Agricultura Urbana
Introdução
Quando a FAO diz que até 2050 mais de 70% da população mundial viverá em centros urbanos, uma das perguntas imediatas é: como essa população vai se alimentar? Com menos pessoas vivendo e trabalhando no campo, onde vamos produzir os alimentos? Como eles serão transportados, consumidos, descartados, reaproveitados? Uma das respostas para tantos questionamentos é: a agricultura urbana.
Já não é de hoje que as pessoas produzem alimentos em casa. Uma horta no quintal ou na escola são exemplos de produção de alimentos no ambiente urbano, mas, quando se pensa em grande escala, o tema se torna mais desafiador. Dentro do conceito de cidades inteligentes e sustentáveis, a agricultura urbana vai além da produção, considerando também o uso de tecnologias para planejar a distribuição desses alimentos de forma eficiente. O objetivo é economizar energia, evitar emissões de gases de efeito estufa por transporte, evitar o desperdício de água e proporcionar circularidade na cadeia, isto é, possibilitar que restos de alimentos ou alimentos não utilizados retornem na forma de compostos orgânicos e biofertilizantes.
Mas, para isso acontecer, a sociedade precisa não só pensar como produzir o que come, mas em sua cultura e em seus hábitos de alimentação. Em sociedades cada vez mais populosas e com grande oferta de alimentos industrializados e de fácil preparação, a população dos grandes centros urbanos se distanciou da produção e do conhecimento do que come, o que resulta em problemas de saúde, como obesidade, colesterol alto e diabetes. Por outro lado, nas regiões mais vulneráveis do planeta, aumentaram-se as taxas de fome e desnutrição. A produção e o consumo de alimentos em escala local, próximo de onde as pessoas vivem, tornou-se, assim, uma solução para combater a desigualdade alimentar e garantir equilíbrio dietético e nutricional às pessoas. O vídeo a seguir mostra alguns exemplos de soluções para a produção de alimentos no ambiente urbano de forma circular e sustentável:
Dentro da Educação para a Sustentabilidade, a temática de produção de alimentos sustentáveis e agricultura urbana é muito utilizada por provocar os estudantes a refletirem sobre seus hábitos alimentares e, ao mesmo tempo, problematizar sobre como os alimentos são produzidos atualmente. É um exemplo prático de como nos distanciamos da natureza e um convite para essa reaproximação. Muitas escolas, aliás, têm sido parceiras estratégicas em projetos de agricultura urbana pelo Brasil. Além de prover alimentos para a comunidade escolar, esses projetos podem ser usados por professores dos mais variados componentes curriculares em suas práticas educativas.
Veja a seguir um vídeo com um exemplo de uma escola da cidade de São Paulo que realizou um projeto para que os estudantes plantassem uma mini agrofloresta, revolucionando a escola e a relação com a comunidade.
Estudo de Caso
A Alimentação do Futuro
Como será o alimento que comemos daqui a 30 anos? Não precisamos ir tão longe na linha do tempo. Nesse exato momento, já há centros de pesquisas, governos e empresas investindo fortemente em pensar e em produzir alimentos considerados tecnológicos e conectados com as tendências e demandas do futuro. Um exemplo são os alimentos à base de plantas que “copiam” as carnes. Hambúrgueres, salsichas e similares com aparência de carne, gosto de carne, mas feitos à base de proteínas como soja, ervilha e grão de bico.
Soma-se a essa tendência outros conceitos, como estufas ultra-tecnológicas para a produção de alimentos em larga escala e em pouco espaço, além de sistemas de compras e distribuição de alimentos com o uso de ferramentas tecnológicas.
Essa matéria conta com mais detalhes as tendências da comida do futuro:
Um dos desafios ao se pensar na alimentação do futuro é a aposta em muita tecnologia, além de se manter o pensamento tradicional dos alimentos industrializados e ultra-processados. Os próprios alimentos com proteínas à base de plantas, por exemplo, são vendidos como salvadores do futuro do planeta, mas seguem a mesma lógica industrial de produção de alimentos, com excesso de ingredientes sintetizados, e apoiada no discurso da demanda de proteínas e da redução de gases de efeito estufa.
Ou seja, criou-se dentro das escolas de nutrição e medicina a teoria de que os seres humanos demandam de uma alta taxa diária de consumo de proteínas. Com isso em mente, atualmente temos um cenário onde países desenvolvidos registram consumo excessivo de proteínas, enquanto países em desenvolvimento ainda têm dificuldades em atingir os níveis mínimos de consumo de alimentos proteicos. Soma-se a isso que para atender tamanha demanda por proteínas, há a necessidade de produçao massiva de proteína animal, como produtos advindos do gado (por exemplo, carne e leite), avicultura (carne de frango e ovos) entre outros. Mas, tais produções, registram ao longo da história grandes impactos ambientais, como os impactos do gado no uso da terra e o desmatamento para abrir novas áreas de produção de animais e produtos para alimentar esses animais (como a soja para alimentar o gado). As proteínas a base de vegetais se inserem no mercado como alternativa para atender a demanda global por proteínas e combater os desafios ambientais causados pelas proteínas animais, mas, no fim, elas são consumidas em países onde o consumo de proteína está acima do necesário e usando formas de produção que também impactam o meio ambiente (po exemplo, proteínas a base de soja).
O estudo Proteínas e política, da IPES Food, mostra como esse discurso é arriscado, uma vez que a demanda por proteínas é variada ao redor do mundo. Enquanto em países desenvolvidos o consumo de proteínas é exagerado, em países em desenvolvimento onde as pessoas possuem deficiência proteica, a solução poderia sim ser proteína de base animal. Além disso, o relatório mostra que não podemos usar só o discurso da redução de emissão de gases de efeito estufa como argumento para essa transição alimentar. Também é preciso olhar para o ciclo produtivo como um todo e para as necessidades de mudanças em todo o sistema de produção de alimentos.
Por último, o estudo chama a atenção para o fato de que enquanto os produtos à base de proteínas de plantas ganham cada vez mais espaço nas prateleiras dos supermercados, os maiores investidores e acionistas das empresas desses produtos são os mesmos das empresas de carnes. Há, inclusive, empresas que tradicionalmente estavam baseadas na venda de proteínas animais e que agora se autodenominam empresas produtoras de proteínas. Ou seja, a comida do futuro segue sendo produzida e financiada por quem criou a comida (e os desafios dela) do passado.
Se, por um lado, pensar na alimentação do futuro passa por ideias ultra-tecnológicas, há soluções já em prática que são muito mais simples, como as hortas urbanas.
Além de produzir alimentos em escala local, muitas vezes essas hortas otimizam espaços ociosos, movimentam a comunidade, geram emprego e renda e incentivam hábitos de alimentação mais saudáveis.
Além disso, reaproximam os cidadãos do contato com o que comem, já que eles podem saber a origem do que têm à mesa. Para montar essas hortas, há também uso de tecnologias, mas muitas delas são as tradicionais, como as de resgate de sementes, que já eram adotadas por gerações anteriores, como os nossos avós e bisavós. São as chamadas sementes crioulas.
A seguir, você pode conferir uma seleção de três materiais (dois vídeos e uma entrevista em áudio) para apoiar essa reflexão:
Dicas para a sala de aula
A alimentação é uma necessidade básica do ser humano, por isso a temática da agricultura urbana é uma abordagem interessante para se discutir sustentabilidade com os estudantes, com base nas próprias realidades deles. Tal discussão pode também resultar em outras vertentes temáticas, possibilitando a análise de desigualdades (acesso ao alimento), investigando a logística por trás da produção e do consumo de alimentos (pesquisar o termo “do campo à mesa” pode ajudar a encontrar boas ideias para a sala de aula) e até mesmo sugerindo o estudo sobre a questão das mudanças climáticas, uma vez que, no Brasil, a agricultura é a principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa, principalmente por causa da pecuária onde o gado emite muito metano e ocupa muito espaço (uso da terra). Além disso, a produção de soja para alimentar o gado está por trás da principal causa de desmatamento.
Algumas sugestões de atividades:
Desafie os estudantes a anotarem tudo o que comeram durante um dia, seja em casa ou na escola.
Oriente-os a anotar as refeições e ingredientes necessários para elas, do café da manhã ao jantar.
Após essa coleta de dados, peça aos alunos que tentem investigar a origem desses alimentos/ingredientes.
Eles são naturais ou industrializados? De onde vieram? É possível saber onde foram produzidos? Se forem industrializados, onde é a fábrica de tal produto?
No final da atividade, os estudantes devem ter um diagnóstico de suas alimentações e, com base nisso, é possível promover um debate sobre o que chamou a atenção deles nesse exercício e sobre o que aprenderam com ele.
Também é possível fazer um cálculo de pegada de carbono com alguma ferramenta que leve em conta a alimentação. Neste artigo há a indicação de uma ferramenta específica para pegada de carbono dos alimentos (a calculadora é em inglês e pode ser usada em atividades interdisciplinares com as aulas de Língua Inglesa).
O artigo também apresenta dados interessantes sobre o impacto dos alimentos.
Como já mostrado nas páginas anteriores, produzir uma horta dentro da escola ou em algum espaço ao redor dela a que os estudantes tenham acesso é uma opção para se aprender com a observação prática e com a “mão na massa”.
Hortas no ambiente escolar ajudam a mostrar aos estudantes a origem dos alimentos, os desafios da produção e os cuidados necessários (rega, poda, uso de fertilizantes etc).
Também é um espaço onde professores de Ciências da Natureza, por exemplo, podem explicar conceitos atrelados ao currículo escolar.
Mas, é importante ter em mente que a implementação e gestão de uma horta escolar demanda mobilização de toda a comunidade escolar para garantir a manutenção e bons resultados no uso do espaço.
Então, para além do viés educativo, as hortas escolares também levantam a importânica da mobilização da comunidade do entorno para atuar ativamente dentro do espaço escolar.
Nesta atividade, os estudantes são convidados a atuar como repórteres da escola. organizados em grupos sub-temáticos/editorias, eles podem elaborar peças comunicativas a serem expostas em algum espaço público e de acesso a todos os estudantes da escola, com investigações sobre alimentação sustentável, produção de alimentos, alimentação do futuro etc.
Os estudantes podem fazer pesquisas de materiais, fazer entrevistas com profissionais, bem como fazer entrevistas com os gestores e merendeiros da escola para discutir, por exemplo, como funciona a produção e a logística da merenda escolar, e o que eles sabem sobre os alimentos que cozinham e distribuem.
Esta é uma atividade muito interessante para ser desenvolvida em aulas de Língua Portuguesa, pois incentiva a turma a aprender sobre a construção de textos, técnicas de entrevista e reportagem, ao mesmo tempo em que aprofunda os conhecimentos sobre agricultura e alimentação sustentável e compartilha isso com toda a comunidade escolar.
