vidas, o domínio do oikos, vista como parte de uma esfera afastada da política, define agora, talvez mais do que nunca, aqueles que podem viver ou os que são deixados para morrer. E nesse processo, acaba por definir também o que é entendido por economia (oikos) e qual a sua importância na ‘feitura do Estado’ (Lima, 2012).

    De acordo com o Ministro da Saúde, Luis Henrique Mandetta, “a vida não se resume a uma doença, a um vírus”. Essa afirmação pode sim ser um consenso, no entanto, podemos questionar, a que se resume a vida então? Quais são os mínimos vitais que precisam ser estabilizados para que algo possa ser definido como vida? Que vida é essa que seguiremos tendo após a resolução dessa pandemia (e aqui não penso uma resolução no sentido de fim ou cura do problema)?

    Um dia após essa constatação do Ministro da Saúde, o presidente Jair Bolsonaro aprovou uma medida provisória (MP) que buscava soluções para a crise econômica decorrente do COVID-19. Um dos pontos mais polêmicos da medida permitia a suspensão de contratos de trabalho por até quatro meses durante o período de calamidade pública no país, desde que fossem disponibilizados cursos de formação online para os trabalhadores. Esse ponto foi rapidamente removido da MP após grande mobilização virtual da população, mas o poder executivo federal segue tentando barrar toda possibilidade de criação de medidas que garantam um padrão de vida adequado para todos os cidadãos, com a justificativa de que essas ações poderiam quebrar a economia do país. 

    No entanto, se nos atentarmos aos dados sobre trabalho no país percebemos que a taxa de informalidade é de 41%, o que equivale à 38,8 milhões de trabalhadores sem carteira registrada. Esses números sugerem então um baixo impulso na economia, pois normalmente o trabalho informal está associado à baixos salários, além de não permitir a garantia de estabilidade e segurança no provimento familiar. Em um contexto de crise são esses trabalhadores e suas famílias que são colocados, de uma hora para outra, em condição de total precariedade.

    Face a esse problema, no dia 24 de março, o presidente Jair Bolsonaro, fez um pronunciamento oficial televisionado em todo o país, mostrando sua preocupação com a atual situação econômica. Em sua fala, tentando minimizar os efeitos da crise, afirmou que o COVID-19 não passa de uma “gripezinha” e que por isso somente os idosos e os casos suspeitos deveriam ser mantidos em quarentena e o resto da população deveria continuar vivendo normalmente, isto é, produzindo e consumindo.

    A oposição entre economia e vida parece ser elemento central na forma de gestão do atual governo, o que nos incentiva a questionar então, como garantir um padrão de subsistência adequado para toda a população se o Estado não está disposto a manter grande parte dos cidadãos protegidos do vírus?

    Apesar de parecer um questionamento um tanto inocente, penso que o novo coronavírus pode trazer a possibilidade de repensarmos algumas oposições dadas como ‘naturais’ que operam em nossa vida em sociedade, sendo a principal delas a oposição entre a esfera da economia e a da política. Acredito que o direito à comida ou próprio fenômeno da fome podem nos ajudar a trazer luz aos aspectos mais materiais que informam esse dualismo.

    Se pensamos a economia enquanto diretamente associada à manutenção da vida, isto é, como instrumento de produção e reprodução das condições materiais necessárias à existência humana digna, essa oposição entre economia e vida, ou entre economia e política se desmancha. Mas se seguirmos entendendo essas esferas como separadas continuaremos presos a uma ideia de vida totalmente desnuda de humanidade. O vírus terá então nos ensinado muito pouco sobre nós mesmos.

    Leia também:

    Solidariedade: saúde para todos

    Para saber mais:

    Lévi-Strauss, Claude.[1929] (1965) Le triangle culinaire. L’Arc.

    Lima, Antonio Carlos de Souza, (2012). O estudo antropológico das ações governamentais como parte dos processos de formação estatal. In: Dossiê. Fazendo Estado. Revista de Antropologia. Vol. 55, N. 02 de 2012, São Paulo, USP.

    ONU. (1948) Declaração Mundial dos Direitos Humanos. Paris: III Assembléia das Nações Unidas, 10/12/1948. Res. No 217 A. Disponível em: http://www.onu -brasil.org.br/documentos_direitos humanos.php.

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Máscaras caseiras são eficientes contra o coronavírus?

    Com medo de contrair o coronavírus, ou COVID-19, várias pessoas estão costurando e comprando máscaras caseiras para usar na rua, principalmente quando vão às compras. Esses equipamentos de proteção produzidos em casa sem embasamento científico têm tudo para dar errado. Nesse texto, explico o porquê com um exemplo histórico.

    A máscara de gás foi criada na Primeira Guerra Mundial como uma forma de proteger os combatentes no front, pois foi em um ataque em 1915 que as armas químicas passaram a ser utilizadas em massa pela primeira vez. Os primeiros ataques foram realizados com o gás cloro, mas ao longo do conflito outros tipos de gases mais letais foram desenvolvidos, como por exemplo o gás fosgênio e o mostarda.

    As primeiras máscaras eram bastante simples e consistiam basicamente em um pedaço de tecido embebido em soluções neutralizadoras que deveria ser atado ao nariz e a boca. Uma bastante conhecida é o respirador feito com véu negro desenvolvido por John Scott Haldane, o black veil respirator. Chegar ao design de uma máscara aparentemente tão simples não foi uma tarefa fácil. Como o tecido deveria necessariamente ser embebido com soluções neutralizadoras, ele precisava permitir a passagem de ar quanto úmido, já que muitas vezes os combatentes vestiam a máscara logo após mergulhá-la na substância neutralizadora e também ser capaz de neutralizar os efeitos dos gases quando seco.

    Por isso a black veil respirator era feita com um tipo específico de fibra de algodão, além de utilizar como faixa fixadora um véu – negro porque era o mais produzido no momento, já que era usado por viúvas ou mulheres como símbolo luto. Mas nem todos os tecidos permitem a passagem de ar quando estão molhados e desconhecer essa informação causou a morte de muitos soldados. 

    Em uma tentativa de auxiliar nos esforços da guerra, o governo britânico fez uma chamada para que civis fizessem um mutirão para confeccionar máscaras. Milhares delas foram confeccionadas da noite para o dia e enviadas para o front. Como se verificou da pior maneira, elas eram não só inúteis, como perigosas. Como foram confeccionadas com o tipo inadequado de fibra de algodão, essas máscaras não protegiam do gás quando secas e molhadas não permitiam a passagem do ar. Como consequência, no meio de um ataque muitos soldados ficaram desprotegidos ou precisaram tirar a máscara úmida e acabaram sendo feridos ou mortos pelos gases. A partir desse episódio, a produção de máscaras e outros equipamentos de proteção passou a ser centralizada por um departamento criado especificamente para lidar com as questões das armas químicas: o Gas Service. Além de produzirem equipamentos, esse destacamento era responsável por treinar os combatentes para que eles pudessem usar o equipamento de forma correta, já que só assim ele seria efetivo.

    Desenvolver um equipamento exige muita pesquisa e muitos testes. As coisas não funcionam porque elas parecem funcionar, mas sim porque elas acumulam tecnologias desenvolvidas a partir de muitas pesquisas e experiências. E eles só funcionam quando são utilizados de forma adequada, seguindo protocolos rigorosos de uso estabelecidos após numerosos testes.

    As máscaras que estão sendo criadas em casa ou vendidas por costureiras – e até mesmo aquelas cirúrgicas – não impedem a inalação do COVID-19. Elas somente são efetivas quando usadas por pessoas contaminadas, já que impedem a dispersão do vírus no ar através de gotículas. A pessoa saudável que usa uma máscara caseira está, na verdade, criando uma armadilha para concentrar o vírus (e outros microrganismos) no próprio rosto. Além disso, tocar na máscara, deslocá-la pelo rosto até a área dos olhos ou abaixá-la no pescoço para falar acabam, na verdade, aumentando as chances de contaminação. Por isso essas máscaras podem ser tão perigosas: elas criam uma sensação falsa de segurança, o que acaba aumentando as chances de contaminação.

    As únicas máscaras capazes de impedir a inalação dos vírus são aquelas que possuem um sistema para barrar partículas minúsculas, biológicas ou não, dispersadas por aerossol. E como dito anteriormente: elas só funcionam quando usadas de forma rigorosamente correta e por tempo limitado. Se não conhecemos o comportamento e o tamanho do vírus e as especificidades dos tecidos, e se não sabemos quais são os protocolos de segurança no uso, criar e usar máscaras caseiras é irresponsável e perigoso. Não existe equipamento milagroso contra a contaminação. Para diminuir os riscos de contrair a doença devemos ficar em casa e evitar aglomerações, lavar frequentemente as mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos, não tocar a face e manter ambientes ventilados.

    Se você não apresenta sintomas, não compre máscara de nenhum tipo! Deixe para as pessoas que trabalham na área da saúde e seus familiares, que estão expostos cotidianamente ao vírus, e para as pessoas que precisam cuidar de familiares e amigos doentes. Somente use máscaras se você estiver contaminado.

    Um último lembrete: precisamos proteger e investir na ciência brasileira, pois é somente através de pesquisas e experiências que encontraremos soluções eficientes para os nossos problemas, como é o caso da atual pandemia.

    Update 06/04/2020 (Coordenação do Blogs de Ciência da Unicamp): Até o presente momento a Organização Mundial de Saúde segue sem recomendações de uso de máscara por pessoas não contaminadas. O MS e o CDC mudaram suas recomendações, especialmente em função de pessoas que podem estar infectadas mas não sabem. Todas as recomendações mais recentes são apenas para usar máscara como barreira mecânica de quem está infectado. O Blogs de Ciência da Unicamp decidiu manter este post no ar, uma vez que traz um panorama histórico importante dos riscos de produções sem cuidados técnicos e científicos. Quaisquer recomendações feitas por este veículo de Divulgação Científica estão e estarão, sempre, de acordo com preceitos científicos e embasados teoricamente. Reiteramos, ainda, que quaisquer comentários desrespeitosos com a autora, ou o blogs, não serão aceitos. 

    Para Saber mais

    AULD, S. J. M. Gas and flame in modern warfare. Nova York: George H. Doran, 1918.

    FRANKE, I. A fotografia e a máscara: uma antropologia da imagem. 2019. 109 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

    GRAYZEL, S. R. Defence against the indefensible: the gas mask, the State and British Culture during and after the First World War. Twentieth Century British History, vol. 25. n. 3, 2014, pp. 418-434.

    JONES, S.; HOOK, R. World War I gas warfare tactics and equipment. Colchester: Osprey, 2007.

     

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Coronavírus: conhecendo o vilão COVID-19 e combatendo a infecção

    O que é o vírus, como ocorre a sua disseminação e por quê devemos mudar nossos hábitos para combatê-lo

     

    Tempo de leitura: 3 min

     

    O que é um vírus?

    O vírus é formado por uma cápsula de proteínas contendo material genético e que é capaz de se multiplicar dentro das células de organismos. As partículas virais infecciosas são montadas em uma célula hospedeira, geralmente são partículas metaestáveis e robustas o suficiente para proteger o genoma viral fora da célula1. Para explicar melhor, o Blogs de Ciência da Unicamp fez um vídeo explicativo e didático explicando o que é um vírus e como ele se propaga.

    Fonte: Conteúdo científico e roteiro – Luisa Fernanda Rios Pinto; Narrativa-Paula Penedo; Arte e animação- Carolina Frandsen; Produção-Equipe Blogs de Ciência da Unicamp.

    Mas o que é o COVID-19?

    O COVID-19, ou Sars-Cov-2, é uma doença infecciosa causada por um vírus recém descoberto e pertencente a família corona. O nome corona vem do fato de que quando os cientistas olham para o vírus pelo microscópio, o vírus parece ter uma “coroa” em volta de si.

    Fonte:Wikimedia Commons

    Existem vários tipos de coronavírus em humanos e animais, e a razão pela qual o COVID-19 tem ganhado tanta atenção é que este vírus foi detectado em humanos pela primeira vez em dezembro de 2019 e, até o momento (24/03/2020), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)2 já infectou mais de 370 mil pessoas ao redor do mundo. Sua capacidade de contágio é bastante alta comparada aos vírus anteriormente descritos e a severidade da síndrome respiratória causada (uma forte pneumonia) tem alertado o mundo para o perigo desta pandemia. Os dados ainda são bastante insipientes e a cada dia novas informações são descobertas a respeito dessa doença. 

    Nos Estados Unidos, a porcentagem das pessoas infectadas que desenvolvem os sintomas mais severos, necessitando tratamento intensivo (UTI), varia entre a faixa etária, sendo em média 10,5%3 e até 30,1%4 para pacientes entre 75-84 anos, segundo estudos estatísticos. Além disso, devido ao rápido contágio e a limitação dos sistemas de saúde, se sabe que a taxa de mortalidade pelo COVID-19 depende do país, mas está em torno de 0,36-8%, com uma baixa taxa reportada na Alemanha e a maior na Itália5

    É importante ressaltar aqui que ainda não há vacina ou remédio que sejam eficazes contra o COVID-19. Muitos laboratórios ao redor do mundo estão correndo contra o tempo para desenvolver um tratamento, mas as melhores estimativas são de que não teremos uma solução acessível à população pelo menos até o final de 2020.

    O Brasil

    No dia 23 de março, o Brasil contava com 1891 casos diagnosticados da doença e 34 mortes6. O crescimento é alarmante, sabendo que no dia 15 de março se reportavam 162 casos positivos para o COVID-19. Isso significa que em oito días (de 15 a 23 de março), os casos aumentaram mais de 11 vezes. Isso nos dá um bom indicativo de como a doença se espalha rapidamente, o que pode levar ao esgotamento dos leitos disponíveis em hospitais para o tratamento dos doentes. 

    O Brasil conta com uma população de cerca de 210 milhões de habitantes. Se imaginarmos que somente 50% da população terá contato com o vírus, e que 50% dessa pessoas desenvolvem sintomas, o número de pessoas sintomáticas no Brasil pode chegar a 50 milhões de pessoas. Desses 50 milhões, estima-se que 5% precisaria de tratamento hospitalar7. Imagine agora se todas essas pessoas ficarem doentes ao mesmo tempo. Seria humanamente impossível tratar todos os doentes, ademais somando-se os pacientes com outras doenças e acidentes. Repare que todos esses números são baseados nos dados que temos disponíveis de outros países, e que ao final dessa crise, esse cenário poderá ter sido melhor, ou ainda pior. 

    Diante desse cenário, podemos ver a importância de diminuir a disseminação do vírus, para que assim não tenhamos um sistema de saúde sufocado e sem a capacidade de tratar todas as pessoas doentes. 

    Qual o melhor combate ao coronavírus? 

     

    Higiene

    Criar hábitos de limpeza é muito importante nessa jornada. O melhor que podemos fazer para ajudar a sociedade é nos isolar em casa. Mas as vezes precisamos sair para ir ao mercado ou algum lugar que seja urgente. Para isto precisamos ter uma rotina de limpeza para entrar em casa e recomendamos alguns passos:

    1. Coloque as chaves perto da porta e não pegue-as se não for sair; se puder, limpe.

    2. Assim que chegar em casa, tire os sapatos e a roupa e deixe do lado de fora, depois lave a roupa com água e sabão. 

    3. Ao entrar em casa, não toque em nada antes de se higienizar.

    4. De preferência tome banho, se não puder, lave bem todas as áreas expostas com água e sabão. 

    5. Limpe o celular com um lenço e um pouco de álcool 70%, se não tiver álcool pode passar um paninho com água (não precisa ser muita) e um pouco de sabão e depois retirar o excesso com um lenço úmido (quase seco).

    6. Se tiver óculos, lave os óculos com água e sabão. 

    7. Quando estiver em casa, lave as mãos frequentemente com água e sabão durante 20 segundos.

    8. Não precisa ficar de máscara na casa se não estiver doente ou positivo com coronavírus. 

    9. Tente fazer o máximo de compras online. Se pedir alguma coisa pelo delivery, evite falar com a pessoa, pegue a caixa, limpe com álcool e entre em casa; evite contato, use cartão para pagar a conta. 

    10. Evite passar as mãos na boca ou nariz.

    11. Evite o pânico.

     

    Se possível #fiqueemcasa, mas se precisa sair para algum lugar, evite o uso de transporte público, evite aglomerações e evite tocar em superfícies. Lembre-se: sempre que puder, lave as mãos e siga a rotina acima da limpeza no retorno a casa.

     

    Isolamento

    Neste momento é melhor ficar em casa e evitar circular pelas ruas. O isolamento serve para combater ou impedir o espalhamento do vírus. Serve para que a doença não seja transmitida para as demais pessoas e com o isolamento, evitamos a propagação massiva da COVID-19 a superlotação de hospitais por pessoas infectadas e que o sistema de saúde entre em colapso. É importante manter o distanciamento social. Muitos países decretaram quarentena (isolamento físico e temporário de pessoas) para evitar o contágio, e é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

     

    Para saber mais:

    https://www.blogs.unicamp.br/covid-19/os-isolamentos-sao-importante-sim-senhor-e-nao-e-de-hoje-essa-pratica/

     Depende de todos para que este vírus não se espalhe pelo país e o isolamento é uma maneira de cuidarmos e cuidar dos nossos familiares. 

     

    #ficaemcasa #coronavírus

     

    Referências

     

    [1] Mateu MG. The Structural Basis of Virus Function. Structure and Physics of Viruses. Acesso:https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-94-007-6552-8_1

    [2]https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019

    [3]https://www.statista.com/chart/21173/hospitalization-icu-admission-and-fatality-rates-for-reported-coronavirus-cases/

    [4]https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/mm6912e2.htm

    [5]https://brasil.elpais.com/brasil/2020/03/20/ciencia/1584729408_422864.html

    [6]https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:folha-informativa-novo-coronavirus-2019-ncov&Itemid=875

    [7]https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/03/18/protocolo-elaborado-pelo-incor-vai-orientar-o-tratamento-dos-casos-graves-de-coronavirus-em-sp.ghtml

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Química do coronavírus – Parte III

    Pesquisa e desenvolvimento de agentes químicos para o coronavírus

    Indo direto ao ponto, não existem fármacos para o tratamento de pacientes com COVID-19. O fato é que nesse momento não tem no mercado nenhum fármaco ou vacina direcionado para conter a ação do coronavírus (SARS-CoV-2)Uma variedade de medicamentos aprovados para outras indicações, bem como vários medicamentos em investigação, estão sendo estudados em várias centenas de ensaios clínicos em andamento em todo o mundo.

    Reposicionamento de fármacos

    Dado o longo processo de desenvolvimento de novos medicamentos, a estratégia de reaproveitamento de medicamentos tornou-se uma das soluções escolhidas para o tratamento imediato de indivíduos infectados com SARS-CoV-2.

    O reposicionamento ou reaproveitamento de medicamentos é uma abordagem para acelerar o processo de descoberta de medicamentos através da identificação de um novo uso clínico de um medicamento existente aprovado para uma indicação diferente. Nesse contexto, dentre algumas fármacos já conhecido que são candidatos a tratar o COVID-2019  tem-se o arbidol, cloroquinona, lopinavir, remdesivir, etc .[1]  

    Pesquisadores na França publicaram um estudo em que trataram 20 pacientes com COVID-19 com hidroxicloroquina. [2] Eles concluíram que o medicamento mostrava ação antiviral positiva, no entanto, não foi um estudo controlado randomizado e não relatou resultados clínicos, como óbitos. Em orientação publicada na sexta-feira, a Sociedade Americana de Medicina Intensiva disse que “não há evidências suficientes para emitir uma recomendação sobre o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina em adultos gravemente enfermos com COVID-19”. [3] Diante das evidências controversas, ainda há muito caminho pela frente quanto ao uso satisfatório de cloroquina no tratamento de pacientes com COVID-2019. Mais informações sobre os ensaios podem ser encontradas em: https://clinicaltrials.gov/  

    A ribavirina é um medicamento antiviral aprovado pelo FDA, que é  usado em combinação com outros medicamentos para o tratamento da infecção crônica pelo vírus da hepatite C e febres hemorrágicas virais. Produzindo uma atividade de amplo espectro contra vários vírus de RNA e DNA, a ribavirina é um nucleosídeo sintético de guanosina que interfere na síntese de mRNA viral. Atualmente, estudos recentes sugerem que a ribavirina em combinação com interferon ou lopinavi/ritonavir  poderia ser eficaz para tratar a infecção por COVID-19. [1]

    Atualmente, pelo menos nove ensaios clínicos sobre lopinavir/ritonavir estão em andamento na China. O resultado inicial sugeriu que o lopinavir e o ritonavir mostram atividade estimulante antiCOVID-19 in vivo, mas com efeitos colaterais intestinais.[4] No entanto, estudo em pacientes adultos hospitalizados com Covid-19 em seu estágio grave não demonstrou nenhum benefício significativo. [5] Adicionalmente, Uma dose fixa da combinação anti-HIV, lopinavir-ritonavir, está atualmente em ensaios clínicos com Arbidol ou ribavirina. [1]

    O medicamento antiviral de amplo espectro Arbidol, que funciona como um inibidor da fusão de células hospedeiras de vírus, entrou em um ensaio clínico para tratamento de SARS-CoV-2. O arbidol é capaz de impedir a entrada viral nas células hospedeiras contra o vírus influenza. [1] Será que o arbidol vai funcionar para o tratamento da COVID-2019?

    Desenvolvimento de vacina

    É crucial o desenvolvimento de vacinas seguras e eficazes para controlar a pandemia de COVID-19, eliminar sua propagação e, finalmente, impedir sua recorrência futura. Como o vírus SARS-CoV-2 compartilha homologia de sequência significativa com outros dois coronavírus letais, SARS e MERS (Para entender um pouco mais sobre SARS e MERS, visite nosso primeiro post dessa série: Química do coronavírus – parte I), as vacinas identificadas nessas patentes relacionadas aos vírus SARS e MERS poderiam facilitar o projeto de vacinas anti-SARS-CoV-2. [1]

    A primeira dose da vacina contra o coronavírus denominada mRNA-1273, [1] desenvolvida pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) e pela equipe de pesquisa de doenças infecciosas da Moderna, foi administrada ao primeiro participante do estudo de Fase 1 em 16 de março. A vacina de mRNA se baseia em moléculas sintéticas de RNA mensageiro (mRNA) – que contêm as instruções para produção de alguma proteína reconhecível pelo sistema imunológico. A ideia é que a defesa do organismo reconheça essas proteínas artificiais como um corpo estranho, levando o corpo a combatê-lo. Se der certo,  na presença do coronavírus, a célula terá desenvolvido a habilidade de identificar e combater o vírus real.

    Á luz do exposto, nota-se um esforço conjunto para desenvolver medicamentos e vacinas eficazes contra infecções de coronavírus existentes e potenciais e outros surtos de vírus altamente patogênicos é necessário para reduzir os impactos na vida humana e nos sistemas de saúde em todo o mundo. Dado o processo oneroso e árduo envolvido no desenvolvimento clínico de medicamentos, o surto de COVID-19 destaca o valor do desenvolvimento de medicamentos antivirais de amplo espectro e a importância de aplicar abordagens inovadoras, como inteligência artificial, para facilitar a descoberta de medicamentos.  

    Nesse momento, somos todos responsáveis pelo avanço da infecção do coronavírus.

    Fiquem em casa e evitem a transmissão do vírus!

    Mapa de coronavírus

    A pandemia de coronavírus afetou mais de 329.000 pessoas, segundo dados oficiais. Na manhã de segunda-feira, pelo menos 14.522 pessoas morreram e o vírus foi detectado em pelo menos 161 países, como mostram esses mapas. Para rastreamento do surto global em tempo real, click AQUI.

    Referência bibliográfica

    1. Liu, Cynthia, Qiongqiong Zhou, Yingzhu Li, Linda V. Garner, Steve P. Watkins, Linda J. Carter, Jeffrey Smoot, et al. “Research and Development on Therapeutic Agents and Vaccines for COVID-19 and Related Human Coronavirus Diseases.” ACS Central Science, March 12, 2020, acscentsci.0c00272. https://doi.org/10.1021/acscentsci.0c00272.

    2. Gautret P, Lagier J, Parola P, Hoang V, Meddeb L, Mailhe M, et al. Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial. International Journal of Antimicrobial Agents. In Press. http://www.mediterranee-infection.com/wp-content/uploads/2020/03/Hydroxychloroquine_final_DOI_IJAA.pdf

    3. Kupferschmidt, Kai. “WHO Launches Global Megatrial of the Four Most Promising Coronavirus Treatments.” Science, March 22, 2020. https://doi.org/10.1126/science.abb8497

    4. Liu, Wei, Hai-Liang Zhu, and Yongtao Duan. “Effective Chemicals against Novel Coronavirus (COVID-19) in China.” Current Topics in Medicinal Chemistry, March 5, 2020. https://doi.org/10.2174/1568026620999200305145032.

    5. Cao, Bin, Yeming Wang, Danning Wen, Wen Liu, Jingli Wang, Guohui Fan, Lianguo Ruan, et al. “A Trial of Lopinavir–Ritonavir in Adults Hospitalized with Severe Covid-19.” New England Journal of Medicine, March 18, 2020, NEJMoa2001282. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2001282.

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Química do Coronavírus – Parte II

    A proteína spike da SARS-CoV-2 é a responsável pela nome característico do vírus tal como vimos na postagem “Química do Coronavírus – parte I”, por causa do sua forma similar a de uma coroa. De forma bem resumida, a proteína spike do coronavírus é uma máquina molecular multifuncional que medeia a entrada de coronavírus nas células hospedeiras. Dessa forma, os mecanismo de entrada na células são orquestrados por essa proteína que tem a capacidade de ligar-se aos receptores celulares e, também mediam as fusões da membrana célula-vírus.

    Entre todas as proteínas estruturais do SARS-CoV, a proteína spike é o principal componente antigênico responsável por induzir respostas imunes do hospedeiro, neutralizar anticorpos e/ou imunidade protetora contra a infecção pelo vírus. Portanto, a proteína spike da SARS-CoV tem papéis fundamentais na infecção viral e patogênese. Na sequência, um vídeo  ilustrativo mostra como o vírus invade a célula ao ligar-se ao receptor que se encontra na superfície da sua camada lipídica.

    Uma vez ligado ao receptor celular, o vírus entra na celula na forma reconhecido e, portanto, protegido pelo sistema imunológico no interior da célula humana. É como se fosse um presente de grego. O receptor não entendeu que abriu a porta e colocou para dentro da célula um invasor.

    Agora, dentro da celular, o vírus é livre para se replicar e liberar novas células COV-2 totalmente funcionais que repetem exponencialmente o ciclo. A estratégia mais comum adotada pelos pesquisadores é um ativo químico que possa interromper essa entrada celular e, dessa forma neutralizar o vírus, deixando-o acessível e vulnerável ao sistema imunológico humano. Portanto, a ideia geral no desenvolvimento de fármaco direcionado ao COVID-2019 é impedir a ação dessa importante proteína viral.[1]

    Para que a estratégia de impedir a entrada do vírus dentro da célula tenha sucesso faz-se necessário conhecer as estruturas da proteína Spike e dos receptores. É a magnitude das interações químicas que ocorrem entre as partes envolvidas do receptor celular e do coronavírus que ditarão o sucesso dessa jornada na busca de novos medicamentos.Nesse contexto, a estrutura da glicoproteína spike (S) de SARS-CoV-2 revela a arquitetura do principal agente de entrada viral nas células hospedeiras, ao mesmo tem que fornece o desenho do futuro fármaco.

    Referência bibliográfica


    [1] Walls, Alexandra C, Young-Jun Park, M Alejandra Tortorici, Abigail Wall, Andrew T. McGuire, and David Veesler. “Structure, Function, and Antigenicity of the SARS-CoV-2 Spike Glycoprotein.” Cell, 2020. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0092867420302622

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Se acharmos um tratamento, o que acontece?

    Se acharmos um tratamento, o que acontece?

    Seguindo uma linha otimista, vamos supor que a hidroxi-cloroquina funciona mesmo. Ai meu amigo leitor, temos a sorte grande! Pois, como ela é tratamento da malária, alguns laboratórios já dominam como obtê-la com sucesso. E como anunciado, os laboratórios do exército já estão atuando em obter uma grande quantidade da droga, apenas não temos informações se eles dominam o processo ou precisam desenvolvê-lo. Então vamos analisar os problemas que encontramos nesta solução, que não pode ser definida como a solução de todos os males.

    Ainda não sabemos qual a dose que está sendo administrada, mas vamos supor que tenhamos que dar uma dose de 1000 mg do comprimido por dia, 1 g. Este número foi escolhido apenas para facilitar nosso cálculo e também por que no tratamento de lúpus, a dose é de 800 mg no início do tratamento. Voltemos a esta 1g, administrada por 7 dias, são 7 gramas de hidroxi-cloroquina por paciente. O número divulgado na mídia às 17:47 do dia 21 de março é de  1128 casos confirmados. Para tratar estas pessoas, apenas estas, por uma semana, precisamos de mais de 7 kg da droga. Precisamos de muitos laboratórios para termos a quantidade necessária para tratar todos os doentes previstos para o meio de abril nos hospitais, mesmo que apenas os casos mais graves. 

    Falando em síntese, encontramos outros problemas:

    1. Agora vamos falar um pouco da produção. Pense numa reação simples:

    A+B → C.

    Quando misturamos reagentes químicos, não conseguimos garantir que A reaja unicamente com B, para formar C. A reage com A e forma AA, assim como B forma BB. Ou ainda, B perde um pedaço e vira P. Tudo que forma e não deveria, ou que sobra (nem tudo reage), chamamos impurezas. Assim as impurezas vão se somando ao longo da rota de obtenção, pois estamos falando de mais de uma etapa. O que precisamos é saber que na obtenção de C, pode ter um pouco de P. Então, temos que saber a quantidade de P e saber que P não faz mal. Afinal, não adianta dar C como remédio e ele ter o P lá no meio que causa infarto, ou dá câncer. (Se você precisou ler isso mais de uma vez para acompanhar, tudo bem, pois é mesmo complicado).

    Agora extrapola para uma rota de 4 etapas (A+B → C→ D → E), em que no final temos as sobras dos reagentes e também outras impurezas que se formaram pelo caminho. Os produtos obtidos a cada etapa devem ser separados desta bagunça, passo a passo e também no final. Isso chamamos de garantir a pureza. Por isso obter uma molécula como a hidroxi-cloroquina pode não ser simples.

    1. Outro ponto importante é: quem começa a rota de síntese? O primeiro composto da rota chamamos de material de partida. Ele também precisa ser feito de moléculas simples ou então ser comprado. Se a hidroxi-cloroquina funciona mesmo, o mundo todo está de olho nos materiais de partida (e reagentes) para usarem na rota. Como o exército está obtendo? Normalmente no Brasil, a maioria dos reagentes ação importados, pois não temos uma indústria química muito forte no país, que produz materiais de partida e reagentes para nossas rotas.

    Vamos dizer então que o processo está validado (sem impurezas) e que conseguimos os reagentes e materiais de partida. Vamos supor um lote do insumo chegue a 25 kg, e que a droga demore 5 dias para ser obtida, ainda assim a progressão da doença é maior do que o que podemos produzir. Ou seja, o laboratório que vai produzir, precisa estar funcionando 7 dias por semana,  24 horas por dia e ainda assim não conseguirá dar vazão. 

    No Brasil, grande parte dos princípios ativos é comprada de laboratórios ao redor do mundo e embalados pelas indústrias farmacêuticas, que fazem o comprimido (ou xarope, ou suspensão, etc) com o princípio ativo. Quem faz o princípio ativo é a indústria farmoquímicas. Quando eu falo ao redor do mundo, falo em India, China, Taiwan, Itália, Espanha, e por aí vai. Creio que aqui, você já entendeu que cada um destes laboratórios está destinado a produzir para o consumo interno do país, não é mesmo?

    Em resumo, ainda que a hidroxi-cloroquina ou outra droga funcione para o tratamento do Covid-19 ainda temos diversos outros desafios, mesmo correndo contra o tempo, com foco na segurança e eficácia em todas as etapas!

    E o melhor caminho é: fique em casa!!!!

     

    Para saber mais:

    http://www.gradadm.ifsc.usp.br/dados/20171/7600011-3/Introducao-Farmacos-2017-compressed.pdf

    https://www.ictq.com.br/industria-farmaceutica/384-desenvolvimento-de-farmacos-avancos-e-perspectivas (Acesso em 21 mar 2020)

    Sangi, D. P. Estratégias de síntese na descoberta de fármacos: e emprego da síntese orientada pela diversidade estrutural. Quim. Nova, Vol. 39, No. 8, 995-1006, 2016.

    Arrepia, D. B.; da Costa, J. C. S.; tabak, D. Registro de insumos farmacêuticos ativos: impactos e reflexos sobre as indústrias farmoquímica e farmacêutica instaladas no Brasil. Vigil. sanit. debate Vol 2, No 2, 9-19, 2015.

    https://www.ictq.com.br/industria-farmaceutica/990-controle-da-qualidade-de-insumos-farmaceuticos-e-fundamental-para-eficacia-do-medicamento (acesso em 21 mar. 2020)

    Jia Liu et al hydroxychloroquine, a less toxic derivative of chloroquin, is effective in inhibiting SARS-CoV-2 infection in vitro. Cell discovery. Vol 6, No 16, 2020. 

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Hidroxi-cloroquina, já ouvi este nome!

    Nos últimos dias temos ouvido falar muito na droga hidroxi-cloroquina (cloroquina com um substituinte hidroxi – OH). Antes você também já pode ter escutado algo sobre ela, seja no tratamento da Malária ou ainda nos bons resultados apresentado para o Zika (outro vírus que nos assusta). E, sim, é muito bom que você já tenha ouvida falar nela antes, pois isso acelera e muito as coisas.

    Quando estamos trabalhando no desenvolvimento de uma nova droga, temos diversas etapas para garantir que ela será eficiente e também segura. Eficiente é fácil de entender, ela deve combater a doença que queremos tratar. Segura quer dizer que ela não irá causar nenhum efeito danoso, como câncer ou intoxicar algum outro órgão (toxicidade hepática), por exemplo. E como os profissionais que trabalham no desenvolvimento de drogas garantem isso?

    Tudo começa no desenho da molécula que irá atuar como princípio ativo. Nela, não pode haver porções que são conhecidas por alguma toxicidade (não dá para colocar uma  talidomida pendurada na molécula, por que sabemos que ela é teratogênica, por exemplo). Então com a droga desenhada e estuda por ferramentas in silico (em programas de computador), a síntese em bancada (ou o isolamento da natureza) é realizado.

    Depois disso, a molécula é testada in vitro e depois in vivo. In vitro  significa ser testada em células isoladas no laboratório, já in vivo  é o teste em animais. Nesta etapa é que entram os testes em ratos e depois em outros animais, claro, presumindo que tudo dá certo desde de o desenho da molécula até o teste em ratos. Testar em animais é muito importante pois começa a avaliar o metabolismo. Tudo isso é a chamada fase pré-clínica, e ela dura de meses a anos.

    Passando em todos os testes, e com louvor, a molécula de interesse vai para os ensaios clínicos. Aí entram mais 3 fases, que estão resumidas abaixo.

    • Fase I: avalia a segurança da droga, são 20-100 indivíduos e dura alguns meses. Se os indivíduos começam a apresentar efeitos colaterais, a droga pode ser suspensa;
    • Fase II: Indivíduos sadios e doentes, aqui se avalia a segurança da droga e também a eficácia. É comum, nesta fase, indivíduos receberem a famosa pílula placebo (apenas açúcar) e se avalia relação dose-resposta. Esta fase dura de vários meses até 2 anos.
    • Fase III: O número de indivíduos testados é maior. Segue-se acompanhando a segurança, mas a eficácia é o objetivo. Também ocorre o uso de placebo. Aqui se define que a droga realmente funciona
    • Depois de tudo, a indústria que começou a mais ou menos 10 anos atrás o desenho e síntese de mais de 10000 moléculas, consegue registrar uma que passou em todas as etapas. Quando temos algumas doenças graves, em estado terminal, algumas etapas podem ser puladas. Isso acontece bastante em tratamento de câncer e uso de drogas experimentais. Mas claro, sempre com ética e inúmeras aprovações em inúmeros comitês especializados. 

    Se hoje descobríssemos uma droga para a doença causada pelo covid-19, ela teria que passar por várias etapas, sendo algumas delas ignoradas devido à urgência da pandêmina. 

    E a hidroxi-cloroquina?

    Acontece que como a hidroxi-cloroquina já foi testada para malária e já se sabe (e muito bem) seus efeitos colaterais, não precisamos começar lá no início. Com os resultados bem  preliminares publicado pelos franceses, agora o Brasil está testando protocolos de administração da hidroxi-cloroquina. E isso não está errado, afinal, a segurança da droga já é conhecida. Assim, logo saberemos se a hidroxi-cloroquina é mesmo eficaz no tratamento do covid-19. Fique atento, pois até agora, 21 de março de 2020, as 20:00, enquanto escrevo este texto, não se tem certeza sobre isso. E neste mesmo instante, inúmeros cientistas estão estudando a hidroxi-cloroquina, e diversas outras outras drogas, para assim podermos obter um tratamento eficaz. 

    Agora vamos ser otimistas e dizer que a droga funciona, o que vai acontecer? Acompanha nosso próximo texto sobre isso!

    Para saber mais:

    http://www.cvs.saude.sp.gov.br/up/Desenvolvimento%20de%20novos%20medicamentos.pdf

    (acesso em 21 mar. 2020)

    http://www.gradadm.ifsc.usp.br/dados/20171/7600011-3/Introducao-Farmacos-2017-compressed.pdf

    Arrepia, D. B.; da Costa, J. C. S.; tabak, D. Registro de insumos farmacêuticos ativos: impactos e reflexos sobre as indústrias farmoquímica e farmacêutica instaladas no Brasil. Vigil. sanit. debate Vol 2, No 2, 9-19, 2015. 

    Kumar, A. et al   Hydroxychloroquine Inhibits Zika Virus NS2B-NS3 Protease. ACS Omega Vol3, No 12, 18132-18141, 2018.

    Jia Liu et al hydroxychloroquine, a less toxic derivative of chloroquin, is effective in inhibiting SARS-CoV-2 infection in vitro. Cell discovery. Vol 6, No 16, 2020.

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Valentões dentro da célula, sensíveis fora dela: os vírus

    Vírus são partículas infecciosas, invisíveis a olho nu. Eles são formados por um material genético protegido por estrutura formada basicamente por proteínas, o capsídeo. Alguns vírus também apresentam uma membrana (ou envelope) formado por proteínas e lípidos, uma biomolécula com nome de origem grega, lipos, gordura. 

    Existem vários tipos de vírus. Eles  variam em tamanho, morfologia (formato e composição), mecanismos de replicação e conteúdo de material genético. Isso faz com que um vírus que atinge humanos possa não atingir outras espécies animais, como o cachorro. O contrário também é válido. 

    A organização Mundial de Saúde (em inglês, World Health Organization, WHO), declarou que, até o momento, não há evidências de que cachorros e gatos de estimação possam transmitir o COVID-19. 

    Comparado ao genoma humano, o material genético do vírus é pequeno. Por exemplo, enquanto o genoma humano tem cerca de 3 bilhões de pares de bases e cerca de 100 000 genes (National Human Genome Research Institute), os menores genomas virais variam de menos de 2 000 bases, contendo dois genes, a 2,5 milhões de pares de bases, contendo mais de 2 500 genes (Simmonds e Aiewsakun, 2018). 

    Apesar de terem no material genético as informaçõe necessárias para a produção de novos vírus, eles não são capazes de fazer isso sozinhos e por esse motivo são parasitas intracelulares obrigatórios. 

    Nos seres vivos, como nós seres humanos, acontece incessantemente inúmeras reações bio(quimicas), o metabolismo. Uma vez dentro da célula, o vírus usam o metabolismo do hospedeiro para se replicar.  Dessa forma, as células infectadas produzem mais vírus que poderão infectar novas células e hospedeiros. 

     

    O COVID-19 faz parte dos Coronavírus, uma família de vírus que causam infecções respiratórias.

    Valentões dentro da célula, fora eles são bem sensíveis. Os vírus duram pouco tempo sozinhos fora da célula/hospedeiro. Aí está a nossa vantagem em relação aos vírus: podemos quebrar a transmissão de hospedeiro a hospedeiro e dessa forma quebrar a propagação da contaminação.  A quarentena é uma forma de ajudar nesse processo. Sobre isolamento sociala e quarentena, fica a sugestão de leitura do post Os isolamentos são importantes sim senhor! E não é de hoje essa prática…

    A membrana ou envelope do vírus não é como uma armadura medieval, superresistente. Aí entra o nosso contra-ataque: o hábito de higiene que aprendemos desde pequenos: lavar as mãos com sabão. 

    Quando lavamos as mãos, o sabão interage com os lipídeos presentes na membrana (ou envelope) do vírus, desestabilizando e quebrando as interações físico-químicas que ocorrem no envelope, destruindo o vírus O sabão “dissolve” a gordura do vírus. 

    Para que o sabão possa agir de forma efetiva sobre o vírus é necessário lavar as mão de forma adequada, como mostra o Dr. Drauzio Varella no vídeo. 

    Referências

    Ministério da Saúde. Coronavírus e novo coronavírus: o que é, causas, sintomas, tratamento e prevenção.

    Peter Simmonds e Pakorn Aiewsakun. Virus classifcation – where do you draw the line? Archives of Virology. 2018

    Rios, Alessandra Câmdida et al. Alternatives to overcoming bacterial resistances: State-of-the-art. Microbiol Res. 2016.

    Voet, Donald e Judith Voet. Biochemistry. Third Edition. John Wiley & Sons, INC. 2004. 

    World Health Organization. Coronavirus disease (COVID-19) outbreak.

    (mais…)
  • Crescimento exponencial: Como ficar rico ou contaminar multidões rapidamente

    Este é um tema que está em alta devido a pandemia de COVID-19, que apresenta um risco alto de contaminar uma quantidade muito grande de pessoas em pouco tempo devido a esta característica chamada “crescimento exponencial”, que é o que discutiremos aqui!

    No dia-a-dia estamos mais acostumados com eventos que possuem um crescimento “linear”, isto é, algo que cresce a uma taxa constante. Vamos pensar em um exemplo: Suponha que você ganhe R$ 8,00 por hora de trabalho, no final de uma semana, considerando 40 horas trabalhadas, você terá ganho R$320,00.

    Exemplo de crescimento linear, como a taxa é constante basta multiplicá-la pelo número de horas. Recebe este nome pois o gráfico que representa este comportamento é uma reta, como visto na figura.

    Como este tipo de evento é mais comum, nossa intuição mesmo sem perceber faz com que projetemos tudo de maneira linear. Isto faz parecer que os 540 casos de COVID-19 no Brasil em seu 22º dia desde o primeiro caso não pareça tão alarmante (Dado do dia 18/03/2020, das Secretarias Estaduais de Saúde). Mas não se engane, a situação é MUITO PREOCUPANTE.

    Isto se deve ao fato do número de novos doentes depender do número de doentes existentes. Esta é a principal característica de um crescimento exponencial: No começo o crescimento é lento, até menor que um crescimento linear, pois há poucos doentes para transmitir a doença; Porém, com o aumento de transmissores, este crescimento aumenta muito, como podemos ver em outros países como a Itália e a Espanha.

    Este é o mesmo princípio que faz com que juros compostos possam ser perigosos quando se assume um empréstimo, você não percebe o aumento, que ocorre como uma bola de neve.

    Para os amantes de desenho animado como eu, talvez lembrem da animação Futurama. Neste show, o protagonista Fry é congelado por mil anos e passa a viver em uma sociedade futurística. Em um dos episódios é revelado que o banco onde Fry possuía uma conta ainda existe e que antes de ser congelado ele possuía 93 centavos de dólar em sua conta.

    A poupança do banco de Fry rendia um total de 2,25% ao ano (um rendimento bem ruim, diga-se de passagem). Quanto dinheiro você imagina que Fry descobre ter no futuro, mil anos depois? Fazendo as contas, descobrimos que sua fortuna passou de US$0,93 para aproximadamente US$4.280.000.000,00, isto é, mais de quatro BILHÕES de dólares.

    Exemplo de crescimento exponencial, no começo o crescimento é bastante modesto pois depende do valor inicial, porém rapidamente torna a cresce de maneira bastante expressiva.

    Voltando para o Coronavírus: vamos considerar um modelo bastante simples, suponha que o número de doentes no Brasil cresça 33% por dia e chamaremos de dia “0” (zero) o dia em que tínhamos apenas um doente. No dia 22, teríamos 530 pessoas com o vírus, algo muito próximo da situação de agora. E mais pra frente?

    Uma semana depois, no dia 29, teríamos 3.905 pessoas infectadas no país. Passando mais uma semana, no dia 36, 28,751 pessoas doentes. A Itália neste momento possui cerca de 41 mil casos de COVID-19 em seu país, estando no seu 57º dia desde o primeiro caso confirmado. Ultrapassaríamos estes números no dia 38.

    Dados reais de casos de COVID-19 no Brasil. Os pontos azuis representam dados do Ministério da Saúde e os pontos laranjas representam dados das Secretarias Estaduais de Saúde. Agradecimentos a Roberto Takata (Gene Reporter) por disponibilizar os dados e a figura.

    E é por isto que autoridades de saúde estão fazendo apelos tão fortes e tomando medidas drásticas para combater a pandemia. Obviamente o modelo que mostro agora é demasiado simplificado para mostrar a real situação do espalhamento do SARS-CoV-2 no Brasil, por exemplo, haverá um momento onde algumas das pessoas serão curadas, ou onde não haverá mais pessoas a se contaminar, fazendo com que a curva passe a diminuir de ritmo. Mas serve para deixar claro um ponto: a situação pode sair de controle muito rápido, precisamos tomar as devidas precauções o quanto antes!

    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.

  • Ficar em casa para quê?

    Versão Ana Arnt do fim de Fevereiro…

    Enquanto eu estava viajando para um canto aqui na América do Sul, nas minhas férias, eu acompanhava a situação do Corona, à distância. Tentava entender a gravidade da situação pelos jornais, entre alarmismos e uma calma latente. (mas a letalidade não é baixa? Pensava eu…). Entre um café e outro, uma trilha aqui, uma parada em um lugar com internet ali, eu buscava acompanhar as notícias sem um empenho dantesco…

    Por outro lado, eu conversava com a Rafaela quase todos os dias! Mensagens bobas sabe? De saudades, felicidade pela projeção da amiga na pesquisa, pelas fotos bonitas em redes sociais… Estas coisas que parecem, para muitos, fúteis e mundanas (e são mesmo, em muitos níveis!). Entre relatos de pesquisa e novidades de laboratórios, conversas comuns de amigas que mesmo distante, seguem em contato. Desde que pensamos em montar esta série de textos, olhando para trás, fizemos uma retrospectiva, que apresentamos hoje, a partir da narrativa e perspectiva dela, na Itália…

    Diário de uma pesquisadora na Itália, em  etapas…

    1 – Quando o vírus começou a aparecer na China, estávamos de olho. O grupo de pesquisa que eu participo estudou a primeira epidemia de SARs, em 2003 , é normal acompanhar casos semelhantes e estar sempre atentos.

    2 – O vírus chega na Itália! Um casal chinês que estava em Wuhan vem para cá, nós monitoramos a situação… Mas até este momento, nem imaginávamos o que estava por vir.

    3 – Passam-se algumas semanas. Chega a notícia do paciente 1, que não teve contato com ninguém da China, nem ninguém infectado. Como assim? De que maneira isso pode ter escapado ao nosso radar?

    4 – Não há como não elaborar, no susto, teorias da conspiração diversas. Porém, hoje, sabemos que em razoável silêncio, o vírus já estava em circulação comunitária.

    5 – Segundo a OMS, os pacientes que se encaixavam como suspeitos do Corona teriam que ter contato com pessoas que vieram de países com a doença, além dos sintomas. O paciente 1 não esteve em contato com ninguém que estivera nos países de risco… A Itália, assim, descartou o paciente 1. 

    6 – Enquanto isso, no nosso laboratório, muita conversa, um pouco de piada, análises de textos e informações. Uma leveza extrema, as conversas fluíam entre análises.

    7 – De repente, opa! Em um piscar de olhos: o número de casos aumentam! De um dia pro outro, dobram! Como assim?

    8 – Carnaval chegou. Sim a doença estava aparecendo, mas estava tudo bem, estávamos monitorando e aprendendo sobre tudo o que ocorria. Eu, particularmente, fui à Veneza com a minha máscara (lindíssima, inclusive!). Está tudo tranquilo, posto fotos em redes sociais, converso com amigos do Brasil, que também estão no carnaval… E…

    9 – 11 cidades fecham! Carnaval cancelado! Isso: CANCELADO. Lockdown! Acabou o carnaval no meio da praça. Simples assim: em um segundo eu estou de máscara, plena, rindo. No outro é anunciada a medida de conter o coronavírus pelo microfone no meio da festa na rua.

    10 – Medo. Sim, não há outro modo de dizer. Eu estou em pânico de ficar presa em Veneza! Corro. Suspendo o resto da reserva do hotel, pego o trem e volto pra casa. Enquanto isso, uma amiga brasileira que está comigo, acha melhor ir pro Sul, porque lá a situação tá mais tranquila. 

    11 – Volto para Milão, a vida parece normal no norte, menos pânico que em Veneza (Ufa!!! que bom!!). Lá tinha um caso confirmado (Deus me dibre de ficar lá presa, sozinha). Em Milão, ainda não há casos confirmados. 

    12- Dias depois, o medo vai dominando a mídia. Mil indicações de álcool em gel a todo instante. Eu acalmo meus amigos do Brasil que perguntam, falo que devem se preocupar com a Dengue e outras doenças tropicais. “Calma, tá tudo certo, tem um certo exagero no ar”, eu dizia. Mas enquanto isso…

    13 – Eu começo a mastigar artigos e relatórios da OMS, tanto para debater no grupo de pesquisa, quanto para discutir com as minhas amigas na Itália como poderíamos viver aquele momento. Quase numa tentativa de não assumir que a gente tinha que ficar em casa mesmo! Eu ainda comento com algumas amigas brasileiras que tenho dúvidas se devo voltar ou não. É tudo muito incerto, sabe?

    14 – Minha amiga, que tinha ido para o sul? Fui visitar ela e logo após ela consegue pegar o último vôo da latam Itália-Brasil.

    15 – Ah pronto! Bloquearam o norte! Eu fiquei…

    16 – Mas também… Ainda dava para ir trabalhar, ir em restaurante… Eu usava álcool em gel e mantinha um metro de distância, como recomendado. Uma pena não conseguir mais ir visitar o lago Como! Sigo lendo os artigos, seguimos tentando entender tudo e debatendo a situação no laboratório.

    17 – Dois dias depois, é anunciado o fechamento completo da Itália. Um dia depois é anunciado o fechamento de todo o comércio só ficando aberto farmácias e mercados. 

    18 – O número de mortos aumentam, os médicos são infectados, faltam médicos para tratar as pessoas. O caos chegou enfim. A gente parou! De novo: A GENTE PAROU!

    19 – Estamos em casa, todos!!!!! Vamos às ruas quando precisa, mas não sem medo.

    Enquanto isso, na ponte Brasil-Itália das redes sociais…

    A Rafa estava sã e salva em casa, mas sem ver pessoas, isolada no seu apartamento, lendo artigos sem parar e nos atualizando da situação, da gravidade dos números, das escalas de trabalho no laboratório e de como, aqui no Brasil, devíamos proceder. E nessa altura, Rafa era sim, bem enfática nas recomendações de que não era um exagero e tudo aqui ia fechar também!

    Já a Ana Arnt estava voltando às aulas depois das férias, questionando internamente se a amiga não tava exagerando, tentando ler relatórios internacionais e acompanhar os desdobramentos dos casos brasileiros, que já começavam a pipocar nos noticiários, redes sociais, canais de divulgação científica.

    Pois bem, mal começou as aulas na Unicamp e: paramos! Segunda semana letiva, 15 minutos antes da reunião do Grupo de Pesquisa do PEmCie acontecer, veio a mensagem oficial. Logo após tinha aula na Pós Graduação. Enquanto isso a Rafaela já dizia no grupo que era isso mesmo, sem exagero, a gente tinha que parar!

    Por que isso está nesta série de postagens sobre o Corona?

    Uma das grandes dificuldades de tudo o que está acontecendo é que estamos aprendendo enquanto a doença se desenvolve. E por ser uma doença que avança muito rápido na sociedade, em números, o quão severo era o problema e as razões de considerarmos severo, foram mudando (o que é bem normal no trabalho científico). A grande questão era: nós mudávamos nossa postura frente a tudo o que ocorria, literalmente, da noite para o dia!

    Grande parte do aprendizado, além disso, vinha (e ainda vem) de artigos recém publicados e de relatórios da OMS, sem tempo para debater com nossos colegas. Estamos aprendendo, estudando e divulgando o que sabemos, com um tempo muito curto – e isso não é exatamente o mais comum do dia a dia na Divulgação Científica e na produção científica… Mas vamos ao cerne da questão: Parar ou não parar?

    #fiqueemcasa

    Parece lógico dizer a todos para ficar em casa. Temos que provocar, sim, o isolamento máximo de contatos sociais. Não basta só limpar-se com álcool gel, nem lavar as mãos constantemente. É preciso distância entre pessoas! É fundamental respeitarmos um espaço entre todos na rua, repensarmos nossos hábitos higiênicos e tudo o mais que já foi dito. Mas ficar em casa é sim uma estratégia funcional e fundamental. É a recomendação da OMS, do Ministério da Saúde, de pesquisadores da área. O cenário ideal é esse: todos em casa.

    Mas não é essa a possibilidade o tempo inteiro, não é mesmo? Vivemos em condição de pobreza e miséria em nosso país. Temos um enorme número de pessoas trabalhando na informalidade e/ou como autônomos, o que significa que parar de trabalhar (e, portanto, circular) é parar de receber. Temos pessoas que trabalham na área da saúde, transportes e logística de distribuição de alimentos e medicamentos. E é por estas pessoas, todas elas, que, também, temos que parar.

    Hoje, mais do que informações específicas, recomendações.
    Parar tudo seria um dos caminhos, dentre utopias reais e implementáveis!

    Vídeo em que Italianos falam para “o eles mesmos do passado” – 10 dias atrás.

    Série PEmCie: Coronavírus

    Entrevista de Rafaela Rosa-Ribeiro no jornal Estado de São Paulo

    Links para conferir, sempre, em caso de dúvidas:

    CANAIS OFICIAIS BRASIL e MUNDO

    Organização Mundial da Saúde
    Associação Brasileira de Saúde Coletiva
    Ministério da Saúde
    Central of Disease Control and Prevention

    Jornais

    Folha de São Paulo
    G1
    Estado de São Paulo

    Divulgação Científica:

    Rafaela Rosa-Ribeiro

    Blogs de Ciência da Unicamp:
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    Átila Iamarino:
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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.