Tag: óbitos

  • 1.000.000, 272, 200

    Sugestão para escutar enquanto a leitura segue
    Um milhão um mil quatrocentos e setenta e sete

    Duzentos e setenta e dois

    Duzentos.

    O quê? Mortos, dias de anúncio da China, dias de anúncio da Organização Mundial da Saúde (OMS).

    Não sabe do que se trata ainda?

    Do assunto que se tornou o grande tema a ser debatido neste ano. Coronavírus, também conhecido como SARs-CoV-2, o causador da COVID-19. Portanto, o protagonista de várias de nossas conversas atuais.

    Hoje ultrapassamos a marca de 1 milhão de mortos no mundo, aos 200 dias de pandemia decretada pela OMS, 272 dias do anúncio oficial do governo Chinês (31 de Dezembro de 2019) sobre o vírus.

    No Brasil, hoje foram mais 300 mortes registradas no site worldmeters, com 141.741 mortes acumuladas. Estamos em segundo lugar no mundo em mortes totais. Somos o terceiro país em quantidade de infectados, com 4.732.309 – oficialmente. Estamos em terceiro lugar em novos infectados confirmados HOJE, mais 14.194. Terceiro lugar, também, em “mortes novas” (ocorridas no dia de hoje, 27 de setembro). Temos 539.731 casos ativos confirmados, sendo 8.318 destes casos críticos.

    Em casos relativos, por milhão de habitantes, estamos em sétimo lugar (ufa, não é mesmo?), com 666 mortes por milhão. Somos o sexto país do mundo que fez mais testes (17.900.000) o que parece bastante. No entanto, isto representa estarmos em 82ª posição no mundo em quantidade de testes por milhão de habitantes.

    As mortes do Brasil representam 14% das mortes totais por coronavírus no mundo.

    São números.

    Como assim? Pois é, temos nos acostumado a eles, os assombros das primeiras semanas foram tornando-se nubladas e sem muito sentido ao longo destes 200 dias de pandemia. Não te parece?

    Com bares abertos, praias lotadas, kits covid sem comprovação científica sendo distribuídos, dizeres anti-vacina propagados pelo alto escalão do governo, dinheiros de pesquisa cortados em todos os âmbitos do governo (este ano e ano que vem também) e relativização dos riscos como pauta para abertura de escolas.

    O mundo apresenta o cenário perfeito para qualquer grande conto de ficção científica. Isto é, descrenças em cientistas, pânico moral pelo simples abraço, assujeitamento às condições de clausura ou às necessidades imperativas de pôr alimento à mesa. Vocês conseguem imaginar a narrativa?

    Nós poderíamos descrever com detalhes como vislumbramos uma cena. Mas pareceria cruel tal descrição e, claro, talvez não pareça ficção.

    [pausamos a escrita. respiramos fundo]

    Recarregamos a página com o placar Covid-19 do site Worldmeters. Enquanto escrevíamos até este ponto, mais 261 pessoas morreram – só com a Covid-19.

    Às vezes parece uma realidade paralela “Justo na nossa vez, na nossa vida”, podemos pensar… Mais mortes, mais vidas. No entanto, se estamos reclamando é por estarmos vivos. Mas não adianta esconder, o pensamento volta:

    Justo na nossa vez, na nossa vida

    A resiliência segue e parece pífio falar em necropolítica, em ACE2 ou Spike. Pífio pelo cansaço de uns, pela evidente resistência dos corpos que, no dia a dia, vivem desde o dia 1 de isolamento social, sem isolamento. Que trabalham, vivem, morrem cotidianamente.

    Tampouco parece funcional bradarmos por verbas para a ciência, seguirmos batalhando para que não cedamos para grandes abates por políticas públicas. Contudo, sei lá, montar notas de repúdio e tuitaços falando de nossa auto-importância não ajudou.

    Dessa forma, parece banal falar de esperança. Sentimos como se isso fosse minimizar as mortes até agora sentidas. Assim, destacamos, em um editorial de divulgação científica, que não há ciência suficiente para explicar a dor que estamos vivendo. Um milhão de mortes confirmadas de uma causa que, antes de 31 de Dezembro de 2019, não existia para o mundo.

    Um milhão de mortes!

    Todavia, mesmo não havendo ciência que explique toda a dor sentida pelas perdas desta doença (mortes reais e simbólicas) é através destes conhecimentos científicos produzidos nestes últimos 272 dias – que são também resultado de centenas de anos de busca pela compreensão dos fenômenos naturais, sociais e culturais – que temos conseguido permanecer firmes e avançar. E é nos passos destes conhecimentos, e por todas as pessoas que existem e por todas as que se despediram de nós este ano, que seguiremos batalhando para chegar a soluções mais justas e éticas, para a saúde de todos, com e pela ciência.

    E enquanto produzíamos este texto, ao fim, recarregando o painel mundial, 1.002.402 mortes. Isto é, 925 óbitos por coronavírus, enquanto cerca de 800 palavras foram escritas, lidas, revisadas, reescritas.

    Mas ‘Blogs’, são só números!

    Todavia, se os números te parecem monótonos e sem sentido, recomendamos a visita no projeto INUMERÁVEIS. Um memorial dedicado a cada uma das pessoas mortas pela Covid-19. Ou seja, Não são números: são pessoas, famílias, amigos. Com nomes, sorrisos, força, trabalho, frugalidades, e é disso que se trata. 

    Cópia de tela do projeto Inumeráveis.https://inumeraveis.com.br/

    E é por isso, também, por estes nomes, pessoas, sorrisos, forças e frugalidades que viveram e se despediram que, hoje, gostaríamos de acabar o texto com esperança, no meio de todo este pesar. Esperança pelos saberes que temos e produziremos pela ciência. E esperança, por respeito a todos os que nos deixaram este ano, de que seguiremos lutando, por outros dias que nos aguardam. Por ímpetos e intenções de esperança, mas sem tirar os pés do chão, com o som e a voz de Milton Nascimento, quando ele diz:

    E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir
    Falo assim sem tristeza, falo por acreditar
    Que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer
    Nós iremos crescer, outros outubros virão
    Outras manhãs, plenas de sol e de luz 
    (O que foi feito deveras (de Vera) letra de Fernando Brant)

    Para ler mais

    Academia Brasileira de Ciência (2020) CNPq pode sofrer novo corte em meio à pandemia

    Amado, Guilherme (2020) Depois da Capes, governo corta bolsas também do CNPq: redução chega a 85%. Revista Época

    Bessa, Eduardo (2020) Kits de HCQ e ivermectina são ilusão perigosa na pandemia; Instituto Questão de Ciência, 2 de Julho de 2020.

    Brasil, Ministério da Saúde (2020) Portaria nº 1.565 de 18 de Junho de 2020, Diário Oficial da União, ed 116; seção 1; p 64; 19/06/2020

    Bonora Junior, Maurilio (2020) Se o coronavírus é um vírus pulmonar, como ele infecta outros órgãos? (parte 1) Blogs de Ciência da Unicamp, Especial Covid-19

    Gallas, Daniel (2020) Coronavírus na escola: o que diz a ciência sobre os riscos da volta às aulas? BBC News Brasil, 7 de agosto de 2020.

    Oliveira, Leonardo (2020) Da fatalidade epidemiológica à ferramenta de extermínio: a gestão necropolítica da pandemia Blogs de Ciência da Unicamp, Especial Covid-19

    UOL (2020) Marcos Pontes diz que órgãos de pesquisa devem sofrer cortes no ano que vem

    Este texto é original e foi produzido com exclusividade para o Especial Covid-19, em nome da equipe editorial

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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores. Assim, os autores produzem os textos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e que são revisados por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Dessa forma, não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Podemos comparar estas duas cidades? Exercícios complexos para uma pergunta simples (parte 2)

    No dia 26 de maio me perguntaram sobre a relação entre os casos confirmados e quantidade de óbitos de duas cidades, Porto Alegre e Hong Kong. A ideia geral da pergunta era: estes números são semelhantes?

    Ao tentar responder a pessoa ao que parecia uma pergunta simples, me vi envolta a inúmeras questões importantes sobre todo o fenômeno da COVID-19 e o quanto, também, temos apresentado dados sem que necessariamente as pessoas saibam não apenas receber a informação, mas questioná-las e compreendê-las de maneira menos apressada. 

    A pergunta gerou uma pesquisa que foi se estendendo, se estendendo e cá estamos, no segundo texto da série!

    O primeiro texto pode ser lido aqui. Em resumo, no dia 26 de maio, Porto Alegre tinha 1049 casos confirmados e 32 óbitos. Hong Kong tinha 1066 casos confirmados e 4 óbitos. No primeiro texto, eu busquei analisar algumas questões relacionadas à população total das duas cidades e, também, densidade populacional.

    Neste segundo texto, eu vou apresentar um pouco de como estas cidades estavam 15 dias depois, no dia 09 de Junho e comparar com os dados anteriores…

    Vamos aos dados?

    Ao olhar os números do dia 09 de Junho, 15 dias depois, como estão os dados destas duas cidades?

    • Hong Kong tinha 1.108 casos confirmados da doença, segue com 4 óbitos, 55 casos ativos (3 destes em estado crítico) e 1049 recuperados. Isto representa um aumento de 3,8% de casos confirmados em relação aos números de 26 de maio.
    • Porto Alegre tem 1.712 casos confirmados de Covid-19, têm 45 óbitos, 619 casos recuperados e 4.753 casos suspeitos em análise (aguardando o resultado). Isto representa um aumento de 63,2% de casos confirmados e 40,62% de aumento de óbitos em relação aos números de 26 de maio.

    Quadro 1. Dados totais e percentuais nas datas 26 de Maio e 09 de Junho.

    Imagino que já seja possível compreender, nestes números, como olhá-los isoladamente não faz sentido e podemos cair em falsas impressões de que tudo está tranquilo.

    Vou propor um exercício que sempre é interessante, e que pode ser feito entre o pior e melhor cenário do dia. Não temos o cenário de Hong Kong, por isso pode ser pensado como injusta a comparação. Considerando o pior cenário, no dia 09 de Junho, teríamos 4.753 casos suspeitos que se confirmariam via testes. Neste caso, ao invés de 1.712 casos, teríamos 6.465 confirmações (um aumento de 616,3% de casos confirmados).

    Se metade destes casos em análise se confirmarem, já seriam 2.376 casos confirmados a mais, gerando um total de 4.088 casos confirmados (o que nos daria um aumento de 389,7% de casos confirmados). O melhor cenário seria todos estes casos em análise negativarem. No melhor cenário para o dia 09 de Junho, tivemos um aumento de 63,2% de casos confirmados e 40,62% de óbitos.

    Existem outros dados relevantes?

    Na primeira postagem desta série, eu apresentei os dados comparando o número de infectados a cada 100 mil habitantes e a densidade populacional. Então, abaixo, vou apresentar os mesmos dados nas duas datas já mencionadas.

    Para retomar os dados populacionais:
    – Porto Alegre tem cerca de 1.483.770 habitantes e uma densidade populacional de 2.837,52 habitantes por km2 (segundo dados da Prefeitura de Porto Alegre).

    – Hong Kong tem cerca de 7.493.240 habitantes e uma densidade populacional de 6.510,23 habitantes por km2 (Segundo o Index Mundi).

    Quadro 2. Comparação entre Números absolutos e comparativos à densidade populacional e número de habitantes em 26 de Maio e 09 de Junho

    Estes dados nos mostram que em Porto Alegre, tivemos um aumento de 81,92% de casos confirmados por 100 mil habitantes, enquanto Hong Kong teve um aumento de 2,07% de casos confirmados. 

    Em relação à densidade populacional dos casos confirmados, Porto Alegre teve um aumento de 62,68%, enquanto Hong Kong teve um aumento de 3,23%.

    Não apenas os dados das duas cidades eram diferentes na data do dia 26 de maio, como descrito no primeiro post desta série, como observar estes dados 15 dias depois aponta para uma diferença que, infelizmente, é gigantesca.

    Ao olhar os óbitos nas duas cidades, novamente a diferença se faz gritante. Hong Kong manteve a quantidade de óbitos, nestes últimos 15 dias. A relação de óbitos, no entanto, precisa de um olhar mais atento – que também será abordado em um próximo texto.

    Vamos observar as medidas das duas cidades…

    Hong Kong impôs um período de severo isolamento social na cidade. Quando o novo coronavírus foi anunciado, dia 31 de Dezembro de 2019, pela questão geográfica de proximidade, Hong Kong tomou medidas preventivas rapidamente. No dia 03 de Janeiro já havia controle dos desembarcados no aeroporto, com política de quarentena para quem tivesse qualquer sintoma. O primeiro caso foi registrado no dia 23 de Janeiro e a cidade foi impondo uma agenda de controle e registro de cada caso que aparecia. A partir do dia 13 de Fevereiro, fez um isolamento severo, sem lockdown, mas controlando a circulação de pessoas, proibição de viagens, fechamento de escolas e universidades e quarentena para pessoas que chegavam na cidade. O uso de máscaras na região, em casos de doenças infecciosas, já é um hábito. Hong Kong é uma das cidades com maior densidade populacional do mundo e, mesmo assim, a quantidade de mortos se mantém a mesma há mais de 2 meses, com um crescimento pequeno de casos confirmados.

    A flexibilização das práticas de isolamento social em Hong Kong, neste caso, se faz a partir não da análise dos números brutos de um dia ou uma semana, mas de meses de controle dos contatos sociais de modo disciplinado, aliado a uma testagem em massa da população (o que ainda vamos debater na próxima postagem da série). Lembrando que Hong Kong registrou seu primeiro caso em 23 de Janeiro, a flexibilização no dia 26 de maio seria 125 dias depois da primeira confirmação de casos da COVID-19 no país.

    Ainda é bom falar que esta flexibilização não se faz por uma ideia de que não existirá contaminação, mas a partir do controle de casos que forem aparecendo – via testes, fechando e abrindo a cidade de maneira disciplinada e estruturada, aumentando a capacidade hospitalar.

    Os dados de Porto Alegre – considerando que esta cidade que apresenta bons índices em relação ao Brasil – devem ser observados com cautela quando percebemos que existe, sim, um aumento da quantidade de contágio, internações e com uma enorme quantidade de casos em análise. Porto Alegre implementou um protocolo para aeroportos no dia 28 de Janeiro. O primeiro caso confirmado na cidade foi noticiado no dia 08 de Março, dia 16 de Março as aulas são suspensas. As medidas de flexibilização que vinham sendo debatidas no dia 26 de Maio, aconteciam 81 dias após o primeiro caso registrado na cidade, com 2.743 casos em análise (aguardando resultado).

    Reportagem da Gaúcha ZH de Tiago Boff no dia 26 de Maio, sobre o transporte público na capital gaúcha.

    Enquanto isso, tal como a reportagem acima afirma, o isolamento proposto em Porto Alegre – assim como em várias capitais brasileiras – não tinha uma adesão tão grande quanto deveria (por inúmeros motivos políticos, econômicos e sociais). 

    Nestes 15 dias – entre 26 de maio e 9 de junho – não apenas Hong Kong se manteve estável em relação às mortes, como permaneceu com uma média de testes populacional muito maior do que em nosso país. Mesmo assim, com uma quantidade de testes menor, aumentamos nossos casos confirmados e mortes de maneira expressiva. Vale lembrar que o Brasil, na data de 09 de Junho, estava fazendo 6 vezes menos testes do que Hong Kong, por milhão de habitantes. Com isso, temos uma quantidade de casos que são considerados leves e moderados que não têm sido testados em nosso país. Em toda a análise que apresentei aqui, desconsiderei completamente os casos de subnotificação por falta de testes.

    Finalizando

    Este post foi estruturada como resposta a uma pergunta feita no dia 26 de maio. É o segundo texto elaborado e minha ideia era não apenas apresentar os dados, mas tentar trabalhar um pouco sobre como, dentro da divulgação científica e dentro das áreas de pesquisa, vamos buscando compreender e estudar estes dados.

    Ainda há bastante temas para trabalhar em cima disso, vou falar um pouco sobre testes, subnotificações, modelagem epidemiológica e determinantes sociais da doença. Alguns destes itens já foram trabalhados aqui no blogs, outros ainda não… Este exercício se mostra interessante, mesmo alguns números ficando, aparentemente, desatualizados, pois nos impõe garimpar dados, olhar diferentes fontes, fazer perguntas aos números que nos são apresentados.

    Para escrever este texto, assim como o primeiro, eu contei com a leitura, revisão e boas conversas com uma galera da Divulgação Científica e da Unicamp, que eu faço questão de agradecer aqui:Marco Henrique, do blog zero (que além da revisão e das mil ideias, fez as imagens e corrigiu todos os cálculos! hehehe), o Samir Elian, do blog Meio de Cultura A Erica Mariosa, do blog Mindflow, o Roberto Takata, do blog Gene Reporter e o Professor Hyun Mo Yang, do Instituto de Matemática, Estatística e Ciências da Computação (IMECC) da UNICAMP.

    Para saber mais

    AAA INOVAÇÃO. Linha do Tempo do Coronavírus no Mundo [31/12/19 até 10/06/2020]. Acesso em 09/06/2020.

    BOFF, Thiago (2020) Passageiros e motoristas de linhas que podem ser suspensas afirmam que ônibus circulam lotados em Porto Alegre Gaúcha ZH, Porto Alegre, 26 de Maio de 2020. Acesso em 15/06/2020

    CRONOLOGIA DA PANDEMIA COVID-19. Wikipedia. Acesso em 09/06/2020.

    DIHL, Bibiana. Porto Alegre é a primeira cidade do país a ter decreto de emergência reconhecido pelo governo federal. Gaúcha ZH Porto Alegre, 02/04/2020. Acesso em 09/06/2020.

    GONZATO, Marcelo (2020). Porto Alegre tem a quarta menor incidência de coronavírus entre as capitais. Gaúcha ZH Saúde.

    HONG KONG. (2020a) Coronavirus  Acesso em 15/06/2020

    HONG KONG (2020b) Latest Situation of Novel Coronavirus infection in Hong Kong Acesso em 15/06/2020

    HONG KONG NÃO TÊM (2020) Hong Kong não tem novos casos de coronavírus pela 1ª vez em quase 2 meses. Valor Econômico. Acesso em 09/06/2020.

    LIMA, Lioman. (2020). Coronavírus: 5 estratégias de países que estão conseguindo conter o contágio. BBC Brasil, 18/03/2020. Acesso em 09/06/2020

    MINISTÉRIO DA SAÚDE (2020) Coronavírus Brasil. Acesso em 09/06/2020.

    MOTA, Renato. Países asiáticos voltam a ver seus números da Covid-19 crescerem. Olhar Digital, 07/04/2020. Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE. Secretaria de Saúde (2020a). Boletim COVID-19 nº 65/2020. Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE. Secretaria de Saúde (2020b). Boletim COVID-19 nº 78/2020. Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE. (2020c) Prefeitura prorroga decreto de isolamento social e libera mais alguns setores. Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE (2020d). Vigilância do novo coronavírus mobiliza área de saúde da Capital. Acesso em 15/06/2020

    PORTO ALEGRE (2020e). Saúde Municipal se mobiliza para vigilância do coronavírus

    ROCHA, Camilo. (2020). Os estudos que mostram o impacto positivo do isolamento social.   Nexo Jornal, 21 de abr de 2020. Acesso em 09/06/2020.

    SORDI, Jaqueline (2020). Lupa na Ciência: Estudos mostram eficácia do isolamento social contra Covid-19 e projetam cenários. Agência Lupa, 20 de abril de 2020. Acesso em 09/06/2020.

    YUGE, Claudio. (2002). Países que já haviam controlado a COVID-19 confirmam a 2ª onda de infecções. Canal Tech, 06 de Abril de 2020. Acesso em 09/06/2020.

    WORLDOMETERS. Coronavírus. Acesso em 09/06/2020.

    ZUO, Mandy; CHENG, Lilian; YAN, Alice e YAU, Cannix. (2019). Hong Kong takes emergency measures as mystery ‘pneumonia’ infects dozens in China’s Wuhan city.South China Moorning Post,  31 dezembro de 2019. Acesso em 09/06/2020.

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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


    editorial

  • Podemos comparar estas duas cidades? Exercícios complexos para uma pergunta simples (parte 1)

    Algumas semanas atrás, interrogaram-me sobre os números de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que estavam muito bons e parecidos com Hong Kong (em quantidade de casos confirmados e óbitos).

    Tal questionamento foi feito no sentido das possibilidades de abertura do comércio com segurança e sem exposição das pessoas (com protocolos específicos, por exemplo), uma vez que os contágios estariam contidos. Esta ideia se dava ao comparar os dados das duas cidades naquele dia (26 de maio de 2020). Fui olhar com mais cuidado os dados. Além disso, conversar com a pessoa que me perguntou, para ver como ela entendia os números que me pedia para comparar…

    Uma das questões que vem acompanhando grande parte das dúvidas sobre a COVID-19, os contágios, o isolamento social é a dificuldade em compreender gráficos exponenciais, relacionar projeções populacionais, a partir de ações pontuais (como os isolamentos em situações específicas e de lugares específicos), entender as curvas que tanto falam (tu podes ler aqui e aqui sobre isso). Também têm sido difícil entender mudanças de posicionamentos a partir de dados científicos. Assim, o que é tão propagado como fonte de segurança e tomada de decisões acertadas, parece mudar ao longo do tempo (tu podes acessar este texto e este aqui sobre o tema).

    Meu intuito neste post não é acrescentar muitos dados difíceis de serem compreendidos. Pelo contrário! Quero tentar mostrar como olhar os dados de forma apressada pode nos passar uma falsa impressão de que é possível comparar números de modo isolado. Assim, podemos evitar cair em análises rápidas e descuidadas. A grande questão é que uma pergunta aparentemente simples me levou a muitos caminhos para organizar a resposta! Com isto eu, bióloga de profissão, fui convidando outros colegas especialistas para revisarem e me ajudarem na elaboração do texto/resposta. O resultado disso é: “senta que o texto é longo”! (E aguarda que este é só o primeiro de uma série!!!).

    Vamos refazer a pergunta: Olha Porto Alegre e Hong Kong, os números estão parecidos, qual o motivo das ações de flexibilização serem diferentes? (pergunta feita dia 26 de maio de 2020).

    Primeiros cuidados

    É fundamental compreendermos que a comparação entre Porto Alegre e Hong Kong não deveria ser feita “pela mesma data do calendário”. Por quê? Pois, o tempo em que a doença iniciou e se disseminou nas duas cidades é diferente. Se comparamos a mesma data, pegamos uma função exponencial em Hong Kong com 30 dias de diferença a mais do que Porto Alegre.

    Levando-se isto em consideração, o melhor a se fazer, nesse caso, seria uma comparação tomando por data inicial de ocorrência em uma cidade e comparando com o mesmo tempo decorrido na outra cidade.

    Além desta primeira precaução, ao observarmos os dados, existem outros pontos, que eu vou apresentar a vocês agora e levantar outras questões acerca dos números que achei. Seria fundamental também vermos como cada cidade encarou as medidas de isolamento. Pois tudo isto interfere na contagem dos casos. Isto é, analisar antes e depois das exposições, transmissão comunitária, quantidade de leitos com respiradores,  entre outros fatores. Só este parágrafo é pano para manga – ou texto para vários posts…

    Vamos aos dados?

    Resolvi encarar o desafio e olhar os dados das duas cidades no dia que me perguntaram, tentando mostrar como também não é simples compará-las, mesmo ignorando o que já apontei no item anterior.

    No dia 26 de Maio de 2020, Porto Alegre tinha um total de 32 mortes em 1049 casos confirmados da doença. Hong Kong, no mesmo dia tinha, um total de 4 mortes em 1.066 casos confirmados.

    A suposição inicial, na pergunta que foi feita para mim, era: se os números são próximos, qual o motivo de Hong Kong poder abrir o isolamento social e em Porto Alegre afirmarem que a flexibilização era precoce?

    Bom, ao ver os cenários aparentemente, numa primeira vista, os números eram próximos mesmo. Porém, será que estes números são suficientes para afirmar que as cidades estão parecidas em relação à COVID-19?

    Eu resolvi pesquisar um pouco mais… Vale lembrar que no dia 26 de maio Hong Kong tinha 1066 casos confirmados, desde o primeiro registro, que ocorreu 125 dias antes (23 de Janeiro). Já Porto Alegre estava com 1049 casos confirmados em 81 dias de controle e registro.

    Assim, as perguntas que achei pertinente fazer, num primeiro momento foi: quantos habitantes têm estas duas cidades? Qual a densidade populacional?
    – Porto Alegre tem cerca de 1.483.770 habitantes e uma densidade populacional de 2.837,52 habitantes por km2 (segundo dados da Prefeitura de Porto Alegre).

    – Hong Kong tem cerca de 7.493.240 habitantes e uma densidade populacional de 6.510,23 habitantes por km2 (Segundo o Index Mundi).

    Estes dois dados são interessantes pois não apenas indicam que Porto Alegre têm menos gente (número de habitantes), mas têm uma menor quantidade de pessoas “no mesmo espaço” (número de pessoas “em um quilômetro quadrado”). Ainda têm dúvida sobre estes conceitos? De repente uma imagem pode nos ajudar com isto…

    Densidade Populacional de Porto Alegre, cada rostinho feliz representa 100 pessoas. O espaço inteiro representa 1km2
    Densidade Populacional de Hong Kong, cada rostinho feliz representa 100 pessoas. O quadrado inteiro representa 1km2.

    Perceba que essa informação me pareceu importante de ser trabalhada para explicar essa questão, a partir da ideia de que: se o SARS-CoV-2 é transmitido através do contato com pessoas contaminadas (ou pelo contato com objetos contaminados por estas pessoas), quanto “mais pessoas” em um mesmo espaço, mais facilmente se daria o contato, caso não houvesse nenhuma medida eficaz de controle, correto?

    Assim, o motivo de eu buscar estes dados de quantidade de pessoas e densidade populacional se deu pois o número absoluto de casos confirmados e óbitos não diz muito sobre o que está acontecendo em determinado lugar. Precisamos comparar números que sejam “compatíveis” entre si… Neste caso, eu busquei não apenas olhar os casos confirmados e óbitos, mas analisar também:

    1. os casos confirmados e óbitos em relação à quantidade de pessoas existente em cada cidade (eu achei melhor analisar quantos casos para cada 100.000 habitantes para entender melhor os números) e
    2. os casos confirmados e óbitos em um mesmo espaço (1 quilômetro quadrado);

      Veja o quadro comparativo, para o dia 26 de maio:

    Estes dados, olhando para o dia 26 de maio apenas (sem analisar os dados e sua modificação ao longo do tempo), já demonstram que não são nem um pouco iguais. Vamos tentar entender?

    A primeira ideia que tive foi ver “quantas pessoas contaminadas existem a cada 100 mil habitantes?”. Com isto, eu conseguiria comparar números compatíveis entre si, pois faria uma proporção para quantidades equivalentes na população. Hong Kong têm uma população muito maior que Porto Alegre – para ser exata 5,05 vezes maior. Porto Alegre, no dia 26 de maio, estava com 71 casos confirmados a cada 100 mil habitantes, enquanto que Hong Kong estava com 14 casos confirmados a cada 100 mil habitantes, para ser exata, Porto Alegre têm 5,07 vezes mais pessoas contaminadas do que Hong Kong, a cada 100 mil pessoas. Esta relação já nos diz que não. As cidades não apresentavam dados semelhantes naquele momento.

    Outra pergunta que eu fiz ao olhar os números era a densidade populacional… Hong Kong tem uma quantidade de pessoas vivendo dentro de um mesmo espaço muito maior do que Porto Alegre, já mostrei isso com as carinhas felizes lá em cima. O fato de ter um número próximo de casos confirmados nos indica que há muito menos pessoas infectadas dentro de um mesmo território, comparativamente. A densidade de pessoas contaminadas confirmadas em Porto Alegre (2,01 pessoas) é mais que o dobro da densidade de pessoas contaminadas em Hong Kong (0,93 pessoas).

    Outro dado para pensarmos: temos um número próximo de casos confirmados, no entanto, Hong Kong têm 5 vezes a quantidade de pessoas. Isto é: comparativamente, a cidade de Hong Kong tem muito menos pessoas contaminadas do que Porto Alegre em um total de habitantes.

    Sobre a relação entre os óbitos, existem muitos fatores que podem influenciar estes dados e, embora Porto Alegre tenha 8 vezes mais óbitos do que Hong Kong, seriam necessárias informações mais minuciosas para se compreender completamente os óbitos e poder compará-los… Uma das questões poderia ser mais vinculada à quantidade de testes e à subnotificação no Brasil, o que gera uma ideia de maior letalidade aqui. Mas sobre os testes, falaremos em outro post… Aguarde 🙂

    Voltarei a ressaltar que o SARS-CoV-2, o novo Coronavírus, se transmite pelo contato entre pessoas, em espaços públicos e comerciais, de trabalho e, também em moradias com mais de uma pessoa, correto? É de se esperar, portanto, que uma cidade em que a densidade populacional é maior teria uma quantidade de pessoas infectadas maior também, pela própria forma como esta doença se espalha. Aqui temos um dado muito importante: Hong Kong, mesmo com uma densidade populacional 2,3 vezes maior que Porto Alegre, tem uma densidade menor de casos confirmados (menos da metade de casos, por quilômetro quadrado!!!).

    Em suma…

    Por hoje resolvi apresentar este primeiro exercício respondendo à questão, de tentar observar os dados e realizar perguntas para eles, buscando resposta nos sites oficiais, reportagens jornalísticas e artigos científicos.

    Esta pergunta se mostrou muito produtiva (para mim, ao menos) para pensar como existem dados que, sim, podem nos confundir e que existem diferentes maneiras de interpretarmos as informações. Além disso, compreender ciência não basta para sabermos explicar algo que é, numa primeira vista, uma pergunta simples. Com isso, já adianto que vem mais respostas por aí e que usarei estes dados para exemplificar e explicar como podemos analisar os números que nos vem sendo apresentados. Como podemos entender melhor os gráficos que têm sido mostrados, as relações entre estes gráficos e números, etc.

    Para isso, já adianto que chamei um conjuntinho de pessoas incríveis para me ajudar (inclusive intimei para escrever hehehe)! E esta primeira parte da resposta eu já tive colegas que me deram um grande apoio, lendo, comentando, dando pitaco. Vou agradecer formalmente ao Marco Henrique, do blog zero (que além da revisão e das mil ideias, fez as imagens e corrigiu todos os cálculos! hehehe), o Samir Elian, do blog Meio de Cultura A Erica Mariosa, do blog Mindflow, e o Roberto Takata, do blog Gene Reporter.

    Para saber mais

    AAA INOVAÇÃO (2020) Linha do Tempo do Coronavírus no Mundo [31/12/19 até 10/06/2020], Acesso em 09/06/2020.

    CRONOLOGIA DA PANDEMIA COVID-19 (2020) Wikipedia, Acesso em 09/06/2020.

    DIHL, Bibiana (2020) Porto Alegre é a primeira cidade do país a ter decreto de emergência reconhecido pelo governo federal Gaúcha ZH Porto Alegre, 02/04/2020. Acesso em 09/06/2020.

    GONZATO, Marcelo (2020) Porto Alegre tem a quarta menor incidência de coronavírus entre as capitais. Gaúcha ZH Saúde.

    HONG KONG NÃO TÊM (2020) Hong Kong não tem novos casos de coronavírus pela 1ª vez em quase 2 meses Valor Econômico, Acesso em 09/06/2020.

    LIMA, Lioman. (2020) Coronavírus: 5 estratégias de países que estão conseguindo conter o contágio BBC Brasil, 18/03/2020, Acesso em 09/06/2020

    MINISTÉRIO DA SAÚDE (2020) Coronavírus Brasil Acesso em 09/06/2020.

    MOTA, Renato (2020) Países asiáticos voltam a ver seus números da Covid-19 crescerem Olhar Digital, 07/04/2020, Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE Secretaria de Saúde (2020a) Boletim COVID-19 nº 65/2020 Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE. Secretaria de Saúde (2020b) Boletim COVID-19 nº 78/2020, Acesso em 09/06/2020.

    PORTO ALEGRE (2020c) Prefeitura prorroga decreto de isolamento social e libera mais alguns setores Acesso em 09/06/2020.

    ROCHA, Camilo (2020) Os estudos que mostram o impacto positivo do isolamento social Nexo Jornal, 21 de abr de 2020 Acesso em 09/06/2020.

    SORDI, Jaqueline (2020) Lupa na Ciência: Estudos mostram eficácia do isolamento social contra Covid-19 e projetam cenários Agência Lupa, 20 de abril de 2020 Acesso em 09/06/2020.

    YUGE, Claudio (2002) Países que já haviam controlado a COVID-19 confirmam a 2ª onda de infecções Canal Tech, 06 de Abril de 2020 Acesso em 09/06/2020.

    Worldometers (2020) Coronavírus Acesso em 09/06/2020.

    ZUO, Mandy; CHENG, Lilian; YAN, Alice e YAU, Cannix. (2019) Hong Kong takes emergency measures as mystery ‘pneumonia’ infects dozens in China’s Wuhan city. South China Moorning Post,  31 dezembro de 2019. Acesso em 09/06/2020.

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    Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


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